“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne. Minha alma, meu pecado. Lo.li.ta: a ponta da língua toca em três pontos consecutivos do palato para encostar, aos três, nos dentes. Lo.Li.Ta.” Este trecho poderia ser uma declaração de amor, poderia ser um homem apaixonado declarando seu amor à mulher amada, mas não! É um homem de quase 40 anos, Humbert Humbert, um professor de literatura, falando sobre uma menina de 12 anos, Lolita (Dolores Haze), sua enteada.
É com o referido fragmento que apresento o romance Lolita (1955), do escritor russo-americano Vladimir Nabokov. A obra é narrada em primeira pessoa, na qual Humbert Humbert conta de sua obsessão por uma menina de 12 anos, uma criança, abusada de forma sexual e psicológica por ele. O protagonista, de início, já admite que sente atração por garotas entre 9 e 12 anos de idade, ou seja, admite ser pedófilo.
A obra Lolita é considerada uma das mais importantes e influentes do século XX, tornou-se um clássico da Literatura. O livro já foi adaptado para o cinema; sua personagem-título já serviu de inspiração para a criação de inúmeras personagens para filmes e novelas. É a partir da obra de Nabokov que pauto hoje a adultização. Ainda em 1955, a literatura abordou a adultização de crianças e adolescentes na perspectiva de comportamento sexualizado.
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Inicialmente, chama atenção do leitor o fato de a história ser contada pelo próprio abusador; é o pedófilo que vai narrar como foi “seduzido” por uma criança de 12 anos: “Ela era Lo, apenas Lo pela manhã, um metro e quarenta e cinco de altura e um pé de meia. Era Lola de calças compridas. Era Dolly na escola. Dolores na linha pontilhada, mas nos meus braços era sempre Lolita.” É a descrição de uma criança: altura (1,45 m), vestimenta (meia, calça comprida), lugar frequentado (escola). Contrastando com a citada descrição, em outro momento, Lolita é apresentada com forte apelo sensual: “(…) seus lábios tão vermelhos quanto uma bala vermelha bem lambida, o inferior consideravelmente carnudo”.
Durante a narrativa, Humbert Humbert atribui à Lolita uma “natureza dúplice”, a quem ele chama de “ninfeta”: “Gostaria de descrever o rosto dela, seus gestos – e não consigo, porque meu desejo por ela me cega quando ela está por perto. Desgraçadamente, não estou acostumado à companhia de ninfetas.” No dicionário é dado o seguinte significado à palavra NINFETA: menina de sensualidade precocemente desenvolvida, e que desperta forte atração sexual. O termo não foi inventado por Nabokov, mas, a partir da obra Lolita, tornou-se estereótipo de adolescente sensual, sedutora e sexualmente desenvolvida. O termo ninfeta, na atualidade, foi substituído pela expressão “novinha”.
Humbert Humbert é tão inescrupuloso que se casou com a mãe de Lolita, para ter acesso à filha. Por ser um hábil manipulador, ele tenta convencer o leitor de que Lolita não é uma criança frágil de um romance feminino. O que Humbert Humbert fez com Lolita é, na legislação penal brasileira vigente, estupro de vulnerável, conduta prevista no art. 217-A do Código Penal, um crime classificado como hediondo; contudo, a prisão do pedófilo não se deu em razão deste crime, mas por ter praticado um homicídio. Destaco ainda que Lolita, além de ter sido raptada e seduzida por um homem de quase 40 anos, de ter sofrido violência sexual e psicológica, também foi agredida fisicamente: “(…) sem nada dizer, deferi-lhe um violento tabefe com as costas da mão que a atingiu bem no meio de seu pequeno malar quente e firme.”
A história de Lolita é ficção, escrita de forma magistral por Nabokov, mas causa desconforto e incômodo. Ela é uma personagem fictícia, mas existem milhares de meninas que são abusadas, exploradas, adultizadas em silêncio. Nesta semana em que celebramos o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes – 18 de maio -, a dica de leitura é Lolita (1955), de Vladimir Nabokov, um romance arrebatador, mas não é uma história de amor. É a narrativa de um pedófilo que tenta convencer o leitor de que foi seduzido por uma menina de apenas 12 anos. Até a próxima, queridos e queridas leitoras e boa leitura!
* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
