As farmácias estão se multiplicando em Marabá. As castanheiras estão sumindo uma a uma. As mangueiras estão dando lugar às concessionárias de carros elétricos. As farmácias estão se modernizando e virando supermercado. Temo o dia em que Marabá tenha mais farmácias que árvores. A cidade está crescendo rapidamente e eu acho que estou precisando mais de remédios do que de sombra, de cajá, de goiabeira, de um suco pra tomar…
As árvores se alegram. Adoram balançar memórias e aninhar extraterrestres.
As árvores se torcem e estalam quando o fogo arde. As árvores queriam migrar quando não fossem bem-vindas. Sonham e, quando pegam no sono, são infâncias.
Leia mais:“As árvores queriam tomar banho de rio”.
As árvores não “falam” feito os dicionários nem traduzem o humano, os tratores, os machados, a coivara, a extinção.
As árvores conversam debaixo da terra. Acordam umas às outras e planejam florestas, chuvas, rios voadores e beija-flores.
As árvores queriam tomar banho no Tocantins, no Itacaiunas. Sem asfalto nos pés nem veneno nos cupins. As árvores gostam de besouros feios e não se incomodam com a farra das cigarras.
As árvores amam as formigas e apreciam as abelhas doces. As árvores não têm problemas em ser condomínios de juritis, de pardais, de jiboias e de corações de namorados.
As árvores não são machistas, não são feminicidas e nunca açoitam ninguém. As árvores não criaram a bomba atômica! Nem são golpistas.
As árvores se beijam. Dão goiabas, doce de jaca, café, redes e tapiocas. Cheiram a pequi e adoram o visgo das paixões.
As árvores são mangueiras, seringueiras, videiras, sabiás, angicos, andirobas, juazeiros, ingazeiros, cajueiros, tamarindeiros e limoeiros. São pés de jatobá…
Fui criado por uma goiabeira de quintal onde havia irmãs, meus irmãos, amigos e meninas da rua. Aprendi a viver trepado, cair, chorar e, no outro dia, subir de novo.
As árvores ensinavam coisas, coisas de poleiros para galinhas. Sobre lagartas-de-fogo e abundância. Comiam dos frutos e dos pendúculos os sanhaços e os morcegos.
As árvores, hoje, estão esgotadas. É o asfalto nos pés, a chuva pouca, os carros, os homens e as ansiedades. Se pudessem voariam em jubartes.
Em minha cidade há mais farmácias do que árvores. Sonhei ontem o disparate! Supermercados e academias são mais importantes que bosques de esquinas.
O que as farmácias, os supermercados e as academias teriam contra as árvores e as esquinas arborizadas? Na rotatória da Folha 31 com a 27, uma farmácia deu lugar a três cajueiros gigantes. Mas o quartel da 23ª Brigada já foi um imenso muricizal que eu e meus colegas tínhamos como extensão da Folha 23. Todo bairro tem quatro, seis, dez farmácias. Na Folha 28, há uma farmácia que, ao mesmo tempo, é deserto e cimento. Também há mormaço em várias lojas de vender remédios na VP-8.
Parece, funciona assim: ter árvores na frente da marca é prejuízo. Árvores atrapalham as vendas e soltam muitas folhas. Tenho um mapa de esquinas devastadas. E se eu fosse menos idiota não compraria nem cibalena ali.
Um supermercado, na Folha 31, botou abaixo meio bosque e diversas goiabeiras. Não ficou uma árvore no mercantil. Fizeram assim também na Folha 26.
Geralmente, os mercantis são do mesmo naipe. Não têm vocação para árvores. Na Antônio Maia, em frente a uma farmácia, um supermercado não permite que plantemos mudas no estacionamento. Antes, por lá, o próprio sol quente buscava sombra nas copas dos oitizeiros.
Se eu fosse as árvores ia embora daqui. Atrapalham negócios, azaram avarentos. Falei das farmácias, dos mercantis, das academias, mas as escolas, as igrejas, os shoppings não ficam atrás.
Talvez seja por isso que, neste Dia da Árvore, eu tenha vontade de pedir desculpas às árvores de Marabá. Desculpas pelas motosserras, pelo concreto, pelo estacionamento, pelo sol que empurramos para dentro das casas e pelo silêncio que estamos deixando onde antes havia cigarras. Um dia, quem sabe, vamos descobrir que a farmácia não vende sombra, que o supermercado não vende passarinho, que a academia não fabrica oxigênio e que nenhuma concessionária de carro elétrico consegue estacionar uma floresta no lugar de uma castanheira.
Aí talvez seja tarde. Porque árvore não é enfeite de calçada nem obstáculo para negócio: é uma espécie de remédio que Deus deixou de graça nas esquinas. E nós, tão preocupados em comprar remédios, estamos derrubando justamente aquilo que talvez pudesse nos manter mais vivos.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras. Hoje excepcionalmente por causa do Dia da Árvore
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
