Dr. Carlinhos se mudou para Marabá como quem troca de pele sem trocar de corpo. Há homens que atravessam rios para pescar sossego. Ele atravessou estradas. Veio de Goiás com a mala das roupas, a pasta dos exames e um peso antigo, desses que não aparecem na tomografia nem se deixam escutar no estetoscópio. Instalou-se por aqui havia oito anos, quando já aprendera que certas dores da vida adulta não cedem nem com repouso, nem com comprimido sublingual, nem com a conversa boa de fim de plantão.
Em Marabá, ele virou desses médicos de rodagem. Atendia aqui, acolá, mais adiante, onde a estrada ainda insiste em ser barro no inverno e poeira no verão. Era homem conhecido em recepção de hospital, corredor de clínica, posto de saúde de município vizinho. Carregava na voz uma gentileza treinada, no bolso uma caneta de marca boa e nos olhos aquela exaustão silenciosa.
Em Goiânia, a vida antiga continuava lhe batendo à porta, mesmo sem ele morar lá. A primeira família, feita de casamento comprido e três filhos, lhe chegava por ligação, mensagem, cobrança e memória. A esposa, agora com 59 anos, não lhe pedia pensão, palavra que ela talvez considerasse miúda para o padrão de vida que escolhera.
Leia mais:Queria o custo do luxo. Era como se dissesse que, já que o marido não podia mais oferecer presença, ao menos sustentasse o brilho da ausência. Vinte e dois mil reais por mês lhe parecia uma conta justa. Melhor isso, dizia-se, do que abrir guerra por apartamentos, fazenda e aquela produção graúda de açaí em Tomé-Açu, que rendia mais do que muito diploma pendurado em parede de consultório. Os filhos pediam também, mas sem exagero. Pediam como quem conhece o tamanho do bolso do pai, embora não conhecesse o tamanho do seu cansaço.
Foi entre uma consulta e outra, num desses dias em que o hospital cheira a éter, café morno e esperança empilhada, que conheceu Maria Lúcia. Enfermeira mais jovem, riso limpo, mãos rápidas e olhar de quem entendia o sofrimento alheio sem precisar fazer discurso sobre ele.
Com ela, Dr. Carlinhos descobriu em Marabá uma segunda margem. Foram seis anos de uma felicidade mansa, quase doméstica demais para parecer verdadeira. Tinham o hospital, tinham a casa, tinham pequenas viagens, tinham o costume de dividir o silêncio sem que ele pesasse. Maria Lúcia não lhe cobrava a alma em parcelas. Oferecia presença inteira, dessas que não cabem em PIX nem em escritura.
Mas no último ano uma tristeza começou a se sentar ao lado dele, primeiro discreta, depois íntima. Não fazia escândalo. Não quebrava pratos nem elevava o tom. Apenas chegava cedo e dormia tarde. Entrava com ele no carro, no consultório, no banho, na varanda. Era uma tristeza organizada, quase clínica. Dr. Carlinhos passou a medir a vida como media pressão arterial. Em queda. Em risco. Em observação.
Numa manhã sob chuva, ele saiu para mais uma viagem de atendimento. Ia pela estrada olhando o mundo como quem revisa prontuário antigo. As palmeiras ao longe, o vermelho da terra, os caminhões, a pressa dos vivos, tudo lhe pareceu excessivamente provisório. E então resolveu partir. Escolheu um acidente, talvez por deformação profissional, talvez por saber que certas despedidas, quando ganham aparência de acaso, aliviam um pouco a culpa dos que ficam.
Morreu como quem apaga a luz de uma sala, sem discurso, sem plateia, sem a coragem barulhenta dos heróis e sem a covardia que os moralistas gostam de atribuir aos cansados.
Dias depois, apareceu a carta.
Dizia ter escrito de lá, desse lugar onde ninguém mais precisa mentir no imposto de renda nem explicar ao coração por que ama em duplicidade. Contava, com a sinceridade que só os mortos e os bêbados costumam alcançar, que vivera dividido entre duas casas e nenhuma paz. Falava dos filhos, da esposa, dos apartamentos, da fazenda, do açaí em Tomé-Açu, das contas que chegavam antes do afeto. Falava de Maria Lúcia com uma ternura desarmada, como quem descreve o único intervalo de sombra numa avenida inteira sob o sol. Confessava que em Marabá fora feliz do jeito possível. Confessava também que o peso do mundo não vinha só das despesas, mas da culpa de desejar uma vida nova quando a antiga ainda respirava.
A carta corria bonita, melancólica, quase elegante, até que no fim vinha a surpresa. Não estava assinada por Dr. Carlinhos.
Quem assinava era Maria Lúcia.
Ela escreveu dizendo que inventara a carta para que todos enfim entendessem o que ele nunca teve coragem de dizer em vida. Inventou o além porque o aqui era burocrático demais para sentimentos tão embaraçados. Inventou a voz dele porque os vivos, quase sempre, só acreditam na verdade quando ela chega fantasiada de mistério. E, no último parágrafo, com a serenidade de quem aplica medicação sem tremer a mão, deixou a frase que fez a cidade inteira silenciar por um instante:
Dr. Carlinhos não morreu cansado de viver. Morreu cansado de não conseguir viver inteiro.
Depois disso, Maria Lúcia dobrou a carta, guardou-a numa gaveta e foi trabalhar. Em Marabá, o sol continuou nascendo sem pedir licença, os ônibus continuaram lotados, os hospitais continuaram cheios e o rio, indiferente e sábio, seguiu levando embora aquilo que a cidade não consegue segurar. Só que, desde então, toda vez que alguém fala em acidente, há sempre um ou outro que baixa a voz. Não por medo da morte. Mas por respeito à fadiga secreta de quem sorri no corredor, receita alívio aos outros e vai adiando, para nunca, a consulta consigo mesmo.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.

