Correio de Carajás

Volta papai; o clamor de uma criança de 12 anos

Conheço quatro gerações dos Almeida. O patriarca, Genésio, já descansou há mais de duas décadas. Teve uma legião de filhos, os quais conheci em visitas frequentes a São Domingos do Araguaia.

Vivo fosse, ficaria espantado com a quantidade de netos que seus 11 filhos geraram e conheceria até a quarta geração.

Dias atrás, um bisneto dele de 12 anos de idade, que tem outros dois irmãos maiores de idade, me contou que a mãe resolveu separar-se do pai e ir morar com outra mulher. O pai, abalado, vivia há dois anos sem conseguir conformar-se com a realidade e, depois de tantos atestados para afastar-se do trabalho, num hospital da cidade, acabou sendo internado em uma clínica fora da cidade.

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Está por lá há mais de seis meses e o menino vive com a mãe (ou as mães?). E ele me disse, bem baixinho, numa reunião em praça pública: quero que papai volte logo, quero ficar com ele.

O clamor do filho me sensibilizou.

Fiquei olhando para aquele menino e tentando imaginar o tamanho da saudade que cabe dentro de um corpo de apenas 12 anos. Há dores que os adultos mal conseguem administrar, mas que as crianças, sem entender direito o que está acontecendo, são obrigadas a carregar como se tivessem nascido sabendo suportar as pancadas da vida. Não sabem explicar a ausência, não compreendem as razões dos rompimentos, não conseguem decifrar os silêncios, mas sentem tudo, às vezes com uma intensidade que os próprios adultos parecem ter perdido.

A separação dos pais costuma ser anunciada com palavras difíceis, justificativas demoradas e explicações que quase sempre fazem sentido apenas para quem tomou a decisão. Para os filhos, porém, a matemática é outra. A casa já não é a mesma, o cotidiano perde seus horários, as conversas mudam de assunto quando eles chegam perto e, de repente, aquele que antes estava ali para perguntar como foi o dia, reclamar da bagunça ou simplesmente ocupar um lugar à mesa passa a existir numa fotografia, numa lembrança ou numa ligação telefônica que nem sempre acontece – mesmo que seja por vídeo.

Não sei o que se passou entre aquele homem e a mulher com quem construiu uma família. Não conheço os motivos que levaram à separação, nem me cabe julgar as escolhas de pessoas adultas que têm o direito de procurar caminhos diferentes para a própria vida. Sei apenas que, no meio de todas essas decisões, há um menino que não está interessado em discutir quem tem razão, quem errou ou quem deveria ter feito diferente. Ele quer o pai de volta. É uma frase curta, quase sussurrada, mas que carrega uma imensidão de sentimentos.

Talvez o pai também esteja contando os dias para voltar. Talvez, entre as paredes da clínica onde tenta se recuperar, a lembrança dos filhos seja uma das poucas coisas capazes de lhe devolver alguma esperança. Não tenho como saber. O que sei é que a dor de um homem adulto pode se tornar ainda mais pesada quando ele acredita ter perdido, junto com o casamento, a possibilidade de continuar sendo aquele pai de antes. E é justamente por isso que a recuperação precisa ser tratada com cuidado, paciência e acompanhamento, sem cobranças que transformem o sofrimento em mais um motivo para se sentir derrotado.

Fiquei pensando também nos dois irmãos mais velhos daquele menino. Cada um, certamente, encontra uma maneira própria de lidar com a situação, porque a mesma família pode produzir dores diferentes em pessoas que compartilham o mesmo sobrenome. Os mais velhos talvez consigam compreender melhor algumas circunstâncias, ainda que compreender não seja o mesmo que aceitar. O caçula, entretanto, parece ter encontrado uma maneira mais simples e direta de dizer aquilo que sente. Não fez discurso, não apresentou argumentos, não procurou culpados. Apenas pediu que o pai voltasse logo.

Volta, papai.

Duas palavras que poderiam caber num bilhete dobrado dentro de uma mochila escolar, numa mensagem enviada pelo celular ou num desenho feito às pressas antes de dormir. Duas palavras que, pronunciadas por uma criança, se transformam numa espécie de oração, mesmo quando não são dirigidas a Deus. Porque há pedidos que nascem tão fundo no coração que dispensam qualquer elaboração. Basta pronunciá-los para que o mundo inteiro pareça pequeno demais diante deles.

Não sei se aquele menino terá o pai de volta em breve, nem se a família conseguirá encontrar uma maneira de reorganizar a vida sem aumentar o sofrimento de ninguém. A recuperação de uma pessoa que atravessa uma crise emocional nem sempre obedece à pressa de quem espera por ela.

Mas espero que o menino tenha ao seu redor adultos capazes de acolher sua saudade, explicar o que for possível e não lhe atribuir responsabilidades que não são suas. Criança nenhuma deveria precisar escolher lados numa separação, muito menos sentir que precisa salvar o pai ou consertar o casamento dos pais.

Conheci o patriarca Genésio, que já não está entre nós, e acompanhei de longe a multiplicação de sua descendência. Quatro gerações de uma família carregam histórias, casamentos, nascimentos, despedidas e recomeços.

A vida vai espalhando os sobrenomes pelo mundo, acrescentando novos rostos às fotografias e fazendo a árvore familiar crescer para todos os lados. Mas, por mais numerosos que sejam os ramos, cada criança continua precisando de algo muito simples: segurança, afeto e a certeza de que não será abandonada à própria sorte quando os adultos enfrentarem suas tempestades.

Volta, papai.

Tomara que esse clamor não se perca no barulho da vida adulta. Que chegue ao coração do pai, que encontre ouvidos atentos na família e que seja compreendido por todos aqueles que, de alguma maneira, podem ajudar a transformar a ausência em reencontro.

Quando uma criança pede o pai de volta, não está necessariamente pedindo que o casamento seja refeito, que os adultos voltem a viver juntos ou que o passado seja restaurado. Está pedindo apenas que o amor encontre um jeito de permanecer presente, mesmo quando a família já não tem a mesma forma.

E isso, convenhamos, é o mínimo que uma criança merece.

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.