Correio de Carajás

Anne Brontë: uma voz feminista no século XIX

Mari Hipólito, mulher sorrindo com cabelo cacheado, segurando um livro, para a Coluna do Clube da Palavra.

Neste mês da mulher, para continuar com abordagem de romances de autoria feminina e temas relevantes para todas nós, mulheres, esta coluna vai viajar até a Inglaterra do século XIX, Era Vitoriana, para encontrar  Anne Brontë (1820-1849), a mais nova das irmãs Brontë, que se destacou como uma voz importante na literatura feminina inglesa, não apenas por ser mulher, mas sobretudo por abordar temáticas caras à mulher, como independência financeira, trabalho feminino, divórcio e violência de gênero.

Para refletir sobre violência de gênero – hoje violência psicológica, patrimonial e vicária – trago o romance “A Inquilina de Widfell Hall” (1848), de Anne Brontë. O livro foi considerado inadequado em seu tempo, pois abordava um tema sensível pouco explorado pela produção literária daquele século, sobretudo porque as obras tinham caráter moralizador; as narrativas eram pensadas para apresentar modelos de comportamento e valores morais.

A obra é ambientada no século XIX, época em que a mulher era considerada propriedade do marido e não tinha direito a ter posses; em caso de divórcio, ela perderia a guarda dos filhos e não teria direito a partilha a bens. Foi por essas condições que a personagem Helen, para permanecer com o filho, teve que fugir do marido abusador sem qualquer segurança material; caso contrário, teria que deixar o pequeno Arthur com o nefasto genitor.

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O romance aborda a violência vicária: Arthur, o filho de 5 anos da protagonista, é usado como instrumento para causar sofrimento psicológico a Helen. O pai é alcoólatra e, ciente de que seu comportamento causa sofrimento em Helen, abusando de sua autoridade paterna, passa a embriagar também o filho menor, tornando a criança um pequeno viciado.  Além disso, inicia um processo de alienação parental, tentando construir uma representação negativa da mãe para afastar o menor de sua genitora: “(…) lancei mão de todas as minhas forças para erradicar as ervas daninhas que haviam sido cultivadas em sua mente infantil.”

Embora com contornos feministas, é um romance cristão que apresenta uma mulher que acredita que seu amor pode redimir o marido, um homem infiel, alcoólatra e jogador contumaz. Contudo, o casamento — visto sob o viés religioso como vínculo indissolúvel — contraria as expectativas cristãs da época e se mostra malsucedido e infeliz: “Eu era uma recém-casada, com o coração transbordando de uma felicidade verdadeira, e cheia de esperanças ardentes para o futuro. Agora sou uma esposa:  minha felicidade está mais moderada, mas não destruída.”  A mulher, que casou amando o marido e acreditando no seu dever de salvá-lo dos vícios, desiste diante do homem abusador e desrespeitoso, que a submete à violência psicológica e moral diuturnamente. Resta para ela uma única fonte de alegria: a maternidade.

Nas circunstâncias aduzidas, o que poderia fazer a protagonista? Evadir-se! Ela foge, adota outra identidade, deixa de ser Helen Huntington e passa a ser a viúva Helen Graham, na tentativa de recomeçar distante do abusador: “ela se chama Sra. Graham e está de luto… e disseram que é bem jovem, não mais que vinte e cinco ou vinte e seis anos, mas tão reservada”. A determinada e corajosa mulher passa a residir na propriedade denominada Widfell Hall, descrita como uma antiquada mansão da era elisabetana, um lugar bastante frio, sombrio e melancólico, cuja localização era solitária e desprotegida, vivendo do próprio trabalho como pintora.

Helen, diante dos inúmeros sinais de que o casamento estava fracassando, tenta perdoar e recomeçar; ela se sente moralmente obrigada a amar e perdoar o marido, talvez por sua formação religiosa e construção moral. Porém, as inúmeras humilhações impostas pelo marido a fazem desistir e concluir que não poderá transformar a conduta dele.  Desta forma, a obra de Anne se firma como um romance que quebra as expectativas do leitor vitoriano, visto que o esperado seria a redenção daquele marido infiel e alcoólatra pelo amor da esposa.

Anne Brontë foi ousada ao revelar, para uma sociedade patriarcal, o fracasso de um casamento devido à conduta masculina, causando comoção negativa e rejeição de sua obra. Neste mês da mulher, indico a leitura de mais um romance “A Inquilina de Widfell Hall” (1848). Boa leitura, queridos leitores!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.