Eu e minha filha Brenda temos uma disputa silenciosa, dessas que acontecem dentro de casa e, ao mesmo tempo, parecem resumir o espírito do nosso tempo. Eu mostro a ela um vídeo que achei incrível no Instagram, desses que me fazem rir, pensar ou querer compartilhar imediatamente, e ela, com a segurança de quem nasceu já entendendo o fluxo das telas, me interrompe com a crueldade elegante de uma sentença: “Pai, isso já faz três semanas que bombou no TikTok”.
Três semanas.
Na minha cabeça, o vídeo ainda estava fresco, pulsando, recém-saído do forno da internet. Para Brenda, já era quase arqueologia digital. Já tinha virado lembrança, já tinha sido remixado, respondido, duplicado, satirizado e enterrado sob uma enxurrada de novos conteúdos. Eu insistia, com o orgulho ferido de quem quer surpreender a filha, e ela devolvia com a mesma tranquilidade de quem sabe que o mundo agora gira em velocidade de notificação.
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Então resolvi inverter o jogo. Esperei ela me mostrar alguns vídeos da timeline do TikTok e, com o ar mais sério que consegui sustentar, devolvi: “Isso aí já passou no Instagram faz um mês”.
A brincadeira rende risada, mas também revela uma verdade incômoda: a vida nas redes sociais corre mais rápido do que a nossa capacidade de acompanhar. E, para quem trabalha como jornalista, essa velocidade não é apenas um detalhe de convivência familiar; é matéria-prima de sobrevivência. Hoje, quem quer fisgar pautas precisa estar atento ao que se espalha nas redes, ao que mobiliza pessoas, ao que inflama comentários, ao que nasce como meme e, de repente, vira notícia, comportamento, denúncia ou tendência.
No jornalismo, as redes sociais deixaram de ser apenas vitrine. Viraram radar. São nelas que surgem os assuntos do momento, as reclamações que viram pauta, as cenas que pedem verificação, os vídeos que mostram a cidade por ângulos que muitas vezes escapam ao olho apressado da redação. Em Marabá, isso é ainda mais evidente. A cidade pulsa em grupos, stories, reels, threads e compartilhamentos que atravessam bairros, pontes, rios e distâncias sociais com uma rapidez que assusta.
O problema é que, para não perder o bonde, a gente acaba vivendo dentro dele. E aí vem a conta.
Porque acompanhar tudo cansa. Exige uma presença permanente, quase uma vigília. O celular vira extensão da mão, o olho se acostuma a deslizar sem descanso, e a mente passa a funcionar em modo de resposta automática. Eu, que preciso estar antenado para encontrar o que pode virar notícia, às vezes percebo que já estou há horas preso a um rio de vídeos curtos, cortes, dancinhas, polêmicas, opiniões prontas e indignações instantâneas. Quando dou por mim, passaram-se horas. Mais de 12, se eu for honesto demais.
Doze horas logado por dia é uma maneira elegante de dizer que a internet também nos ocupa por dentro. Ela entra com a promessa de informação e entretenimento, mas muitas vezes deixa uma espécie de poeira emocional. A sensação de estar sempre devendo atenção a alguma coisa, sempre atrasado em relação ao próximo assunto, sempre um pouco fora de época. É como se o presente tivesse ficado curto demais.
Marabá, com seu calor, sua pressa e sua mistura de centro e periferia, parece acompanhar esse ritmo. A cidade também se atualiza em tempo real. Uma reclamação de rua vira post. Uma ação comunitária vira vídeo. Um acontecimento pequeno pode ganhar proporção enorme quando passa pela lente certa e encontra a rede certa. E aí está o desafio do jornalista: separar o ruído do fato, o exagero da relevância, o viral do verdadeiro.
Talvez por isso eu entenda tanto a graça da disputa com Brenda. Ela representa a geração que já nasceu sabendo que o presente dura pouco nas plataformas. Eu represento a geração que aprendeu, quase a contragosto, que precisa correr para não ficar para trás. Entre nós, há uma diferença de ritmo, não de importância. Ela me lembra que o conteúdo envelhece depressa. Eu tento lembrá-la de que nem tudo que bomba permanece.
No fundo, a nossa troca é também uma metáfora da cidade e do tempo em que vivemos. Marabá já não cabe apenas no que se vê na rua. Ela também acontece na tela. E o jornalista, se quiser contar essa cidade com honestidade, precisa ouvir os dois sons: o da vida real e o do mundo digital. Precisa saber onde a conversa começou, quem compartilhou, o que indignou, o que emocionou, o que foi fabricado e o que é legítimo.
Mas também precisa aprender a fechar o aplicativo. Porque nem toda urgência da internet é urgência da vida. E porque, se a gente não tomar cuidado, passa o dia inteiro tentando entender o que é tendência, enquanto perde o que ainda é experiência.
Brenda provavelmente continuará me vencendo nessa disputa. Vai me dizer que eu cheguei atrasado, que aquele vídeo já cansou, que o assunto já virou refugo de timeline. E eu, no papel de pai e jornalista, vou fingir que não ligo. Vou rir, anotar mentalmente, abrir mais uma aba, procurar o próximo assunto.
Só espero que, entre uma rolagem e outra, eu ainda consiga lembrar que viver Marabá não é o mesmo que apenas assistir à cidade passar na tela.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
