Correio de Carajás

A censura de livros no Brasil colonial contemporâneo

Mari Hipólito, mulher sorrindo com cabelo cacheado, segurando um livro, para a Coluna do Clube da Palavra.

Quando o assunto é censura, consta na história da literatura mundial um caso reconhecidíssimo: MADAME BOVARY, de Gustave Flaubert, romance que abordou o adultério feminino e escandalizou a sociedade francesa do século XIX. Em razão disso, autor e editor foram parar no banco dos réus, pois o livro havia atentado contra a moral e a religião. Em 1857, após a absolvição, a obra foi publicada e foi um sucesso sem precedentes, pois o julgamento estimulou a curiosidade do leitor.

No período compreendido entre os séculos XV e XVIII, por meio do Tribunal da Santa Inquisição, livros foram confiscados e queimados em praça pública — uma censura brutal. No Brasil, em pleno século XXI, temos casos de livros que sofrem censura, de forma mais “branda”, sendo classificados como “inapropriados” para crianças e adolescentes. Recentemente, três livros nacionais sofreram tentativas de serem retirados das escolas: CAPITÃES DA AREIA (1937), de Jorge Amado; O AVESSO DA PELE (2020), de Jeferson Tenório; e, esta semana, foi a vez do meu queridíssimo A BOLSA AMARELA (1976), de Lygia Bojunga.

O livro A Bolsa Amarela é considerado um clássico da literatura infantojuvenil brasileira e já esteve nesta coluna em duas oportunidades, mas foi na edição do dia 07.10.2025 que a protagonista Raquel foi apresentada aos leitores na coluna “Eu queria ser amiga da Raquel”. Eis que, na última semana, repercutiu no meio literário a notícia de que pais de alunos de uma turma de 4º ano de uma escola militar do Distrito Federal consideraram a obra inadequada para crianças de 9 anos por abordar temas relacionados à identidade de gênero. O argumento apelativo usado para a censura de obras literárias tem sido esse: proteção da inocência das crianças e adolescentes.

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A história, vista como ameaçadora à inocência dos pequenos e jovens, é a narrativa de uma adolescente de 14 anos, Raquel, uma menina criativa, imaginativa e cheia de questionamentos. Ela guarda três grandes vontades: crescer logo para se livrar das piadas feitas pelos irmãos e, sobretudo, ter voz para ser ouvida pelos adultos; queria ser garoto porque considerava que os meninos têm mais espaço, pois, segundo Raquel, eles costumam ser os líderes das brincadeiras e os chefes de família quando adultos. A “bolsa amarela” é a metáfora do coração daquela menina, local onde ela guarda seus sonhos.

Em 2024 foi a vez de O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório; o livro foi censurado em três estados brasileiros ao ser excluído do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). A obra vencedora da maior honraria da literatura brasileira — Prêmio Jabuti 2021 — escancara o racismo no Brasil; a violência policial; e a fetichização e sexualização de corpos negros. E sabe qual foi o argumento apelativo? “Expressões impróprias” para menores de 18 anos; em razão disso, houve uma tentativa de retirada dos livros das escolas públicas de três estados.

O clássico Capitães da Areia (1937), de Jorge Amado, ainda durante o Estado Novo, foi censurado e queimado, pois foi considerado “comunista” por conter crítica social ao narrar a história de um grupo de garotos que vivia em situação de extrema pobreza e abandono nas ruas de Salvador. Recentemente, a obra sofreu mais um ato de censura — desta vez no Ceará, no ano de 2025 — quando foi acusada de “promover a marginalização infantil e romantizar o estupro e a relação sexual entre adultos e crianças”.

Por muito tempo, os livros foram monitorados pelas instituições do Estado e pela Igreja com o objetivo de manter o controle sobre o pensamento social. Os livros, desde cedo, foram considerados perigosos por promover o pensamento crítico, reflexões e discussões. Ao censurar um livro, o que motiva a censura é querer escolher as histórias que devem ser contadas, as realidades que devem ser apresentadas ou retratadas para determinado público. Censurar é uma tentativa de escolher os modelos sociais que devem ser seguidos. É dizer que esse ou aquele comportamento não é apropriado.

E, considerando que, historicamente, o efeito que a tentativa de se proibir o acesso a determinado livro incentiva a busca pelo título censurado, deixo como dica de leitura três dos “livros proibidos” brasileiros: CAPITÃES DA AREIA (1937), de Jorge Amado; O AVESSO DA PELE (2020), de Jeferson Tenório, e A BOLSA AMARELA (1976) de Lygia Bojunga.  Boa leitura, diletos leitores!

 

 

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.