Correio de Carajás

Um diálogo entre as obras a Cabeça Do Santo, de Socorro Acioli, E Pedro Páramo, de Juan Rulfo

Pensar em um diálogo entre duas obras tão distantes no tempo e no espaço – PEDRO PÁRAMO (1955) e A CABEÇA DO SANTO (2014) – é algo que me ocorreu nestes últimos dias. O que suscitou no coração desta leitora o tema foi a premissa das duas obras: um filho que sai em busca do pai desconhecido, atendendo ao último desejo da mãe. Os filhos são Juan Preciado e Samuel; as mães são Doloritas e Mariinha; e os pais são Pedro Páramo e Manoel.

Além da premissa, há um ponto em comum, um elo entre as narrativas: a presença do realismo mágico. E, por falar em realismo mágico, como dito anteriormente nesta coluna, o precursor desse estilo literário na América Latina foi JUAN RULFO.

Como já se sabe, o livro Pedro Páramo foi a fonte de inspiração para Gabriel García Márquez para a escrita da obra-prima Cem Anos de Solidão. Por conseguinte, a autora de A Cabeça do Santo, Socorro Acioli, foi aluna do escritor colombiano em uma oficina de escrita criativa. São muitos pontos em comum, o que nos renderá uma excelente conversa.

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A obras de Acioli e Rulfo partem do mesmo lugar: um filho em busca do pai. Um filho abandonado pelo pai; ausência da figura paterna; filhos que buscam, a pedido da mãe, o pai ausente. Aqui, aproveito para trazer um importante e recente dado sobre a ausência paterna em nosso país. Segundo dados do Portal da Transparência dos Registros Civis, mais de 1,7 milhões de crianças que nasceram na última década no Brasil – 2016 a 2026 – possuem apenas o nome da mãe no registro civil de nascimento. É uma ausência quantificada. Mais uma vez, é a literatura se ocupando dos dilemas humanos e sociais.

Mas, além do “pai desconhecido”, há milhares de filhos que, mesmo com a “presença paterna” na certidão de nascimento, sofreram abandono material e afetivo de seus genitores. Nas obras de hoje não sabemos se Juan Preciado e Samuel tiveram os nomes de seus respectivos pais incluídos em seus registros de nascimento. Me atrevo a dizer que, em razão da precariedade, talvez não. Doloritas e Mariinha foram duas mães solos até mesmo no registro civil de seus filhos. Para os protagonistas de Pedro Páramo e A Cabeça do Santo, o abandono paterno significou falta de proteção econômica e de afeto.

As duas narrativas trazem a jornada de um filho órfão, abandonado pelo pai e com a missão de encontrá-lo a pedido da mãe em seu leito de morte. No romance de Juan Rulfo, Juan Preciado sai em busca de um pai desconhecido de nome Pedro Páramo, a pedido de sua mãe Doloritas: “Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo”. A mãe, em seu leito de morte, exige que o filho cobre do homem que lhe enganou uma dívida, exija o que lhe era devido por direito: “cobre caro pelo esquecimento em que ele nos colocou, meu filho”.

Outro ponto que aproxima as duas narrativas é o momento do encontro dos protagonistas com o sobrenatural. Em Pedro Páramo, é quando Juan Preciado chega à mística e fantasmagórica cidade de Comala, lugar onde os mortos falam e isso é tratado de forma natural.

A cidade é habitada por fantasmas. Da mesma forma, é com a chegada de Samuel à Candeia – cidade fictícia criada por Socorro Acioli e inspirada no município cearense de Caridade – que ele, ao se abrigar dentro da gigante cabeça de Santo Antônio, começa a ouvir vozes, escutar as orações feitas por centenas de mulheres, como se tivesse emprestado seus ouvidos ao “santo casamenteiro”: “Samuel percebeu que a gruta onde passou a noite era, na verdade, uma cabeça oca e assustadora. Uma cabeça de santo”.

De um lado, uma obra brasileira contemporânea; do outro, um livro mexicano, escrito no início do século XX, tão distantes e tão próximos em suas temáticas e estilo. São obras que conversam, que têm muito em comum. Que partem da mesma premissa, que é o abandono paterno. Em ambas as narrativas, as jornadas dos filhos em busca do pai desconhecido são atravessadas pela presença de elementos fantásticos.

Rulfo e Socorro Acioli rompem com a divisão entre o real e o fantástico e nos oferecem uma deliciosa leitura. Esta coluna trouxe apenas uma das possibilidades de análise dos citados romances, mesmo ciente das muitas possibilidades.

Como sugestão de leitura/viagem pelo universo mágico, deixo as obras PEDRO PÁRAMO (1955), de Juan Rulfo, e A CABEÇA DO SANTO (2014), de Socorro Acioli. Aproveite a leitura e até a próxima, dileto leitor!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.