Correio de Carajás

Pedro Páramo: livro precursor do realismo mágico na América Latina

“Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo.” É um dos começos mais emblemáticos da literatura. O narrador, pela biologia, se aproxima ao dizer “meu pai”; mas, imediatamente se distancia ao se referir ao pai como “um tal de Pedro Páramo”. A distância é em razão do não conhecimento e até mesmo do ponto de vista geográfico. Estamos diante do único romance, na verdade uma novela, do escritor mexicano Carlos Juan Nepomuceno Pérez Rulfo (1917–1986), ou simplesmente JUAN RULFO: PEDRO PÁRAMO (1955). O livro é uma obra-prima da literatura mundial do século XX. Ele escreveu apenas três livros, mas foi a obra em epígrafe que lhe garantiu reconhecimento.

Estamos diante da obra que influenciou Gabriel García Márquez. Sim, foi na fonte do mexicano que o colombiano bebeu antes de escrever o maravilhoso Cem Anos de Solidão. Em suas palavras: “A leitura profunda da obra de Juan Rulfo me deu, enfim, o caminho que buscava para continuar meus livros.”

Pedro Páramo não é apenas referência para a literatura latino-americana; é um clássico mundial. Embora a narrativa se desenvolva na fictícia e mística Comala, com a geografia mexicana bem demarcada, o lugar poderia estar situado em qualquer país do mundo. Comala é o lugar onde os mortos falam, e isso é tratado de forma natural; o nome disso é realismo mágico. Nada assusta. O extraordinário acontece e é tratado com naturalidade. A cidade criada por Rulfo é governada pelo rico e temido Pedro Páramo, pai do protagonista Juan Preciado.

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Comala, a cidade fantasma, acaba sendo um importante personagem, sobretudo por suas altas temperaturas. O calor da região é uma característica explorada por Rulfo ao longo da narrativa. Numa passagem muito bem-humorada, um determinado personagem compara a mística cidade ao inferno e afirma, de forma peremptória, que há quem tenha voltado do inferno para buscar um cobertor.

Sobre o enredo: vamos acompanhar a viagem de Juan Preciado, que sai em busca de um pai desconhecido de nome Pedro Páramo, a pedido de sua mãe, Doloritas. A mãe, em seu leito de morte, exige que o filho cobre do homem que lhe enganou uma dívida; exija o que lhe era devido por direito: “cobre caro pelo esquecimento em que ele nos colocou, meu filho”. A narrativa é curta, pouco mais de 100 páginas, mas a história é densa! É uma obra gigante; nela cabe um mundo mágico com personagens sobrenaturais e muitas vozes.

Quando Juan Preciado chega a Comala, ele é recebido por uma simpática e hospitaleira dona de pousada, a senhora Eduviges Dyada, que diz que estava esperando Preciado, que sua mãe, Doloritas, avisou há dois dias que ele vinha; mas o hóspede avisa: minha mãe morreu há sete dias. E a senhora, com muita naturalidade, reage apenas observando que a voz da amiga (morta) estava tão fraquinha, como se estivesse precisando atravessar uma longa distância. A narrativa é atravessada por inúmeras vozes do início ao fim, além das idas e vindas no tempo. O leitor precisa ficar atento para saber se a voz que assume a narrativa é de um vivo ou morto.

O pai de Juan Preciado, se fosse um personagem de Guimarães Rosa, sem dúvida seria chamado de famigerado em sua acepção negativa: homem perverso, cruel, de má fama. Pedro Páramo é homem capaz de corromper até mesmo um padre; um abusador de mulheres; homem que mata, que prende; seu autoritarismo subjuga uma cidade inteira. Ele é quem manda e desmanda na fictícia Comala. Todos o temem.

Apresentada a obra que foi precursora do realismo mágico na América Latina, livro curto, mas de múltiplas possibilidades de leitura. Romance polifônico, onde o leitor irá encontrar o silenciamento de mulheres — elas falam depois de mortas; narrativa de caráter político; romance de memória, portanto, fragmentado; obra que cria uma cidade mística – lugar cheio de fantasmas, mas vazia de gente -, deixo o convite para a leitura de PEDRO PÁRAMO, de Juan Rulfo. Aproveite a leitura e até a próxima, queridos leitores!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.