Às 21h12 de sexta-feira, 25 de setembro de 2026, terminei a leitura do romance “Três” (2021), da autora francesa Valérie Perrin, e, acreditem, já estou com saudade dos protagonistas Nina, Étienne e Adrien, o trio de amigos que inspira o título do livro e se define como “Somos Três ou nada. Três ou a solidão”; as três figuras formavam uma única sombra. Durante a infância, os amigos se fundem numa única sombra; é a metáfora da união, da ligação que havia entre eles. Os protagonistas se conheceram aos 10 anos, na escola, no dia 3 de setembro de 1986.
A obra de Valérie Perrin é daquelas de muitas camadas. Podemos abordá-la sob várias perspectivas, pois o romance pauta relacionamentos abusivos, abandono, maternidade, luto, perdas e, claro, a amizade. É para falar sobre amizade a partir desta obra maravilhosa – “Três”, que estou aqui hoje. O objetivo é refletir sobre esse vínculo voluntário que estabelecemos ao longo da vida, sem qualquer obrigatoriedade, pois um amigo é como um irmão que escolhemos livremente.
O trecho mais belo do romance, que descreve de forma sublime a amizade dos três, é extraído de uma carta escrita por Adrien e lida por Étienne em homenagem a Nina, no dia de seu casamento, quando ela tinha 19 anos: “Cara Nina, nós não temos lembranças antes de você. No entanto, nos conhecemos antes dos 10 anos. Mas, antes de você, as lembranças não existem. Você é o começo. Você é o nosso hífen. Três. Foi assim que crescemos. A expressão é: eles são colados como os cinco dedos da mão. Até hoje, nossa mão só tinha três dedos. Eu à esquerda, você no meio, Adrien à direita. Nós crescemos nos mesmos cômodos, adegas, calçadas, escolas. Crescemos nos mesmos sonhos.”
Leia mais:A amizade dos três não ocupa apenas lugares físicos (cômodos, calçadas e escolas). A amizade deles ocupa os sonhos, os pensamentos, o coração, o que contribui para que o vínculo desenvolvido na infância se mantenha forte até o início da vida adulta.
O trio de amigos possui uma identidade coletiva. Nina é o hífen na composição do trio — Étienne – Nina – Adrien. A menina é a ponte entre os dois garotos. Nina é a cola. Eles formam um só denominado TRÊS. Em diversos momentos da narrativa, o lugar que cada um ocupava é destacado: “eu à esquerda, você no meio, Adrien à direita”. É uma memória corporal. A amizade está no corpo dos três. Eles têm o espaço de cada um bem demarcado naquele trio inseparável.
Entre os três havia a seguinte promessa: “Para você a gente sempre vai ter um carro novo com tanque cheio”, o que representa o sonho coletivo que não foi realizado. Os três sonharam que, após terminar o ensino médio, iriam morar juntos em Paris, mas não realizaram o sonho: uma morte, um casamento e um livro foram os obstáculos. Dizer que sempre teriam um carro novo com tanque cheio é o mesmo que dizer: SEMPRE ESTAREMOS AQUI PARA VOCÊ! A promessa continua válida. Somos seu porto seguro!
Uma história que nos leva por décadas da vida dos três amigos. Acompanhamos seus sonhos desde a infância, os primeiros amores, a adolescência feliz, as perdas. Eles eram inseparáveis. A autora conta a história em camadas, alternando presente e passado: ora é o passado mais remoto, década de 80; ora estamos na década de 90, acompanhando o início da vida adulta dos protagonistas. No presente, os acontecimentos ocorrem em 2017: o trio tem 41 anos e se encontra distante, remoendo mágoas do passado.
Os amigos se reencontram após 14 anos de distanciamento e silêncio. Juntos viajam para a Itália. A viagem é a despedida de um dos amigos que se encontra com câncer na fase terminal. Um dos protagonistas escolhe viver seus últimos dias com os amigos de infância, longe até mesmo da família. “Nunca estamos preparados para a morte dos nossos amigos, mesmo quando eles deixam de ser amigos.” E, em janeiro de 2018, os amigos se reconectam: “Nina no meio, Étienne à esquerda, eu à direita. Ela segura nossas mãos. O céu está puro, azul claro.”
É obra para ser lida com uma caixinha de lenços ao lado, pois o choro e a emoção são inevitáveis. É daqueles livros que nos deixa naquela famigerada ressaca literária. Os leitores que viveram sua infância na década de 90 certamente serão tomados por profunda nostalgia. O romance “Três”, de Valérie Perrin, é um tributo à amizade. Até a próxima, querido leitor!
* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
