Quem passa apressado pela Folha 16, desviando o olhar entre o trânsito e os afazeres da rotina, talvez encontre no letreiro da Escola Municipal Maria Salomé Carvalho um ponto de repouso na memória urbana de Marabá. São mais de quarenta anos de história moldando as mentes da juventude local dentro daquelas paredes, mas o nome estampado na fachada carrega uma densidade que ultrapassa o mero registro público. Trata-se da celebração de uma mulher que ousou desenhar o próprio destino com a firmeza do giz e a delicadeza da poesia, numa época em que as rédeas do mundo e da intelectualidade regional pertenciam estritamente aos homens.
Para compreender a magnitude de Salomé Carvalho, é preciso voltar os olhos para o início do século passado, quando a órfã nascida em Carolina, no Maranhão, precisou aprender a batalhar pela vida logo aos quinze anos de idade. Sem diplomas formais, mas armada com uma inteligência luminosa e uma cultura admirável, ela fez do magistério a sua profissão de fé.
Antes mesmo de pisar em solo marabaense, seus ensinamentos já frutificavam entre os indígenas Apinajé no extremo norte goiano, onde acumulou a prática e a competência que mais tarde transformariam o cenário cultural de nossa cidade.
Leia mais:Quando os registros oficiais da história de Marabá insistem em destacar os vultos masculinos da época, os coronéis e os juízes que geriam a política local, Salomé surge como uma força disruptiva que inverte essa lógica de bastidores. Em 1921, ao aceitar o convite para integrar o quadro de professores da prestigiosa Escola Arthur Porto, ela não apenas assumiu uma sala de aula, mas ocupou um espaço privilegiado de relevância intelectual. Ela dominava a Língua Portuguesa com maestria e, num movimento ainda mais audacioso para o seu tempo, ajudou a fundar a Associação Marabaense de Letras em 1925, sentando-se à mesa com a erudição local em absoluta igualdade de condições.
O acervo que deixou para trás revela uma artista multifacetada e profundamente conectada com as raízes e as contradições do seu entorno. Salomé escrevia peças de teatro infantil como A Boneca Velha, Papagaio de Papel e Menina Sonâmbula, além de ensaios históricos de fôlego sobre a navegação do Rio Araguaia e levantamentos etnográficos detalhados a respeito dos costumes dos povos indígenas. Seus sonetos manuscritos em papel almaço, como os versos potentes de A Saída, compostos ainda em 1919, trazem a musicalidade do cotidiano e a sensibilidade de quem enxergava a beleza e a crueza da vida com a mesma lucidez.
A fotografia desbotada pelo tempo, guardada no arquivo histórico que preserva a sua juventude aos dezenove anos, traz o retrato de um olhar altivo que se recusava a aceitar os limites impostos à condição feminina daquele período. Enquanto as atas públicas se ocupavam em registrar as posses de terras, os lucros do caucho e as alianças políticas firmadas exclusivamente por homens de terno e gravata, Salomé Carvalho estava ocupada em erguer um patrimônio imaterial muito mais duradouro e resistente ao esquecimento.
O pioneirismo de sua atuação na Língua Portuguesa e na dramaturgia local estabeleceu um padrão de excelência que serviu de bússola para as gerações de educadoras que a sucederam, provando que o verdadeiro poder de transformação social se consolida no cotidiano silencioso e revolucionário das salas de aula.
Após doar suas melhores energias para a fundação cultural de Marabá, a professora ainda encontrou forças para se reinventar na maturidade. Enviou os filhos para estudarem na capital federal, mudou-se para o Rio de Janeiro e dedicou seus últimos anos à solidariedade na Santa Casa de Misericórdia e ao recolhimento espiritual no Convento das Irmãs Carmelitas, onde faleceu em 1977.
Salomé Carvalho não foi uma coadjuvante na construção da nossa identidade, mas a protagonista de uma trajetória que desafiou as barreiras de gênero e fincou os alicerces da educação marabaense. Lembrar de seu nome na Folha 16 é compreender que a verdadeira riqueza de Marabá não se resume aos minérios ou às castanhas do passado, mas reside na herança pedagógica e literária dessa mulher extraordinária, cuja voz continua ecoando em cada jovem que descobre o poder transformador da leitura.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
