Hoje, 9 de junho, a 23ª Brigada de Infantaria de Selva completa cinquenta anos de estabelecimento em Marabá. Meio século. Tempo suficiente para nascer uma geração inteira, para mudar a paisagem urbana, para construir avenidas, erguer pontes e fazer a cidade deixar de olhar apenas para os rios e começar a olhar para o asfalto. Tempo suficiente também para que as lembranças percam contorno e virem versões. Mas algumas histórias resistem ao tempo como castanheira no meio da rua: continuam de pé.
Para quem nasceu depois, talvez seja difícil imaginar que um dia a presença militar não representava imediatamente sensação de segurança. Hoje vemos soldados ajudando em enchentes, ações sociais, campanhas institucionais, treinamentos discretos ao fundo da cidade e uma rotina que se incorporou ao cotidiano de Marabá. O quartel virou referência geográfica, econômica e afetiva para muita gente. Mas quando os militares chegaram, no início dos anos 1970, não chegaram para permanecer. Chegaram para combater.
Era o tempo da Guerrilha do Araguaia.
Leia mais:
Quem viveu aquele período costuma contar a história em voz mais baixa. Não porque tenha esquecido, mas porque certas memórias parecem continuar exigindo respeito. De repente, a cidade se viu ocupada por homens fardados, veículos militares e um ambiente de tensão que alterou hábitos simples da vida cotidiana. Vieram o toque de recolher, a vigilância e a sensação de que havia perguntas que era melhor não fazer.
Marabá virou Área de Segurança Nacional. Durante quinze anos deixou de escolher o próprio prefeito. Para muita gente, especialmente para quem era criança ou jovem naquele tempo, aquilo significou descobrir que decisões importantes podiam acontecer sem consulta, sem voto e sem explicação.
Mas a memória nunca se acomoda em linhas retas.
Porque aquela mesma presença militar que despertava medo encontrou uma cidade que também tinha seus próprios mecanismos de poder. Havia coronéis sem patente, autoridades sem cargo e donos sem cerimônia. O poder econômico dos castanhais e das grandes propriedades atravessava a política, alcançava instituições e desenhava os limites do que podia ou não acontecer.
As leis trabalhistas, contam muitos antigos, nem sempre estavam escritas no papel. Às vezes estavam na vontade de quem tinha terra, influência e sobrenome conhecido. Trabalhador pobre tinha pouca porta para bater.
Foi nesse cenário que começou a surgir um movimento curioso e pouco contado para quem vem de fora.
Os mais pobres passaram a procurar o quartel. Diziam simplesmente: “Vou lá no Oito”. Era como o povo chamava o quartel do 52º BIS.
Não iam atrás de estratégia militar nem de patriotismo. Iam atrás de justiça. Levavam reclamação contra patrão, denúncia de abuso, conflito de terra, histórias de salário não pago e problemas que ninguém mais queria ouvir. E muitos voltavam dizendo que tinham sido recebidos.
O comandante do Exército não era juiz, não era delegado e nem ocupava função política. Mas havia autoridade naquele espaço. E em diversas situações essa autoridade acabou ficando ao lado do mais fraco.
Talvez por isso exista em Marabá uma relação tão difícil de resumir entre a cidade e o Exército.
Não é uma história de celebração absoluta. Também não é uma história de rejeição absoluta. É uma convivência feita de gratidão e desconforto.
Porque enquanto alguns lembram da proteção, outros continuam carregando marcas da repressão. Ainda existem pessoas por aqui que passaram pela Guerrilha sem jamais ter entrado nela. Gente que ofereceu um prato de comida. Que indicou um caminho. Que acolheu alguém por uma noite. E que depois viveu consequências que atravessaram décadas.
Alguns seguem na cidade como sobreviventes de uma guerra que nunca declararam.
Como imprensa, talvez nosso papel seja justamente aceitar essa complexidade.
Dar voz aos generais quando falam da mão amiga, dos projetos sociais e da presença institucional que construíram ao longo desses cinquenta anos. Mas também continuar ouvindo quem ainda guarda cicatrizes daquele período e entende que desenvolvimento não apaga memória.
Porque cidades amadurecem quando conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo: reconhecer o que foi construído sem apagar o que foi vivido.
Marabá cresceu ao lado do quartel.
E, como acontece com toda convivência longa, aprendeu que algumas presenças protegem, algumas presenças assustam e algumas conseguem, estranhamente, fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Se o general se cala sobre esse assunto, eu escrevo.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica semanalmente
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
