Ontem acompanhei a final da Copa do Mundo e, sempre que a transmissão encontrava o rosto de alguém jovem nas arquibancadas, tomado pela ansiedade ou pelas lágrimas antes mesmo do apito final, eu me pegava imaginando como deve ser crescer vendo o próprio país campeão do mundo. Não falo apenas de assistir ao jogo, falo de carregar essa lembrança pela vida inteira, de saber exatamente onde você estava quando um país inteiro resolveu sorrir ao mesmo tempo.
Eu nunca soube como isso é.
Nasci em 2003, pouco mais de um ano depois do penta. Cheguei atrasado à maior festa do futebol brasileiro e, desde então, a Copa sempre me foi apresentada como uma história contada pelos outros. Meu pai, Jorge Nelson, viu as cinco estrelas serem costuradas na camisa da Seleção. Ele sabe dizer onde estava em cada conquista, quem abraçou, quem saiu correndo para a rua, quem chorou sem vergonha. Eu cresci ouvindo essas histórias com a mesma admiração de quem escuta uma boa lenda de família.
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Acho curioso como a Copa também serve para medir o tempo. Entre um Mundial e outro, aprendi a amarrar tênis, terminei a escola, entrei na faculdade, descobri que a vida adulta chega sem pedir licença, me apaixonei, virei jornalista e agora me preparo para ser pai. A Seleção, por outro lado, parece ter vivido sempre o mesmo roteiro: chega cercada de esperança, alimenta a ilusão por algumas semanas e, quando a gente começa a acreditar, encontra uma forma inédita de nos lembrar que ainda não era dessa vez.
Minha geração cresceu herdando memórias que nunca viveu. Sabemos de cor o corte de cabelo do Fenômeno em 2002, a arrancada do Cafu erguendo a taça, a narração do Galvão no “TETRAA!!”, os socos no ar do Rei…. conhecemos tudo isso porque vimos reprises, vídeos no YouTube, documentários e incontáveis publicações nas redes sociais. É uma nostalgia curiosa, quase emprestada. A lembrança existe, mas nunca foi nossa.
Enquanto nossos pais discutem onde estavam no tetra e no penta, nós sabemos exatamente onde estávamos quando o nosso futebol chegou mais perto do título desde então.
Eu tinha dez anos naquele 8 de julho de 2014 e lembro que foi a primeira vez que o futebol me fez chorar. Não porque eu entendesse de esquema tático ou soubesse analisar uma partida, mas porque ali descobri que até os gigantes podem desmoronar diante dos nossos olhos. Crescer acompanhando a Seleção foi aprender cedo que camisa pesa, mas nem sempre basta.
Desde então, a promessa se repetiu como um ritual brasileiro. “Agora vai.” A cada quatro anos surgia uma nova geração destinada a acabar com o jejum. A gente acreditava. Sempre acredita. Talvez porque torcer seja justamente insistir na esperança mesmo quando a razão pede cautela.
Na minha vez, os maiores protagonistas vestem outras camisas. Passei anos observando grandes gênios do futebol internacional, craques extraordinários, mas que jamais despertariam em mim o sentimento de pertencimento. Eram ídolos do mundo, não eram os meus. Enquanto isso, o Brasil parecia preso entre a saudade de um passado glorioso e a ansiedade de encontrar o próximo herói, como se estivéssemos sempre esperando alguém capaz de nos devolver uma lembrança que nunca tivemos.
O menino que assistia aos jogos descalço na sala de casa virou um homem que passou boa parte desta Copa diante de uma televisão na redação, entre uma pauta e outra, dividindo a ansiedade com os colegas de profissão. A vida aconteceu enquanto eu esperava o hexa.
Hoje entendo que talvez eu nunca tenha esperado apenas um título. Eu esperava sentir aquilo que meu pai descreve quando lembra das Copas que viveu. A certeza de que, por alguns minutos, um país inteiro respirava no mesmo compasso.
Talvez um dia eu veja.
Talvez meu filho cresça ouvindo menos histórias emprestadas e mais histórias vividas. E, quando ele me perguntar como foi ver o Brasil campeão do mundo, espero finalmente responder sem recorrer aos vídeos antigos, às narrações eternizadas ou às lembranças de outra geração.
Porque, no fim das contas, algumas taças não servem apenas para enfeitar uma sala de troféus. Elas também costuram memórias no peito de quem teve a sorte de vivê-las. E essa, até hoje, continua sendo a única estrela que a minha geração ainda espera vestir.
Kauã Fhillipe
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
