Correio de Carajás

Avô é quem paparica até estragar a criação

Quase perco a querência por avô. Vô é afeto que se preze. Pode ser mais principal do que um pai e, muitas vezes, parelho com a liberdade.

Sei da história de um menino adotado que a psicóloga recomendou à mãe, desenhasse um avô e uma vó pra ele. Vinha inquieto na escola como vazio. Como não havia convivido, não compreendia por que os outros tinham e ele, não.

A mãe teve de caçar fotos perdidas, álbuns mofados, imagens derretidas da Kodak. Retratos 3 por 4, fotografias oferecidas em preto e branco. Havia de fazer existir o avô… A bênção, os Zorros trazidos da rua, as moedas dadas de presente, as conversas de trancoso, o colo, o chopp comprado na esquina e até o ralhar.

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É esquisito, mesmo, não ter visto o pai do pai. O pai da mãe. Ter nunca escutado nada sobre o senhor que veio de Portugal e aqui vingou e foram rebentando até chegar na gente. Porque foi assim que aconteceu lá em casa. Meu avô paterno, Ulisses Pompeu, veio de Cametá na década de 1920 e era filho de descendentes de portugueses. Aqui constituiu filho de mulheres diferentes e morreu um ano antes de eu nascer. Só o conheço de duas fotografias: uma 3×4 e outra de seu velório, em 1969.

Já meu avô por parte de mãe era de Conceição do Araguaia e apareceu por aqui vindo de barco. Casou-se com vovó, rebentou vários filhos e depois deu a louca – desapareceu no mundo e deixou a pobre mulher sozinha para criar os filhos. Depois de grandes, casados, o velho apareceu de novo, irritava os filhos, mas eu, neto, gostava que me levasse para suas pescarias, mesmo que isso implicasse ter de sentir o cheiro de fumo mascado várias vezes por dia.

Como não conheci minhas duas avós, tive de me contentar em ser paparicado por uma tia-avó chamada Xandu, que morreu aos 93 anos de idade. E depois de ficar viúva, no ano passado, não quis mais saber de homem em sua cama de mola. Pulei muito nela quando menino. Ela fazia picolé de todos os sabores possíveis para quando eu a visitasse, na companhia de papai ou sozinho. Com felicidade herdei as forminhas de fazer picolé que ela usava 48 anos atrás.

Quando me botei a pegar ônibus, não perdia oportunidade de sair da Folha 17 até sua casa. Ia pra lá e era tratado feito um filho, porque ela não tinha nenhum. Príncipe do deserto dela. Casinha simples, apenas um quarto, mas um coração que sabia amar o sobrinho-neto.

Nem sei por que estou confessando isso num jornal. Intimidades de família que a rua não poderia saber e maldar. Besteira. As histórias vão assim pela existência.

Voltando à história do menino adotado, refizeram o tempo do homem bem parecido ao da foto. Disseram das semelhanças e ele encasquetou porque sabia que havia sido adotado. Não se parece comigo, não me pareço nem com ele nem com meu pai que existe, mas não é verdadeiro…

O desfecho não sei no que deu, ele sonhou ter sido neto. Sentiu uma ausência danada. A outra história vai dar no medo que sempre engasgo por quem não teve a ventura de um avô, mesmo vivo.

Esse morava na mesma casa com as netas. Aquele enredo de casal que vai viver os começos com os sogros, no casarão de muitos quartos ou no furdunço de não sei quantas pessoas num puxado.

E quem vai imaginar que um sujeito tão do sangue, feito para ser ternura, poderia ter um submundo particular tão nojento? Aproveitava-se da devoção da menina e fazia tudo que um avô não faz. Sem motivo qualquer que justificasse roubar-lhe a açucena.

Até que se desvelou. A pequena não quis mais passear na calçada com ele. Empancou que não tomaria mais banho de bacia nem se arrumaria para esperar os pais na calçada de casa.

Vovô não, mamãe! Vovô não! Foi a avó que encafifou. Não era natural uma neta deixar de querer bem. Em canto nenhum do mundo, quanto mais numa cidade em que os avós parecem ser tão afáveis, como em Marabá.

O avô é quem paparica, até estraga a criação dos netos. Cria um pé de vontades, se rende ao choro sentido (de araque) e aborrece pai ou mãe.

Não teve outra, o camburão veio buscar o avô na porta de casa. Toda a vizinhança olhando atravessado sem entender. Um silêncio que papocava.

Foi embora, foi, vovó? Vem mais não, vem mais não?

 

O autor é jornalista do CORREIO há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.