A ponte parecia respirar naquele fim de tarde. Debaixo dela, o Tocantins seguia espesso e silencioso, levando galhos, folhas e pequenos redemoinhos que desapareciam antes de alcançar a curva do rio. Na margem, o movimento era raro. Um pescador recolhia a rede resignado, e já não esperava grande coisa, enquanto um casal de garças pousava sobre um tronco escurecido pela cheia do inverno anterior. O sol começava a perder força e tingia de cobre as águas largas, produzindo um daqueles crepúsculos que fazem Marabá parecer uma cidade inventada pela memória.
Ela chegou alguns minutos depois da hora marcada. Vestia roupas discretas, mas ainda carregava a elegância de quem aprendera a esconder as inquietações atrás de gestos calculados. Hesitou antes de descer do carro por aplicativo, olhou ao redor como quem verificava se havia olhos conhecidos por perto e só então caminhou para baixo da ponte, onde ele permanecia sentado desde muito antes da combinação.
Os anos haviam alterado os dois de maneiras diferentes. Nela, o tempo refinara os traços e endurecera o olhar. Nele, aprofundara as marcas da testa, embranquecera parte dos cabelos e deixara uma serenidade que parecia artificial, como se tivesse sido ensaiada inúmeras vezes diante do espelho. Ainda assim, havia qualquer coisa naquela expressão que lembrava o rapaz apaixonado que percorria as ruas da Velha Marabá sonhando com uma vida que jamais conseguiu construir.
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Ela sorriu por educação. Disse que não poderia permanecer muito tempo, porque alguém a esperava para o jantar. Comentou sobre viagens, negócios e apartamentos comprados em cidades distantes, enumerando conquistas sem perceber que cada palavra parecia perder peso antes mesmo de alcançar o ouvido dele. O homem apenas concordava com movimentos leves da cabeça, enquanto observava o reflexo do céu deslizando sobre o rio.
A conversa começou cautelosa, passou pelas lembranças da juventude e terminou inevitavelmente diante das escolhas que os separaram. Ela falou da dificuldade de viver com pouco, do medo constante das contas vencidas, das promessas que nunca saíram do papel. Confessou que escolhera segurança em vez de paixão e que, olhando para trás, acreditava ter feito o que qualquer pessoa sensata faria.
Ele não discordou.
Apenas comentou que algumas decisões permanecem vivas muito depois de serem tomadas, porque a consciência possui um estranho talento para conservar aquilo que o tempo tenta apagar. Havia uma tranquilidade desconfortável naquela voz. Não era acusação, tampouco arrependimento. Parecia apenas a constatação de alguém que aprendera a conversar com as próprias ausências.
Quando ela perguntou por que insistira tanto naquele reencontro depois de tantos anos, ele apontou para uma antiga casa de madeira quase escondida pelo mato, a 200 metros da ponte. O imóvel permanecia abandonado desde que a família proprietária se mudara para outro bairro. As janelas estavam quebradas, o assoalho cedera em vários pontos e cipós envolviam as paredes como braços pacientes.
Disse que queria mostrar aquele lugar pela última vez antes que desaparecesse de vez, antes de começar a construir a nova ponte. Contou que ali vivera uma tia distante, mulher silenciosa que acreditava que todas as casas guardavam a respiração daqueles que um dia foram felizes dentro delas. Enquanto falava, conduziu a antiga companheira até a varanda inclinada, onde ainda resistiam duas cadeiras de embalo consumidas pelo tempo.
Ela entrou com relutância. O piso rangia sob cada passo. O cheiro de madeira úmida misturava-se ao perfume doce das mangueiras próximas. O vento atravessava as frestas das paredes produzindo um som semelhante a um sussurro contínuo.
A mulher riu do exagero daquela visita. Disse que ele continuava preso às mesmas fantasias de décadas atrás, sempre transformando lugares comuns em cenários de romance. Acrescentou que precisava ir embora antes que escurecesse completamente.
Ele pediu apenas mais alguns minutos.
Sugeriu que ela olhasse pela janela dos fundos. O horizonte parecia dissolver-se em camadas de dourado, lilás e vermelho, enquanto uma rabeta voltava lentamente para casa.
Ela aproximou-se da janela.
Nesse instante, ouviu um estalo atrás de si.
Virou-se imediatamente.
O homem não estava mais na sala.
Chamou seu nome uma vez. Depois outra.
Nenhuma resposta.
Caminhou até a porta da frente, mas ela não se movia. Tentou empurrá-la com força crescente. A madeira permanecia imóvel. Correu para a porta lateral. Encontrou o mesmo resultado. As janelas, que pareciam apenas empenadas, estavam presas por grossas correntes escondidas do lado de fora.
O coração acelerou.
Passou a gritar, primeiro irritada, depois assustada. As paredes devolviam sua própria voz deformada pelo vazio da casa. Tentou quebrar uma das janelas, mas a madeira antiga resistia surpreendentemente bem. O celular, sem qualquer sinal naquela área, transformou-se em objeto inútil.
Então ouviu passos.
Correu até a janela principal imaginando que ele finalmente voltara.
Mas quem caminhava pelo barranco não era o homem.
Era um grupo de operários da Prefeitura.
Traziam máquinas, capacetes e fitas de isolamento.
Um deles estendeu um documento sobre o capô de uma caminhonete e comentou, sem olhar para a casa, que a demolição começaria assim que terminassem a vistoria, porque a velha construção oferecia risco de desabamento havia anos.
Ela golpeou os vidros até ferir as mãos.
Ninguém a ouviu.
As máquinas ligaram seus motores.
No barranco, muito além do alcance de seus gritos, um homem observava tudo sentado no banco de uma pequena voadeira. O motor permaneceu desligado. Apenas esperou que o barulho das escavadeiras engolisse completamente qualquer outro som. Depois empurrou a embarcação para o centro do Tocantins.
Enquanto o sol desaparecia, compreendeu que algumas pessoas não procuram vingança para aliviar a dor. Procuram apenas um silêncio grande o suficiente para que, enfim, ninguém mais possa interrompê-lo.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
