Alguns dias tenho saudades de ouvir minha mãe gritando na porta que dava para a rua. Esgoelava-se para que fôssemos almoçar. É hora do almoço, menino! E todas as mães da Velha Marabá gritavam iguais.
Lá em casa, mamãe se punha na frente do fogão e um a um, dos cinco filhos e quatro sobrinhos que criava, ia servindo o que tinha para comer. Se fosse no final do mês, no mínimo, haveria arroz feijão, macarrão e uma mistura além de ovos estrelados ou carne de lata.
Servia a todos não por submissão, papel de mãe ou por ser a dona de casa (uma idiotice daqueles anos). É porque em família de muita gente, de muitas bocas como repetia o indelicado de meu pai, tudo era contado. Se um comesse além da conta, faltaria para o outro.
Leia mais:Mas havia também abundância, não era só o medo da escassez e de sumir. Ficava na cabeceira, era hora do almoço. Minha irmã mais velha, negra e linda cabeleira…
Diante dos pratos, não me lembro de muita tristeza. Poucas. Recordo-me de catar os pedaços de cebola que me faziam enguiar. De cuspir o pimentão verde e tomar carão de minha irmã mais velha com a frescura.
Ela ralhava porque não conseguia fazer com que comesse a carne com langanha, aquela gordurinha gasturenta… Tanta gente morrendo de fome! Berrava.
Medo, medo, medo, mesmo, só quando em 79, um daqueles filhos não voltou mais do meio da rua para o almoço. Não foi nenhum dos cinco lá de casa, vovó se benzia. Dona Luíza, uma das vizinhas, escuto-a até hoje, de meio dia até perder a voz, a gritar por Manelão.
É hora do almoço, menino! Entra pra dentro, vem comer. Sai do sol, “tu vai” virar um tição!
Fazia mais de um ano que o filho de dona Luíza não ia almoçar. Moço desaparecido naqueles anos que eu não entendia muito.
Era uma interrogação, que corria a rua, clandestina. Havia medo de se falar sobre o rapaz que o “papa-figo” havia sumido. Teriam retirados os rins.
Teria amanhecido em uma banheira de gelo, sem brilho nos olhos e um corte medonho acima das ancas.
Eram os contos saídos de uma subdelegacia que ficava na Praça Duque de Caxias, ao lado da Caixa Econômica.
Almoçar e ouvir dona Luíza a gritar por Manelão dava na fraqueza. Não era assunto para se puxar diante do prato, ao redor da mesa. Mamãe nos calava e a cebola dava vontade de vomitar o silêncio.
Já éramos grandes, frangos e frangas, e mamãe já não gritava mais na hora do almoço para nos campear a fome. Mas a mãe de Manelão não desistia e, um dia, foi gritar pelo filho em frente à subdelegacia.
Era 1982, talvez. Digo isso, porque era novamente Copa do Mundo e os guardas quase prenderam dona Luíza na hora do Brasil e Itália. Muita tristeza. Manelão, Manelão! É hora do almoço, menino…
Talvez por isso, tantos anos depois, quando o relógio se aproxima do meio-dia, ainda escuto aquelas vozes atravessando a rua. Não são mais gritos de mães chamando filhos para a mesa. São lembranças chamando a gente de volta para um tempo em que havia pouco, mas havia mesa, havia gente, havia vizinho. E, sobretudo, havia a esperança teimosa de que quem tinha saído pela porta pudesse um dia voltar por ela.
Foi assim que, certa manhã, muito tempo depois, alguém bateu à porta de dona Luíza. Ela já estava cansada, os cabelos brancos, o corpo pequeno de tantos anos esperando. Do lado de fora, um homem de voz baixa perguntou se ali morava a mãe de Manelão. Ela levantou os olhos e, por alguns segundos, não disse nada. O homem entrou devagar, tirou o chapéu e falou apenas: “Mãe, cheguei”. Dona Luíza não perguntou onde ele estivera. Não quis saber de mapas, prisões, medo ou tempo perdido. Apenas o abraçou como quem finalmente devolve um filho ao mundo.
E naquele dia, pela primeira vez em muitos anos, a rua ouviu o grito que todos conheciam, mas com outra alegria: “É hora do almoço, menino!”. As portas se abriram, panelas foram ao fogo, vizinhos apareceram com arroz, feijão, carne, macarrão, bolo e até pimentão, porque naquele dia ninguém reclamaria de nada.
Manelão sentou-se à mesa, dona Luíza ficou na cabeceira e, por alguns minutos, a Velha Marabá inteira pareceu respirar aliviada. O almoço esfriou, mas ninguém teve pressa. Depois de tanto tempo, finalmente havia alguém para chamar de volta.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
