Correio de Carajás

A Selic caiu. Por que sua dívida continua tão cara?

No noticiário, a pessoa ouve que os juros caíram. Abre o aplicativo do banco esperando encontrar um empréstimo mais barato, mas a oferta continua pesada. A pergunta vem quase sozinha: se a Selic caiu, por que a minha dívida continua tão cara?

A resposta começa com uma distinção importante: a taxa básica influencia o custo do dinheiro na economia, mas não determina sozinha o preço de cada empréstimo. E, no momento de renegociar, uma prestação menor pode aliviar o mês sem reduzir, e até aumentando o total a pagar.

A Selic é a principal taxa de referência da política monetária brasileira. Em linguagem simples, ela ajuda a orientar o custo do dinheiro entre instituições financeiras e influencia decisões de crédito, investimento e consumo. O Banco Central a utiliza para conduzir a política monetária e buscar a estabilidade dos preços. Em 16 de setembro de 2026, o Copom reduziu a taxa para 13,75% ao ano. A queda foi real, mas o nível ainda é elevado.

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Pense na Selic como um ingrediente do preço do crédito, não como o preço final que aparece no contrato. A redução pode, com o tempo, baratear parte das fontes de recursos dos bancos e favorecer condições melhores. Mas essa transmissão não é imediata nem acontece na mesma proporção para todas as pessoas e modalidades.

O juro oferecido também considera o risco de inadimplência, o histórico de pagamento, o tipo de crédito, a existência de garantias, o prazo, os custos operacionais, impostos, a margem da instituição, o cenário econômico e o nível de endividamento de quem pede. Cartão de crédito, cheque especial, empréstimo pessoal e capital de giro têm características e riscos diferentes. Por isso, não se deve esperar que a taxa de cada um acompanhe a Selic ponto a ponto. E uma dívida contratada antes da queda não muda automaticamente: é preciso observar as condições do contrato e negociar.

Imagine duas propostas fictícias para tomar R$ 5 mil, ambas com juros fixos de 4% ao mês, sem incluir tarifas, seguros ou impostos. Para simplificar, considere parcelas fixas:

Na proposta B, a prestação cai cerca de R$ 205 por mês, mas o prazo dobra. Ao final, são aproximadamente R$ 1.477 a mais do que na proposta A. Os valores são apenas uma simulação didática, não uma oferta de mercado; foram calculados com a mesma taxa mensal e não incluem outros encargos. Em uma renegociação real, taxa, prazo e custos podem ser diferentes.

É por isso que “a parcela cabe” não basta. Quando o orçamento está apertado, alongar o prazo pode ser uma escolha necessária para evitar atrasos e organizar as contas. O cuidado é fazer essa escolha sabendo quanto custará até o fim, em vez de olhar somente o alívio imediato.

O número que reúne os custos

Peça o Custo Efetivo Total (CET) da proposta. Ele reúne juros e demais encargos e despesas da operação, como tarifas, impostos e seguros, quando houver. O CET ajuda a comparar ofertas de instituições diferentes porque considera mais do que a taxa de juros anunciada. Compare propostas para o mesmo valor e prazo sempre que possível; confirme também se algum serviço incluído é opcional.

Decidir sob pressão é difícil

Quem está endividada ou endividado não precisa de julgamento; precisa de informação e espaço para decidir. A preocupação com contas vencendo pode estreitar a atenção para o problema mais urgente. Uma parcela menor traz alívio emocional, e a vontade de encerrar o desconforto pode levar a aceitar a primeira oferta, sem examinar prazo, total e encargos.

Esse foco no curto prazo e a sensação de escassez são respostas humanas à pressão, não sinal de falta de responsabilidade. Se puder, peça a proposta por escrito, reserve um tempo para comparar e converse com alguém de confiança. Uma decisão informada não elimina todas as dificuldades, mas reduz o risco de trocar uma urgência por uma dívida mais longa e cara.

Antes de contratar ou renegociar

  • Qual é o CET?
  • Quanto pagarei até a última parcela?
  • A taxa é fixa ou pode mudar?
  • O prazo aumentou?
  • Há seguro, tarifa ou serviço embutido?
  • A nova parcela cabe no orçamento também nos meses mais apertados?
  • Existe alternativa mais barata, inclusive quitar ou renegociar diretamente a dívida atual?
  • A dívida antiga será completamente encerrada? Peça confirmação por escrito.

Para empreendedores, vale um cuidado extra com o capital de giro: não escolha o crédito olhando apenas a parcela. Faça uma conta de caixa realista e verifique se o negócio conseguirá pagar sem comprometer estoque, fornecedores e despesas essenciais. Crédito pode apoiar a atividade, mas a prestação precisa caber no fluxo de caixa do negócio.

Esperar novas quedas da Selic não substitui uma estratégia para sair das dívidas e ninguém pode garantir quando ou quanto os juros oferecidos vão mudar. A taxa básica pode iniciar um movimento de alívio na economia; para que uma proposta faça sentido no seu orçamento, compare, pergunte, negocie e decida com consciência. A informação não apaga a dívida, mas ajuda a escolher o próximo passo com menos pressa e mais clareza.

Simone Oliveira- Educadora Financeira (Instagram: @simoneoliveirafinancas)

Pós-Graduada em Neurociências aplicada às Finanças

MBA Expert em Investimento & Banker

Curso em Economia Comportamental e Psicologia Financeira

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.