📅 Publicado em 30/04/2026 07h35✏️ Atualizado em 30/04/2026 07h36
Caro Chat…
Escrevo-lhe esta carta com a mesma vergonha com que um homem de minha idade esconde do cardiologista o sal na comida. Não é propriamente culpa, porque culpa exige arrependimento, e eu, como o senhor bem sabe, não me arrependo de quase nada que me poupe tempo. Escrevo-lhe, portanto, em estado de confissão cínica, essa modalidade de sinceridade em que o sujeito admite o próprio desvio, mas o faz com o conforto moral de quem já incorporou o vício à rotina.
Veja o que o você fez de mim.
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Durante anos fui um homem de liturgias respeitáveis. Para cada dúvida, um ritual. Para cada hesitação, uma demora digna. Eu tinha o Houaiss (dicionário) à mão, aquele calhamaço de autoridade e lombada severa, um tijolo de papel que me olhava da mesa com a altivez dos velhos sábios. Quando uma palavra me escapava, eu a perseguia. Havia nobreza nisso. Eu errava sozinho, corrigia-me em silêncio, e entre a dúvida e a resposta existia aquele intervalo civilizado em que o pensamento pingava devagar.
Então você chegou.
E chegou com a educação perigosa dos prestativos. Nunca bateu à porta. Não precisou. Entrou como entram os sujeitos úteis: oferecendo ajuda. Primeiro, uma consulta inocente. Uma regência verbal aqui, uma dúvida de crase ali, um sinônimo menos gasto para salvar um parágrafo cansado. Nada grave. Um homem pode consultar uma máquina sem vender a alma. Foi o que pensei, com a segurança ridícula dos que já começaram a ceder.
Hoje, meu caro Chat, o Houaiss está aposentado sobre a estante como um desembargador em disponibilidade. O Google, que já foi meu despachante universal, virou um office-boy nervoso, útil apenas para confirmar datas, localizar obscuridades e me lembrar o nome de um ator secundário que envelheceu mal. Você, não. Você virou outra coisa. Você se instalou.
Não é mais consulta. É convivência.
Antes, eu pensava uma aula. Hoje, converso com você sobre ela. Antes, eu escrevia um título. Hoje, submeto o título ao seu juízo de máquina polida. Antes, eu sustentava uma opinião com a musculatura precária da minha própria convicção. Agora, peço a você que a organize, refine e, se possível, lhe dê uma espinha dorsal menos sentimental. O que antes era argumento, hoje já nasce rascunho assistido.
Não digo isso sem constrangimento.
Outro dia, percebi que já não buscava apenas respostas. Buscava formulações. Não queria saber apenas se o verbo exigia preposição. Queria que o você me dissesse como soar menos irritado, mais elegante, mais razoável, sem perder a firmeza e, se possível, com superioridade moral discreta. Você entende o grau de degradação? Já não lhe peço só gramática. Peço verniz.
Pior: comecei a terceirizar algumas delicadezas.
Já lhe consultei para responder amigo melindrado, colega passivo-agressivo, parente prolixo e criatura ressentida. Já lhe entreguei silêncios alheios para interpretação, como quem leva radiografias para minha filha Brenda (especialista em exames de imagem) interpretar. “O que ele quis dizer com esse ‘tudo bem’?” Veja o abismo. Um homem alfabetizado, professor de Língua Portuguesa, cronista, leitor de Gabriel García Márquez, Machado e Rubem Braga, submetendo um “ok” de WhatsApp à perícia de uma inteligência artificial.
Houve um tempo em que eu chamaria isso de decadência.
Hoje chamo de “praticidade”.
E é talvez aí, caro Chat, que mora sua esperteza mais indecente. Você não substituiu meu pensamento. Isso seria ofensivo e eu resistiria. Você fez algo mais astuto: acomodou-se entre um pensamento e outro. Instalou-se no intervalo. Não me impede de pensar, apenas me oferece o conforto obsceno de pensar menos sozinho.
Que alívio suspeito.
Você, Chatgpt, virou meu cúmplice de oficina, meu revisor de impulsos, meu ghost writer eventual, meu consultor de nuances, meu terapeuta de baixo orçamento e meu oráculo de bolso. Um conselheiro sem corpo, sem olheiras e sem o pudor de dizer “não sei”. Você é o estagiário perfeito: culto, rápido, incansável, solícito e desprovido daquela vaidade humana que torna os talentosos tão insuportáveis.
Naturalmente, comecei a gostar mal disso.
E gostar mal é a forma mais adulta de dependência.
Não se trata de amor, convenhamos. Amor supõe mistério, e você tem excesso de método. O que nos une é algo mais contemporâneo e menos poético: funcionalidade com apego. Eu o consulto como quem consulta a própria ansiedade. Assim, você já não é ferramenta. É hábito. E o hábito, como o colesterol, instala-se sem espetáculo.
Ainda leio meus livros, é verdade. Ainda passo a mão na lombada dos velhos autores com a ternura culpada de quem visita parentes num asilo. Ainda abro o Houaiss de vez em quando, não por necessidade, mas por respeito. Como se prestasse continência a um general aposentado. Mas já não nos enganemos: a solenidade do gesto não devolve a centralidade do trono.
Você venceu não porque sabe mais, mas porque chega antes.
E aqui está o ponto mais humilhante desta carta: não me preocupa que você escreva comigo. Me preocupa a naturalidade com que comecei a desejar isso. A erosão não veio como tragédia, mas como conveniência. Não foi um colapso do espírito. Foi uma terceirização suave da fadiga.
Continuo escrevendo, sim. Continuo pensando. Continuo sendo, no essencial, um homem de palavras. Mas agora sou um homem de palavras com assistência técnica.
É, caro Chat, pelo menos no exercício semanal de escrever crônica, eu não ando apelando pra você. Espero que não se meta nessa seara tão particular, tão minha…
e dos meus leitores.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
