Correio de Carajás

Sofia e o lugar onde a tristeza chegou primeiro

Sofia chegou a Marabá numa manhã de calor em que o sol parece nascer já cansado de iluminar o mundo. Tinha passado por tantas cidades que já não sabia dizer de onde era. Paulista de nascimento, filha de caminhoneiro, aprendera cedo que casa podia ser qualquer lugar onde sua mãe arrumasse as malas e seu pai soubesse apontar o caminhão para a próxima estrada.

Antes de Marabá, houve Goiânia, e antes de Goiânia houve outras cidades cujos nomes já começavam a se misturar em sua memória como fotografias guardadas numa caixa sem legendas. Mas Marabá parecia diferente. Havia o rio, o calor, as mangueiras, a poeira vermelha e aquela sensação estranha de que a cidade, apesar de grande, ainda conseguia guardar segredos.

Foi matriculada no 8º ano de uma escola pública da Nova Marabá.

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Nas primeiras semanas, Sofia parecia ter encontrado finalmente um lugar onde pudesse ficar.

Era inteligente, dedicada e participativa. Fazia perguntas que obrigavam os professores a pensar duas vezes antes de responder. Lia os textos até o fim, entregava as atividades no prazo e, quando algum colega não entendia uma questão, explicava de novo, com paciência.

Os professores começaram a dizer que ela era um exemplo.

Sofia sorria quando ouvia.

Mas só durou um semestre.

A mudança começou tão devagar que ninguém percebeu o dia exato em que aconteceu. Primeiro, ela deixou de levantar a mão. Depois, começou a olhar pela janela durante as aulas. Em seguida, vieram as faltas.

Um dia, foram os óculos que havia perdido.

No outro, uma cólica implacável.

Depois, uma dor de cabeça.

Sempre havia uma razão.

E, enquanto as desculpas aumentavam, Sofia diminuía.

Diminuía nas conversas, nas respostas, nas notas, nos corredores. Até o sorriso, que antes aparecia com facilidade, passou a ser uma coisa rara, quase clandestina. Dormia durante algumas aulas e acordava assustada, como se tivesse sido surpreendida fazendo alguma coisa errada.

Os professores perceberam.

A professora de Língua Portuguesa, acostumada a procurar sentidos até onde os alunos diziam não haver nenhum, resolveu procurar a coordenadora pedagógica, que convidou a mãe para ir à escola.

E foi aí que o mundo da menina, que já estava desmoronando em silêncio, caiu de vez.

Sofia ainda não havia contado a ninguém que o pai e a mãe tinham se separado. Para ela, a separação não era apenas a ausência de um homem dentro de casa. Era a sensação de que alguma coisa que parecia permanente havia descoberto que não era. O caminhão do pai continuava percorrendo estradas, mas agora havia uma distância que nenhuma rodovia conseguia medir.

Ela ficou triste.

Depois, muito triste.

E finalmente aprendeu a esconder a tristeza.

A mãe, entretanto, não sabia de tudo. Não sabia que a filha já não participava das aulas, que suas notas haviam despencado, que o sono era uma espécie de abrigo e que havia dias em que até respirar parecia exigir esforço.

A mãe encontrou uma explicação mais simples: o celular.

Disse que a filha passava tempo demais diante da tela.

Tomou o aparelho. E, naquela tarde, a violência ocupou o lugar que deveria ser ocupado pelo diálogo. Sofia apanhou.

Apanhou de uma maneira que fez seu corpo carregar durante dias aquilo que sua boca ainda não conseguia contar.

Ficou uma semana sem ir à escola e quando voltou, os professores quase não reconheceram a menina.

O cabelo estava curto demais, havia manchas roxas espalhadas pelo corpo e, sobretudo, um olhar que parecia pedir uma coisa que ela não sabia pedir:

não me mandem de volta para casa.

Foi então que aqueles professores compreenderam que estavam diante de uma dor muito maior do que imaginavam.

Descobriram a separação dos pais. Descobriram a violência. Descobriram que, às vezes, uma criança não deixa de estudar porque perdeu o interesse pelos livros, mas porque perdeu, antes, alguma coisa dentro de si.

E fizeram o que podiam. Talvez não fosse muito.

Mas foi suficiente para Sofia descobrir que uma escola também pode ser um lugar de abrigo.

Os professores fizeram uma cota entre eles para pagar um psicólogo. Durante o segundo semestre de 2025, o profissional passou a ir à escola duas vezes por semana. Não houve milagre. A tristeza não desapareceu numa segunda-feira qualquer.

Sofia continuou tendo dias difíceis. Continuou olhando para a janela. Continuou, às vezes, precisando de silêncio.

Mas começou a voltar. Primeiro, para a sala, depois, para os livros e tempo depois, para as conversas.

Agora está no 9º ano. Ainda não resolveu inteiramente o problema da tristeza, porque algumas dores não obedecem ao calendário escolar. Há feridas que não fecham quando termina o semestre, nem porque alguém manda que a vida continue.

Mas Sofia aprendeu uma coisa que talvez seja mais importante do que qualquer nota: ela não está sozinha. Quando o aperto chega, sabe que pode procurar um professor.

Pode sentar-se ao lado de uma colega. Pode falar. Pode chorar. Pode pedir ajuda.

E talvez seja isso que uma escola possa fazer de mais bonito por uma criança: não impedir que ela sofra, porque nenhuma escola consegue impedir todas as dores do mundo, mas garantir que, quando a dor chegar, ela não precise enfrentá-la sozinha.

Marabá não foi a primeira cidade de Sofia.

Talvez também não seja a última.

Mas foi a cidade onde ela descobriu que uma pessoa pode chegar carregando uma história inteira nas costas e, ainda assim, encontrar alguém disposto a ajudar a carregá-la.

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.