Correio de Carajás

A garota sem TikTok acabou influenciando a própria casa

Na sala do 9º ano da Escola Geraldo Veloso, há um silêncio raro escondido entre os ventiladores cansados, os estojos rabiscados e os celulares que vibram escondidos dentro das mochilas. Esse silêncio tem nome: Amanda.

Quatorze anos.

Numa idade em que quase todo adolescente parece disputar quem aparece mais, Amanda pratica o estranho hábito de desaparecer. Não tem Instagram. Não tem TikTok. Não tem WhatsApp. Não sabe fazer dancinha, não acompanha trends, não entende memes que nascem de manhã e morrem antes do almoço.

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E, sinceramente, parece não sentir falta nenhuma disso.

Outro dia perguntei, quase por curiosidade sociológica:

– Amanda, como teus amigos falam contigo?

Ela respondeu com a naturalidade de quem informa a previsão do tempo:

– Eles falam comigo pessoalmente, professor.

A turma riu. Ela também.

Mas era verdade.

O celular dela parece retirado de um museu de tecnologia esquecido em alguma gaveta de 2012. Um Samsung antigo, terceira geração, tela pequena, memória curta e dignidade intacta. Serve para ligar. E mandar torpedo.

Torpedo.

Essa palavra já soa arqueológica para os adolescentes de hoje.

Os pais tentaram modernizar a menina. Ofereceram um iPhone. Amanda recusou igual as pessoas que dispensam sobremesa depois do almoço.

– Pra quê?

A pergunta deixou os pais mais confusos do que ofendidos.

Porque existe um fenômeno curioso quando alguém rejeita aquilo que o mundo inteiro deseja: imediatamente passa a parecer suspeito.

Amanda não queria câmera melhor.

Não queria filtro.

Não queria vídeo curto.

Não queria curtidas.

Queria livros.

Então aconteceu uma negociação silenciosa dentro daquela casa: o dinheiro que não ia para celular começou a ir para literatura.

Pelo notebook velho da família, Amanda entrava na Amazon tipo quem atravessa portais secretos.

Pedia Os Miseráveis.

Depois O Menino que Descobriu o Vento.

Depois As Vantagens de Ser Invisível — embora ela insistisse em chamar de “A Perigosa Arte de Ser Invisível”, talvez porque todo leitor saiba que existir profundamente é mesmo perigoso.

Vieram O Mundo de Sofia, Capitães da Areia, A Revolução dos Bichos e outros títulos que chegavam uma semana depois, embalados em caixas que ela abria com a ansiedade do meu amigo Claudinho, recebendo pedaços do universo pelo correio.

Enquanto muitos adolescentes deslizam o dedo em telas infinitas, Amanda vira páginas.

E páginas fazem um barulho diferente na alma.

Dias atrás, dei a ela seu primeiro García Márquez.

Segurou o livro parecido aquelas crianças que seguram um animal raro.

Os olhos cresceram.

O sorriso quase não cabia no rosto.

– Professor… eu vou começar hoje.

Mas adverti:

– Vá devagar. García Márquez não foi escrito para ser lido correndo. Foi escrito para morar um pouco dentro da gente.

Ela concordou séria, porque sabia que eu tinha acabado de lhe entregar não um romance, mas uma responsabilidade.

Amanda é quase uma exceção naquela sala.

Só quase.

Porque existem outros dois alunos contaminados pela mesma febre bonita da leitura. E isso talvez seja o mais extraordinário de tudo: leitores formam leitores sem perceber.

Amanda começou indicando livros tímida, emprestando páginas, comentando histórias no intervalo, falando de personagens igual aquelas pessoas que comentam sobre parentes distantes.

E, de repente, outros adolescentes passaram a frequentar a sala de leitura da escola.

É assim que revoluções acontecem de verdade.

Não começam gritando.

Começam cochichando.

Nas últimas semanas, porém, percebi uma mudança ainda mais inesperada.

Amanda chegou contando, sem perceber a grandeza da notícia:

– Meu pai começou a ler aquele livro que eu deixei na mesa.

Dias depois:

– Minha mãe pediu minha senha da Amazon.

Achei bonito.

Mas então ela completou:

– Agora os dois ficam discutindo qual livro vão comprar no próximo mês.

Sorri.

Porque entendi, naquele instante, que a menina sem Instagram talvez estivesse fazendo algo muito maior do que apenas lendo.

Amanda estava salvando sua casa da distração.

Enquanto o mundo inteiro desaprende a prestar atenção, uma adolescente de quatorze anos, com um Samsung velho e uma estante crescendo devagar, conseguiu aquilo que nem algoritmo consegue mais:

Fez duas pessoas voltarem a sonhar juntas em silêncio, cada uma segurando um livro nas mãos.

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.