Correio de Carajás

A maternidade na literatura contemporânea

Mari Hipólito, mulher sorrindo com cabelo cacheado, segurando um livro, para a Coluna do Clube da Palavra.

A proposta da coluna de hoje — considerando que no próximo domingo é comemorado o Dia das Mães, data oficializada no Brasil pelo presidente Getúlio Vargas em 1932 — é tratar da representação da maternidade e das mães em quatro obras da literatura contemporânea de escritoras de diferentes nacionalidades: Carla Madeira (Brasil), Brenda Navarro (México), Elena Ferrante (Itália) e Szilvia Molnar (Estados Unidos). A maternidade é um daqueles temas atemporais e universais, fonte inesgotável de inspiração, assunto que já foi abordado em centenas de obras ficcionais.

Em Máquina de Leite (2024), livro da americana Szilvia Molnar, a mãe, que vive um pós-parto narrado com crueza, faz o seguinte questionamento: “Ninguém ensina a você que a maternidade é para sempre, então como é que não vai ser um choque quando você descobre que na verdade é, sim, é até para sempre?”. A protagonista vive a maternidade real; em diversos momentos da obra recorda que era tradutora e se transformou em uma “máquina de leite”, e que o parto é uma metamorfose capaz de deixar a mulher irreconhecível. O enredo explora as mudanças físicas no corpo, a nova rotina, a compreensão de si e os sentimentos contraditórios que emergem (carinho, repulsa, rejeição, cuidado), além da monotonia e da exaustão física.

No romance Véspera (2021), de Carla Madeira, encontramos uma narrativa visceral com personagens de alta complexidade. É neste cenário que surge Vedina, mãe de Augusto, um menino de cinco anos. Vivendo uma recente separação e sob extrema pressão, ela abandona o próprio filho em uma via pública: “Vedina abre a porta do carro e sai. O passo é cego e firme, todas as articulações tomadas de determinação. Ela puxa o filho para a calçada e em seguida joga no chão, aos pezinhos dele, a mochila colorida. Sem uma palavra, entra novamente no carro e arranca”. Imediatamente arrependida, ela tenta voltar, mas o filho sumiu. O desespero e a culpa passam, então, a consumi-la.

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Já em Casas Vazias (2020), da mexicana Brenda Navarro, a obra apresenta a maternidade sob a perspectiva de duas mulheres: uma que deseja muito ser mãe e não consegue, e outra que não queria a maternidade e tem seu filho roubado: “Não parir, não gerar, não dar motivo às células que criam a existência. Não ser vida, não ser fonte, não deixar que o mito da maternidade se estendesse em mim.” Por outro lado, o sonho alimentado torna-se um pesadelo quando a mulher que rouba a criança descobre que o menino é autista: “Semanas depois nos disseram que ele tinha autismo e que talvez por isso não gostava de quase nada. Foi nesse momento que me arrependi de querer ser mãe”. São duas histórias marcadas pela dor da vivência e da ausência, ambas da maternidade.

Elena Ferrante em A Filha Perdida (2006), por meio da personagem Leda — uma professora universitária de 48 anos — questiona o amor materno dito “sem limites”. A autora explora a relação da protagonista com as duas filhas, baseada na culpa e no ressentimento. Leda é uma mulher que não se doa por completo. Em alguns momentos, há gestos e atitudes violentas dessa mãe sobrecarregada pelo trabalho doméstico e pelos cuidados, o que a leva a abandonar as filhas sob os cuidados do pai: “Vou embora, vocês não vão mais me ver, exatamente como minha mãe fazia quando estava desesperada. Ela nunca nos deixou, mesmo gritando para nós que faria; já eu deixei minhas filhas quase sem aviso”. O que acontece em A Filha Perdida é humano. A maternidade tem suas dificuldades.  É necessário pensar nisso. O amor materno não é infinito ou sem limites.  O leitor ao fazer um exercício de empatia percebe que o que aquela mãe fez é humano.

As obras aqui citadas trazem relatos sinceros sobre as dificuldades enfrentadas no exercício da maternidade. Contudo, caros leitores, não se trata de uma tentativa de desencorajá-la, mas de tratar o assunto com senso de realidade, afastando-se da romantização. A literatura contemporânea, além de pautar o tema, tem colocado a mulher-mãe no centro, garantindo-lhe o protagonismo. É a literatura ocupando-se da compreensão de algo que é profundamente humano e que, por isso, nos humaniza.

Deixo aqui o convite para a leitura das obras Máquina de Leite (2024), de Szilvia Molnar; Véspera (2021), de Carla Madeira, Casas Vazias (2020), de Brenda Navarro e A Filha Perdida (2006), de Elena Ferrante. Até a próxima, queridos e queridas leitoras!

 

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.