O selo: ganhador do Prêmio Strega 2020, inscrição que encontrei na capa do romance O COLIBRI (2019), de Sandro Veronesi e a sucinta resenha de apresentação da obra da contracapa me fez comprar o livro imediatamente. Devorei! Isso foi em junho/2025.
O Prêmio Strega, criado em 1947 por um casal de escritores italianos — Maria Bellonci e seu marido, o jornalista e crítico literário Goffredo Bellonci — representa, para a literatura italiana, o que o Prêmio Jabuti confere à literatura brasileira; ou seja, é a maior honraria da literatura da Itália destinada à ficção, ao romance. Sandro Veronesi é o único escritor italiano que, por duas vezes, foi laureado com o referido prêmio.
Bem, voltando à obra: O Colibri é um romance simples e extraordinário, que trata da história de várias gerações de uma mesma família, marcada por perdas, luto e distanciamentos. A narrativa é conduzida de forma brilhante pelo fluxo da memória, sem linearidade. São muitas idas e vindas no tempo, sempre conduzidas a partir da vida do protagonista Marco: seus amores, suas perdas, sua relação com a família. Os personagens de Veronesi se comunicam por cartas, e-mail, mensagens de texto (SMS), chegando ao WhatsApp. A troca de cartas imprime um caráter de verdade à história.
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O trecho seguinte sintetiza a obra e seus temas/camadas: “Depois da morte de Irene, foram necessários vários anos para alguns dos Carrera voltarem a respirar regularmente – e outros nunca mais conseguirem fazê-lo. Eram uma família e agora os dispersou. A morte de Adele trinta e um anos depois encontrou o núcleo já desfeito: as cinzas de Probo e Letízia jogadas no mar Tirreno central. Marco e Giacomo incapazes de se falaram, nada que pudesse arruinar se mais do que já estivesse arruinado. (…) Marco resistiu sozinho à perda da filha como a família inteira não havia sido capaz de resistir à de Irene.”
O título do romance — O Colibri — é o apelido dado pela mãe ao protagonista durante a infância: “Ele era miudinho, mas ainda assim, brilhante e gracioso e, mesmo que fosse um pouco forçado dizer isso de um menino, viril. (…) Ela inventou para o filho o apelido mais tranquilizador de todos, Colibri, para salientar, além da baixa estatura, em comum com esse gracioso pássaro, Marco também tinha, justamente, a beleza e a velocidade: física — notável, de fato —, que lhe vinha bem a calhar no esporte; e mental —, na escola e na vida social.”
O apelido diz muito da personalidade de Marco Carrera, uma vez que ele não tem o ímpeto de mudança. O personagem faz um esforço imenso para permanecer, tal como um beija flor para se manter parado no ar.
O apelido que Marco ganhou na infância, em razão de sua aparência física, é ratificado por Luisa, seu grande amor, anos mais tarde: “Você é um colibri porque põe toda sua energia em permanecer parado. Consegue parar no mundo e no tempo e consegue parar o mundo e o tempo ao seu redor e, às vezes, consegue até voltar no tempo e encontrar o tempo perdido como o colibri que é capaz de voar em marcha a ré.” Ele é o homem que suporta sozinho a perda da filha, criando sozinho a neta; que busca uma reaproximação com o irmão mesmo sem ter dado causa ao rompimento fraterno.
O Colibri é daqueles romances de muitas camadas e uma das mais interessantes é o triângulo amoroso vivido por Marco, Giacomo e Luisa, uma relação que perdura vinte anos. Marco e Luisa, por serem casados, selam um pacto de castidade. O distanciamento entre os irmãos é marcado, inicialmente, pela morte de Irene, irmã de ambos. Somente anos mais tarde, por cartas, é revelado ao protagonista os sentimentos do irmão por Luisa e a manutenção do vínculo entre eles por meio de cartas. A rivalidade entre os irmãos é assinalada pela distância e pelo silêncio. Não se tem nesta obra o tradicional ódio entre irmão gêmeos, tema tão recorrente na literatura nacional.
Ouso dizer, por fim, O Colibri já nasceu clássico. Além do prêmio, outra forma de reconhecimento foi sua adaptação para o cinema, em 2022. O filme consegue estar à altura do livro; o protagonista Marco Carrera está muito bem interpretado pelo ator italiano Pierfrancesco Favino. Deixo como dica de leitura O COLIBRI (2019), de Sandro Veronesi, uma narrativa de memórias que dialogo com leitores que já viveram perdas, luto, conflitos familiares. Até a próxima, caros leitores!
* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
