Em 1980, o rio subiu tanto que a casa de dona Maria Lígia Mota, no Cabelo Seco, ficou “sumida”. Era assim que ela dizia. Em outra cheia, chovia, a água avançava por todos os lados e uma casa pegou fogo. Ninguém sabia se corria para apagar as chamas ou para escapar da enchente.
Os pertences iam parar na praça. Quando se dava por falta do botijão de gás ou do colchão, já tinham levado. Passada a cheia, dona Lígia voltava para o mesmo lugar. Quem escuta a história pela primeira vez talvez queira saber por quê. Ela respondia sem rodeio: “É, porque era bom”.
A água já tinha levado outros endereços de sua vida. Nascida em 4 de dezembro de 1940, dona Lígia fazia questão de dizer que era do Jacundá que afundou com a barragem. Criou-se em Tucuruí, onde teve a primeira filha. A segunda nasceu em Jatobal, outro lugar que ficou debaixo d’água. Casou-se aos 15 anos com um rapaz de 16. A segunda filha tinha três meses quando ela se separou. O marido bebia e quis cortar sua garganta com uma navalha. Foi com a mãe, Evangelina Mota Sales, que criou a menina até ela completar um ano.
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O desejo de morar em Marabá vinha de uma visita de infância, na companhia de dona Cheirosinha. Mas foi numa viagem de ônibus, com a filha pequena passando mal no colo, que decidiu ficar de vez. Estava costurando quando a menina, de três meses, começou a chorar depois de tomar mingau. Dona Lígia largou a máquina e partiu em busca de atendimento. “Doutor, eu não tenho dinheiro, mas queria que o senhor cuidasse da minha filha”, disse ao Dr. Amadeu.
Ele cuidou da criança. Ela alugou uma casa em Marabá e mandou as duas filhas mais velhas buscarem a bagagem em São João do Araguaia. A máquina de costura ficou para trás naquele dia.
O segundo marido acabou se acostumando à ideia. Carpinteiro, passou a fazer barcos na beira do rio. Os meninos ajudavam a preparar os pavios de algodão que vedavam as frestas. Dona Lígia costurava, lavava roupa, vendia comida, gelo e chopp. Começou a trabalhar em colégio em 1974 e fazia o turno da noite para passar o dia com os filhos e costurar. Fez também um curso básico de enfermagem. A casa no Cabelo Seco vivia cheia de gente que vinha tomar injeção. Quando o coração adoeceu, precisou deixar o trabalho no colégio.
Ela contava 13 filhos e mais três crianças que ajudou a criar. Guardava retratos e gostava de dizer onde cada um tinha ido parar. Eliete Mônica era inspetora da merenda escolar. Elizabeth, diretora do Tancredo Neves. Carlos Henrique ensinava inglês em Parauapebas. Quando falava de Lenita, enfermeira do Regional que morreu e deixou quatro filhos, fazia questão de contar também dos netos, das faculdades e dos empregos. Ela própria, quando perguntaram se tinha estudado em Marabá, disse que não deu tempo. “Apareceu um bando de filho pra criar.”
Havia graça nas lembranças. Na praia, levava uma bacia cheia de comida para os meninos e ficava sentada, toda de saia, “igual um jacaré”. Na Marabá de que sentia saudade, a roupa dormia no varal e na beira do rio se vendia rapadura, queijo e doce de leite em carrinho de mão. Às vezes, a freguesa chegava antes do vendedor e ficava chamando pelo dono. De noite, dona Lígia tinha medo de atravessar o quintal. Medo de visagem, dizia. Visagem mesmo ela nunca viu. Uma vez ouviu um assobio feio no beco, quando voltava do trabalho com os meninos. Correram todos.
A última vez que conversei com ela, dona Lígia ainda tinha planos para o Cabelo Seco. Queria um lugar onde as pessoas idosas pudessem se divertir e uma escola boa para as crianças. Pensava em curso profissionalizante, em espaço para brincar, em roupa, calçado e comida para quem precisava. Via casas abandonadas e imaginava quantas poderiam virar escola ou lugar de diversão. Quando lhe perguntaram qual era o seu maior sonho, ela já tinha um endereço em mente. “Podia até ser na minha casa mesmo.”
Ainda tem saúde para realizá-los. Todos.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
