Correio de Carajás

Fim da “Era Tigrinho” deixa órfãos em Marabá

Há órfãos em Marabá.

Não são crianças que perderam o pai. Não são filhos que ficaram sem mãe. Não são famílias expulsas de casa pela cheia do Tocantins ou do Itacaiunas. São órfãos de uma coisa muito mais moderna: a mamadeira digital que jorrava dinheiro fácil, carrões, viagens, festas, relógios, bolsas de grife e uma vida de fazer inveja até em quem nunca teve inveja de ninguém.

São os órfãos do Tigrinho.

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E, como todo órfão, precisam de acolhimento. Talvez de um abraço. Quem sabe até de uma vaquinha. Afinal, não é fácil acordar numa segunda-feira e descobrir que aquela fonte de renda que pingava R$ 25 mil, R$ 30 mil, R$ 40 mil por mês simplesmente secou.

Em Marabá, durante o auge da febre, havia mais de 30 influenciadores promovendo o jogo. Eram os novos profetas da prosperidade virtual. Gente que aparecia nas redes sociais com a mesma naturalidade com que antigamente se mostrava o contracheque: “Olha aí, minha gente! Também dá para ficar rico”.

O segredo, evidentemente, era nunca mostrar a parte em que alguém ficava pobre.

Porque o Tigrinho tinha essa curiosa característica: enquanto uns exibiam o luxo, outros pagavam a conta.

O jogador entrava para tentar ganhar uns trocados. Perdia. Tentava recuperar. Perdia mais. Aumentava a aposta. Perdia novamente. E, quando percebia, já não estava mais jogando para ganhar dinheiro. Estava jogando para recuperar o dinheiro que havia perdido.

Era aí que o bicho começava a mostrar as garras.

O problema deixou de ser apenas financeiro. Vieram relatos de endividamento, ansiedade, depressão, compulsão e famílias destruídas. Houve quem perdesse economias acumuladas durante anos, carro, imóvel e, em alguns casos, até a paz dentro de casa.

Do outro lado da tela, porém, a vida parecia maravilhosa.

Era chácara nova, casa de dois pavimentos, carro bonito, festa sofisticada, viagem, roupa de marca. Tudo aquilo funcionava como uma espécie de outdoor ambulante da felicidade.

A mensagem era simples: “Olha como eu estou bem. Você também pode chegar lá”.

O detalhe que quase nunca aparecia na propaganda era quem estava pagando para aquela fotografia existir.

E Marabá entrou nesse circuito com entusiasmo amazônico. Influenciadores descobriram que não precisavam vender produto, abrir loja, enfrentar fila de banco ou passar oito horas atrás de um balcão. Bastava postar. Bastava convencer. Bastava mostrar.

E mostrar era a parte mais fácil.

Houve um casal que, no auge da prosperidade digital, comprou chácara, construiu uma casa de dois pavimentos e começou a preparar um casamento daqueles que fariam os fotógrafos trabalharem em três turnos.

No grupo de WhatsApp dos padrinhos, discutiam-se roupas, calçados e detalhes da festa. Tudo com uma generosidade que parecia não conhecer limites. Até despedida de solteiro para homens e mulheres já estava previamente contratada.

Era o capitalismo do Tigrinho em sua forma mais romântica: os padrinhos escolhiam o sapato e os convidados escolhiam a roupa, enquanto alguém, em algum lugar, apertava o botão da próxima aposta.

Só que a festa acabou antes do casamento. O cerco chegou. A máquina de fazer dinheiro parou de ronronar.

E aquilo que parecia uma fonte inesgotável de prosperidade virou uma lojinha de produtos de 20 reais na Feira da Folha 28.

Não há nada de indigno em vender produtos. Muito pelo contrário. Trabalhar honestamente é uma das coisas mais dignas que existem.

O curioso é a velocidade da metamorfose.

Ontem, o luxo. Hoje, a lojinha. Ontem, os padrinhos escolhendo roupa para a grande festa. Hoje, o silêncio no grupo de WhatsApp.

Primeiro, diminuíram as mensagens. Depois, veio aquela ausência estratégica. Até que o casal saiu, discretamente, do grupo.

Sem despedida. Sem discurso. Sem “obrigado pela participação de todos”.

Afinal, quando o Tigrinho vai embora, algumas pessoas descobrem que também precisam reaprender a viver sem a fotografia do sucesso.

O jogo encontrou, nas redes sociais, os seus vendedores de sonhos. Agora, muitos desses vendedores estão órfãos.

Sem o Tigrinho, talvez precisem descobrir uma coisa antiga, quase esquecida nesta era dos ganhos instantâneos: dinheiro costuma exigir trabalho, tempo e alguma paciência.

E, convenhamos, isso é muito mais difícil de viralizar. Principalmente quando não vem acompanhado de um carrão importado estacionado na porta.

Aí sobra a vida real. E a vida real, essa danada, nunca aceitou Pix em forma de milagre.

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.