Na semana em que comemoram – se os 138 anos da abolição da escravatura no Brasil – 13 de maio de 1888 – trago um clássico da literatura brasileira, “O MULATO” (1881), do escritor maranhense Aluísio Azevedo, uma obra que não foi indiferente ao seu contexto histórico – pré-abolição. O romance põe no centro um homem filho de um português e uma escrava negra e, por isso, chamado de mulato.
Mas, antes de passearmos pela obra de Aluísio, quero dizer da presença de escritores e protagonistas negros na literatura brasileira contemporânea. Nomes como Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Jeferson Tenório, Itamar Vieira Junior e Luciany Aparecida são importantes vozes que compõem o cenário nacional. Contudo, na casa guardiã da Língua Portuguesa e Literatura, a representatividade negra ainda é mínima, pois, mesmo fundada há 128 anos, por um negro — Machado de Assis —, a Academia Brasileira de Letras (ABL) elegeu apenas 5 escritores negros como membros; a última eleita foi Ana Maria Gonçalves, em 2025, a escritora foi a primeira mulher negra a se tornar uma imortal.
Voltando à obra, quero destacar a expressão do título: MULATO, o termo surgiu no Brasil ainda durante o período colonial — século XVI —, fazendo referência ao filho de um casal inter-racial, ou seja, um homem branco com uma mulher negra, o que era mais comum na época. O vocábulo vem do latim mulus, que significa animal híbrido, fruto de cruzamento de espécies diferentes. É uma palavra que denota racismo e não é bem recebida pela comunidade negra, pois representa o racismo enraizado na organização social (racismo estrutural).
Leia mais:
O protagonista do romance, Raimundo, é filho de um homem branco — português, — e de uma escrava negra. Ele é um homem qualificado — bacharel em Direito; o título foi conquistado na Universidade de Coimbra, Portugal; tem fortuna própria, contudo, não é reconhecido como tal pela sociedade. Ou seja, a cor de Raimundo se sobrepõe ao título e à fortuna. Os referidos privilégios não foram suficientes para impedir que o protagonista fosse excluído socialmente e vítima de comentários discriminatórios.
Ao retornar para o Brasil, Raimundo se apaixona por uma jovem rica e branca, sua prima Ana Rosa. Desenha-se assim uma história de amor impossível, cujo obstáculo é a cor do rapaz. Cito para ilustrar o seguinte trecho: “Se soubesses quanto custa ouvir cara a cara: não lhe dou minha filha, porque o senhor é indigno dela, o senhor é filho de uma escrava! Se me dissessem: é porque é pobre! Eu trabalharia! Se me dissessem, é porque não tem posição social! Juro que a conquistaria, fosse como fosse! É porque é um infame! Um ladrão! Um miserável! Eu me comprometerei a fazer de mim o melhor modelo dos homens de bem. Mas um ex – escravo, filho de negra, um mulato! Como ei de transformar todo o meu sangue gota por gota? Como ei de apagar minha história da lembrança de toda essa gente que me detesta?”
Sim, o protagonista é um ex – escravo; sua alforria foi conquistada no dia em que foi batizado. Mas uma carta de alforria não é suficiente para apagar da memória de seus detratores a sua origem. O jovem é descrito como um rapaz bonito, cabelos lustrosos e olhos azuis, mas não faz diferença na população, que ainda o vê, apenas como um “mulato”. Raimundo, desde a infância, vivida em Portugal, foi discriminado em razão de suas características físicas; era chamado de “macaquinho”. Tem ofensa mais atual? A representação do preconceito racial existente na obra de Aluísio Azevedo é atemporal. Em 1881, o termo macaco já era usado para fazer uma associação racista com a finalidade de ofender, excluir e desumanizar um ser humano.
Uma obra escrita durante os movimentos abolicionistas, em 1881, portanto, fim do século XIX, consegue se manter atual, pois aborda um tema que, infelizmente, não foi superado: o racismo, o preconceito social em razão da cor, da raça. Assim como no romance de Aluísio de Azevedo, em que um homem mestiço, com formação intelectual superior e rico, continua sendo tratado como inferior em relação ao branco; permanece sendo alvo de discriminação.
Por meio da obra “O Mulato”, de Aluísio Azevedo, convido você, leitor, a pensar sobre uma ferida aberta ainda no século XVI, que sangrou por mais de 300 anos: a escravidão e seus reflexos em nossos dias. Até a próxima, queridos e queridas leitoras!
* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
