Correio de Carajás

Crônica de ninar para um Levi recém-chegado

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

OURIÇO CHEIO

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Levi, o primogênito de Jéssika (com K mesmo) e Felipe Lincoln acaba de chegar ao mundo. A um mundo muito estranho. Ele é uma belezura. As fotos pulverizaram nas redes sociais nesta terça-feira, dia 13, tão logo nasceu no HMI. A mãe confessou que aquele foi “o dia mais louco da minha vida”.

Mas não é só ela que acha algo louco no mundo. A loucura, para Levi, será ver um mundo estranho, que lhe parecerá normal no primeiro momento.

As crianças de sua geração – um pouco mais velhas até – já usam máscaras de pano, e o mundo lhes parece mais distante, os sons que suas bocas emitem saem abafados. Falam pouco, leem fragmentos, esquecem palavras. Ficam mais em silêncio. Não podem ouvir muito claramente, não veem o rosto das pessoas, apenas os olhos e os cabelos. Os óculos embaçam. Mas eles têm voz.

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Não podem estar com amigos, brincar na pracinha, jogar no campinho, na poeira, na areia, na lama, não vão ao cinema nem ao circo, não podem ter gente por perto e sentem receio das pessoas. Não participam de festas de aniversário, passeios, soltar pipa, ônibus escolares. Não podem visitar os avós, e quando os visitam, não podem abraçá-los nem beijá-los. Aprendem que os toques contaminam, precisam lavar as mãos constantemente. É o novo normal, dizem.

Não podem ir à escola, precisam estudar e aprender pelo celular, que é uma extensão do corpo. Uns ligam o celular para receber os pontos, mas saem de perto. Há menos atividades. Os professores são imagens de luz e som, voláteis, quase não existem. Crianças pobres ficam de fora das escolas, sem comer a merenda. A fome é fulminante. Uns seguem favorecidos pela sorte, têm afeto, amor em suas vidas, alimento à mesa, computador ou laptop, professores particulares.

Crianças ficam sozinhas em casa, os pais saem para trabalhar e podem não voltar. Outras convivem com pais que eram ausentes e agora trabalham em casa que é também escritório e empresa. Todos são manipulados por algoritmos. Recebem fartos dados pela internet. O universo é digital.

Perdem cedo a infância. Sentem-se responsáveis pelo mundo. Conhecem a violência, ouvem ameaças. Sabem que o desemprego ronda, têm a preocupação de adultos, sentem a força do furacão social que o isolamento traz. A rua é perigosa, a casa é uma bolha. Uns não têm casa, ou todos se amontoam num quarto. Sabem o que se passa no mundo, ouvem números de pessoas que morreram, parentes falecem isolados. Médicos, enfermeiros são super-heróis. A morte é uma senhora que mora ao lado. Crescem, amadurecem depressa demais.

Encontram amizade por aplicativos. Têm a sensação de que da noite para o dia tudo pode mudar. Há uma desmaterialização da vida, não há mais o corpo, há menos relações de amor. São vigiados pelos pais, e criam menos identidades para si. Vivem num mundo sem privacidade, a intimidade é cada vez mais invadida. Difícil distinguir realidade e fantasia. Fazem conexões entre doenças e destruição climática, entre vírus e natureza maltratada. A sustentabilidade é uma tendência, porém a sociedade ficou mais individualista. O mundo é ao mesmo tempo pequeno e imenso.

Vivem num ambiente hostil, inseguro, têm ansiedade ou medo. São mais criativos, porém mais conservadores. Recebem o diploma em cerimônias virtuais, não sabem se tem valor. Uns sentem raiva, querem atirar, outros se fecham para o mundo, tomam pavor de retornar ao convívio. Uns não conseguem trabalho, pegam a primeira oportunidade, seja qual for. Ainda não se sabe quais os frutos deste tempo. A Geração Covid está sendo observada.

Sim, Levi, seja bem-vindo. Você chegou num momento “louco”. Esperamos que toda essa loucura passe, que aprenda a solidariedade e que não perca o dom de sonhar. (Ulisses Pompeu)

 

 

* O autor é jornalista do CORREIO há 25 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

 

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