Dizem que a história é escrita pelos vencedores. Em Marabá, durante muito tempo, ela também parece ter sido desenhada pelos agrimensores. E não por qualquer um.
Houve uma época em que uma simples linha torta valia uma fortuna. Bastava que deixasse de ser perpendicular e passasse a ser… oblíqua.
Foi justamente essa palavra “oblíqua” que entrou para o folclore político da cidade. Não por representar alguma inovação da geometria, mas porque, segundo as denúncias publicadas pela Folha do Norte, de Belém, em 1925, ela teria servido para transformar terras públicas e propriedades alheias em patrimônio de gente muito influente.
Leia mais:A Marabá daqueles dias ainda era um povoado de barrancos, castanhais e promessas. O dinheiro brotava da castanha-do-pará, e quem controlava os castanhais controlava praticamente tudo. Era um tempo em que os mapas eram mais importantes que os discursos, porque um risco de pena podia render mais do que uma vida inteira de trabalho.
No centro da história apareciam dois personagens de peso.
De um lado, João Anastácio de Queiroz, prefeito praticamente vitalício, dono de um mandato que atravessou dezesseis anos como quem atravessa o Tocantins numa montaria: sem encontrar correnteza capaz de derrubá-lo.
Do outro, Deodoro de Mendonça, deputado estadual e uma espécie de vice-governador para esta região tocantina, figura celebrada por muitos como o grande defensor de Marabá junto ao governo estadual. Na tribuna, falava em progresso. Nos bastidores, segundo a série de reportagens da Folha do Norte, parecia interessado num progresso bastante específico: aquele que terminava dentro do próprio bolso.
O jornal belenense não economizou tinta. Publicou mapas, reproduziu cartas manuscritas, transcreveu negociações, divulgou cálculos, denunciou pagamentos, expôs nomes. Durante semanas, fez do escândalo um folhetim político que incendiou o Pará.
Entre as acusações estava a participação de Deodoro na compra de extensos castanhais por preços considerados irrisórios, utilizando informações privilegiadas e contando com a colaboração da administração municipal. As cartas reproduzidas pelo jornal sugeriam um relacionamento muito mais íntimo entre os negócios privados e os interesses públicos do que qualquer cidadão desejaria encontrar.
O prefeito João Anastácio aparecia como peça indispensável da engrenagem. Ele não era um governante qualquer, mas uma verdadeira instituição oligárquica.
Não era apenas um aliado político. Era o homem que conhecia cada igarapé, cada picada, cada posse, cada documento. Sem sua caneta e sua influência local, dificilmente o quebra-cabeça territorial seria montado.
E foi aí que nasceu a célebre “oblíqua”.
Segundo a denúncia, o agrimensor encarregado da demarcação abandonou a linha que deveria seguir reta e perpendicular, optando por uma diagonal conveniente. O resultado era quase mágico: um pedaço respeitável das terras de Othon de Carvalho desaparecia no papel para reaparecer anexado às propriedades atribuídas a Deodoro.
A matemática talvez protestasse. Mas a ambição sempre foi péssima aluna da geometria.
A Folha do Norte chegou ao requinte de publicar um artigo intitulado “A geometria do mestre Deodoro”, ironizando o fato de que, naquela nova ciência fundiária, uma reta parecia valer mais quando deixava de ser reta.
Dias depois veio outro texto, ainda mais ácido: “Com os pulsos nas algemas”. O título era quase uma sentença moral. O jornal acusava o vice-governador de usar o prestígio político para enriquecer enquanto discursava sobre patriotismo e interesse público.
As palavras tinham o peso das pedras de lastro das velhas embarcações. Chamavam aquilo de especulação. Favorecimento. Apropriação. Tráfico de influência.
Hoje talvez o vocabulário fosse outro. Mas a essência continuaria reconhecível.
Curiosamente, o tempo fez um curioso trabalho de restauração histórica.
João Anastácio permaneceu lembrado como um dos grandes administradores dos primeiros tempos de Marabá. Deodoro entrou para a memória regional como o político que defendia a cidade diante da capital.
Já a “oblíqua” quase virou lenda, repetida aqui e ali como uma anedota de velhos castanheiros.
Mas ela nunca foi apenas uma linha torta. Era um método. Uma filosofia administrativa. Uma forma bastante criativa de transformar poder em patrimônio.
Talvez seja por isso que o episódio continue tão atual. Mudam-se os mapas. Trocam-se os cartórios pelos computadores. Os castanhais dão lugar a loteamentos, mineradoras e condomínios.
Mas permanece viva a antiga tentação de governar com uma régua numa mão e um interesse particular na outra.
A velha oblíqua, afinal, nunca foi apenas um traço sobre o papel. Foi um jeito de enxergar a coisa pública.
E, convenhamos, certos vícios envelhecem muito melhor do que certas virtudes.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
