Antes de tudo, é preciso dizer que algumas pessoas deixam saudade pelo que fizeram. Outras, pelo que foram. Gabriel de Oliveira pertence ao segundo grupo. E talvez justamente por isso tenha feito tanto.
Quando a notícia de sua partida correu por Marabá, nesta terça-feira, 4 de agosto, aos 89 anos, não morreu apenas um homem que entendia de orquídeas. Partiu alguém que compreendia o tempo. Numa época em que quase tudo se mede pela velocidade, Seu Gabriel escolheu viver pela delicadeza da espera. Passou décadas aprendendo aquilo que as flores ensinam aos poucos: nenhuma beleza verdadeira aceita pressa.
Sua história começou longe daqui, em Londrina, no Paraná. Ainda adolescente, aos 14 anos, enquanto trabalhava no primeiro emprego, ouviu o gerente falar sobre orquídeas. A curiosidade virou pesquisa. A pesquisa tornou-se encantamento. Mas foi somente em 1976, ao ganhar algumas mudas de um fotógrafo apaixonado pelas flores, que encontrou aquilo que lhe acompanharia pelo resto da vida. Vinte anos depois, já colecionava mais de quatro mil exemplares. Não era uma coleção. Era uma biografia escrita em pétalas.
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A vida profissional passou pelas multinacionais do setor agrícola. A aposentadoria chegou como chega para quase todos: encerrando um ciclo. Mas, para Seu Gabriel, aposentar-se nunca significou parar. Significou apenas mudar o jardim.
Em 1989, conheceu Marabá pela primeira vez, ao visitar a filha, Marilza Leite, educadora, diretora de escola e posteriormente secretária municipal de Educação. Trouxe algumas mudas para presentear a Casa da Cultura. Talvez nem imaginasse que aquele gesto discreto fosse o primeiro capítulo de uma relação profunda com a cidade.
Anos depois, já aposentado, ele e a esposa decidiram mudar-se definitivamente para Marabá para viver mais perto da filha. Vieram trazendo um caminhão carregado com cerca de duas mil mudas de orquídeas. Quem visse apenas o veículo enxergaria plantas. Quem conhecesse Seu Gabriel perceberia que ali viajavam também décadas de conhecimento, paciência e afeto.
Nem todas resistiram ao novo clima amazônico. Algumas ficaram pelo caminho, como acontece com tantos sonhos quando enfrentam novos horizontes. Mas Seu Gabriel nunca reclamava da natureza. Preferia compreendê-la. Sabia que cultivar é, antes de tudo, respeitar o tempo das coisas. Explicava aos visitantes que as orquídeas gostam de claridade, mas rejeitam o sol direto; precisam de umidade, mas não de excesso; exigem equilíbrio. Curiosamente, era a mesma receita que aplicava à própria existência.
Em 2015, passou a cuidar do Orquidário Margaret Mee, da Fundação Casa da Cultura de Marabá. Durante mais de onze anos, transformou aquele espaço em muito mais que um jardim botânico. Quem chegava em busca de flores quase sempre saía levando uma conversa, uma explicação paciente, uma lição sobre a natureza ou uma reflexão sobre Deus. Seu Gabriel acreditava que as plantas transmitiam algo espiritual. E ele próprio parecia transmitir a mesma serenidade que enxergava nelas.
Há pessoas que envelhecem porque os anos passam. Outras amadurecem porque aprendem a viver. Talvez a longevidade de Gabriel tenha florescido exatamente dessa convivência diária com as orquídeas. Elas lhe ensinaram a esperar sem ansiedade, a podar sem medo, a recomeçar depois de cada perda, a celebrar cada floração como se fosse única. Enquanto muitos contam a vida pelos calendários, ele a contava pelas estações das flores, mesmo vivendo numa terra onde as estações se resumem à chuva e ao verão.
Não é exagero imaginar que, ao cuidar das orquídeas, Seu Gabriel também cuidava de si. Cada rega renovava esperanças. Cada broto confirmava que a persistência vale a pena. Cada visitante encantado alimentava sua própria felicidade. Dizia que aquilo fazia bem à mente. Era terapia. Era missão.
Poucos homens conseguem deixar uma cidade mais bonita do que a encontraram. Gabriel de Oliveira conseguiu. Trouxe flores vindas do Sul, mas fez brotar algo ainda mais raro na Amazônia: a cultura do cuidado, da contemplação e da gentileza.
Na terça-feira, certamente, o Orquidário Margaret Mee amanheceu diferente. As flores permanecem. O perfume permanece. O silêncio também. Mas haverá sempre a impressão de que falta alguém caminhando devagar entre os vasos, observando uma folha, corrigindo um detalhe, sorrindo para quem chega pela primeira vez.
Marabá despede-se de um jardineiro de orquídeas, mas, sobretudo, de um jardineiro de almas. Em nome desta cidade, fica a gratidão a Gabriel de Oliveira por ter trazido orquídeas para nossas terras e, com elas, semeado sentimentos de beleza, esperança, serenidade e amor que continuarão florescendo muito depois da última flor aberta.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
