Correio de Carajás

República Federativa do Fiu-Fiu até em Marabá?

✏️ Atualizado em 21/05/2026 07h52

Tem gente que entra em grupo de WhatsApp para discutir política, vender bolo no pote ou compartilhar corrente de oração. Mas o brasileiro, esse organismo imprevisível criado à base de café forte, boleto e calor, resolveu inovar: agora há grupos inteiros compostos exclusivamente por assobios.

Não é metáfora.

É literalmente um monte de gente mandando “fiu-fiu-fiiiiu-fiu” em áudio de cinco segundos e sendo compreendida pelos demais participantes como se aquilo fosse uma reunião diplomática da ONU.

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Descobri essa nova faceta da humanidade por causa de um rapaz aqui de Marabá. Cabra sério, trabalhador, desses que aparentam normalidade até você olhar mais fundo. Um dia me mostrou, orgulhoso, um grupo do Instagram onde participava. Na descrição estava escrito, sem nenhuma vergonha:

“PROIBIDO DIGITAR. SOMENTE ASSOVIOS.”

Achei que era piada. Não era.

Passei alguns minutos observando a dinâmica daquela comunidade. Em menos de meia hora ouvi assobios agudos, graves, melancólicos, românticos, ameaçadores e um que parecia uma chaleira industrial prestes a explodir. Estimei que, ao longo do dia, mais de 500 áudios fossem enviados. Nenhuma palavra escrita. Apenas seres humanos soprando vento pela boca como pássaros digitais tentando sobreviver ao fim da civilização.

Segundo notícias espalhadas pela internet, esses grupos já existem em várias regiões do Brasil. Há comunidades no WhatsApp, Telegram e Instagram onde pessoas se relacionam exclusivamente por assobios. Dizem que se entendem perfeitamente. Criam amizades, paqueram, brigam e até organizam competições.

Porque claro que o brasileiro não ia parar no simples “fiu-fiu”. Já existe campeonato informal de assobio. Tem jurado. Tem votação. Tem rivalidade. Tem quase VAR.

Minha colega de Redação, Râmella Vidigal, é uma dessas pessoas tragadas pelo fenômeno. Dentro do grupo “Assobiadores PBF”, ela adotou o alter ego “Sabiá Paraense”, nome que honestamente poderia tranquilamente virar atração do Círio Musical.

Râmella me contou que participa há cerca de dois meses e está se divertindo bastante. Disse acreditar que assobia bonito. E eu acredito também, porque há pessoas que nascem com voz de rádio e outras com assobio de sabiá mesmo.

Ela revelou ainda uma informação importante para a antropologia contemporânea:

“Sempre recebo, homens fazendo ‘fiu fiu’, mas não dou moral, não sou cadela.”

Uma frase histórica.

A humanidade passou séculos produzindo filosofia, literatura, tratados científicos e constituições democráticas para finalmente chegar ao momento em que alguém precisou esclarecer, em pleno 2026, que cantada em assobio não funciona.

Mas confesso: não posso rir tanto assim da modinha porque também tenho meu passado obscuro no universo dos assobios.

Há mais de 25 anos eu me comunico com meus filhos (e agora netas) por meio de códigos assobiados. Criamos sinais específicos para situações de emergência em shopping centers, aeroportos e lugares lotados. Um assobio curto significa “onde você está?”. Dois mais longos querem dizer “estou aqui”. Existe inclusive uma variação mais aflita, usada em momentos de desespero logístico familiar.

E funciona.

Não apenas entendemos a melodia, mas também o tom emocional do assobio. Um pai aprende cedo que existe diferença entre o assobio tranquilo e o assobio de “teu filho sumiu perto da praça de alimentação”.

Também gosto de assobiar no banheiro. Acho que o banheiro potencializa talentos ocultos. Há pessoas que cantam igual Pavarotti durante o banho. Eu me limito ao repertório assobiado. Mas daí a entrar num grupo para passar duas horas conversando exclusivamente em “fiu-fiu-fiu-fiu” já me parece um nível de comprometimento social que deixo para os mais motivados da atualidade.

O curioso é perceber como o brasileiro tem uma capacidade infinita de reinventar a comunicação. Primeiro vieram os emojis. Depois os áudios de sete minutos. Agora abandonamos parcialmente as palavras para retornar ao chamado ancestral dos pássaros.

Tenho medo sincero do próximo passo.

Daqui a pouco surgirá aplicativo de namoro por miado. Reunião de condomínio em latido. Audiência pública resolvida no gogó de peru.

E se a moda pega de verdade? Imagine um futuro em que Machado de Assis seja traduzido para assobio. O Enem aplicado em piados agudos. O Jornal Nacional aberto por César Tralli soprando “fiiiiu-fiu-fiu”.

Talvez seja apenas mais uma dessas trends passageiras que duram menos que dieta de réveillon. Talvez daqui a seis meses ninguém mais esteja assobiando para desconhecidos em grupos virtuais.

Ou talvez estejamos testemunhando o nascimento de uma nova língua brasileira: o Português Assobiado Contemporâneo.

Se isso acontecer, só espero uma coisa:

que ninguém invente grupo de discussão política por assobio.

Porque briga de texto já é ruim. Imagine de apito.

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.