Naquela manhã quente de Marabá, o calor já subia do asfalto antes das oito. Dona Rosa entendeu que existe um tipo de medo que não faz barulho. Ele apenas entra na casa, senta no sofá e fica ali, respirando junto da gente.
O rapaz magro apareceu no portão pouco depois das sete. Boné enterrado na cabeça, sandálias gastas e os olhos de quem já tinha visto coisa demais pra pouca idade.
Chamou por ela baixinho:
“Dona Rosa…”
Quando ouviu o nome do filho na sequência, o coração dela desceu como pedra no Rio Tocantins em tempo de cheia.
Juninho devia.
Devia droga.
E devia pra gente que não mandava cobrança duas vezes.
Dona Rosa trabalhava no posto de saúde da Folha 33 fazia quase vinte anos. Aplicava injeção, fazia curativo, media pressão, escutava velhinho reclamar da coluna e mãe desesperada com febre de menino. Conhecia metade do bairro pelo nome e a outra metade pelo apelido.
Talvez por isso o rapaz tenha falado com certo respeito:
“Ele tem até amanhã, tia.”
Só isso.
Dona Rosa fechou o portão devagar. Como se trancar ferro pudesse impedir tragédia.
Encontrou Juninho no quarto. O ventilador girava preguiçoso no teto, espalhando cheiro de cigarro, suor e derrota. O filho fingia dormir com o braço sobre os olhos.
Ela ficou olhando.
E viu, ao mesmo tempo, o homem destruído na cama e o menino gordinho que corria atrás de pipa perto da Escola Silvino Santis, ralando joelho e chegando em casa com a camisa cheia de manga chupada.
“Quanto é?”, perguntou.
O valor bateu nela pior que pancada.
Na manhã seguinte, Dona Rosa estava na fila do banco antes das portas abrirem. Sentada entre aposentados, vendedores e gente aflita segurando envelope de documento. Assinou papéis sem entender direito juros, taxas ou prazos. Só entendia uma coisa:
não queria enterrar filho.
Desde que Zeca morreu, levado pela cachaça e pela cirrose, ela carregava sozinha a casa inteira nas costas. E havia dias em que o peso parecia maior que a própria cidade.
Pagou a dívida naquela mesma tarde.
O rapaz contou o dinheiro ali no portão, rápido, profissional.
“Na bocada ele não entra mais. Só não rodou por consideração à senhora.”
Consideração.
Dona Rosa achou curioso como até o crime tinha seus códigos de delicadeza.
Dentro de casa, Juninho chorou feito criança. Chorou com o corpo inteiro.
“Eu sou igual ao meu pai”, disse.
Ela segurou a mão dele.
“Não. Você ainda tá vivo.”
Naquela noite, pela primeira vez em muitos meses, os dois conversaram sem gritar.
Dona Rosa falou da chácara de recuperação que descobrira no Amapá. Disse que não sabia mais o que fazer. Disse que estava cansada de dormir imaginando o telefone tocando de madrugada com notícia ruim.
Juninho ouviu calado.
Depois confessou uma coisa que homem quase nunca admite:
“Tô com medo.”
E havia sinceridade demais naquela frase.
Na Emaús, Juninho descobriu que se recuperar não era parar de usar droga.
Era reaprender a existir.
Acordar cedo. Varrer chão. Ouvir silêncio. Encarar a própria cabeça sem fugir dela.
Foi lá, numa estante esquecida, que encontrou O Conde de Monte Cristo. Leu devagar, sentado perto de uma castanheira, enquanto o vento mexia nas folhas.
Gostou daquele homem que voltava da escuridão diferente de quem entrou.
Também começou a reparar num quadro da Pietá pendurado no quarto. Maria segurando o filho morto nos braços.
Aquilo o desmontava.
Porque toda mãe cansada carrega um pouco daquela escultura dentro de si.
As crises vieram. Muitas.
Teve noite em que quis fugir. Dia em que o corpo implorava por recaída. Hora em que o vazio parecia maior que o mundo.
Mas lembrava da mãe rezando.
E ficava.
Um ano e meio depois, Dona Rosa estacionou diante da UEPA, na Agrópolis do Incra. O sol marabaense lembrava um pouco o do Piauí: excessivo, insistente, quase pessoal.
Juninho desceu do carro com mochila nas costas.
Mais magro. Mais quieto. Mais homem.
Beijou a mãe na testa.
Ela ficou olhando o filho atravessar o portão entre outros jovens até desaparecer no meio das árvores do campus.
Só depois deixou a lágrima cair.
Era o primeiro dia de aula dele no curso de Engenharia.
E Dona Rosa percebeu, enfim, que às vezes Deus devolve filhos à vida devagarinho.
Quase sem fazer barulho.
*O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras. Hoje, excepcionalmente, no Dia das Mães
