Bruna usou a filha para pedir esmola. Quando motoqueiro foi avisado que a criança não tinha deficiência, ele se espantou/ Fotos: Ulisses Pompeu
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A pista marginal da Rodovia Transamazônica, na Folha 33, é estreita e recebe um grande fluxo de veículos durante o dia. É por ela que, pelo menos dez vezes por dia, Bruna circula com um dos filhos menores de dez anos sentado numa cadeira de rodas. Ela faz de conta que eles têm algum problema físico e que não conseguem andar. Aproveita a cena para pedir dinheiro para quem passa ou está estacionado em frente a alguma das empresas do perímetro entre o CRISMU (Centro de Referência Integrada da Saúde da Mulher) e o Supermercado Mateus.

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A Reportagem do CORREIO DE CARAJÁS monitorou Bruna por cerca de duas semanas. Fomos à rua da casa dela, conversamos com vizinhos e até com profissionais de saúde.

Bruna vai-e-vem várias vezes pela via da Folha 33 com a filha ou filho numa cadeira de rodas

E não importa a hora do dia. A mulher já foi vista com os filhos desde 8h30, 11 horas, 13 horas e até mesmo 18 horas, quando o expediente encerra na grande maioria das empresas. Na abordagem, ela alega que o filho na cadeira de rodas tem problema motor, não consegue andar e ela precisa pagar o tratamento de saúde dele.

Mas, curiosamente, Bruna também coloca os filhos para pedir. De repente, ela para, a criança desce da cadeira de rodas, faz a abordagem e o argumento é de que a mãe sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral), também conhecido como “derrame” e que precisa de dinheiro para custear seu tratamento.

Quando questionada por que expõe as crianças ao risco de acidente numa rodovia e ao forte calor, a mulher alega que após o AVC, fazer caminhada serve como terapia para ela.

Um profissional de saúde ouvido pela Reportagem do CORREIO revelou que conhece Bruna há algum tempo e confirmou que ela sofreu, de fato, um AVC. Disse que a família é grande (cerca de dez pessoas), pobre e todos moravam em uma “tapera” na Folha 33, deixando as crianças em condições degradantes. Por conta disso, a PMM passou a pagar aluguel social para a família e daria até mesmo cesta básica mensal para eles.

Bruna mora na Folha 33, Quadra 15, e alguns vizinhos suspeitam que ela e outros familiares sejam usuários de drogas, mas ela rebate o fato de forma veemente, alegando que seu problema de saúde não a permite trabalhar, mas que nem ela e nenhum outro membro de sua família têm envolvimento com drogas ilícitas.

O risco dela ser atropelada junto com uma das crianças é muito grande

A Reportagem conversou Alda Matos, do CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), a qual reconheceu que a mendicância é um dos principais problemas de falta de garantia de direitos de crianças em Marabá, e que há uma equipe de abordagem de rua que percorre vários pontos da cidade para realizar busca ativa e inibir esse tipo de situação. “Nosso trabalho é social, não de repressão. Procuramos ajudar as pessoas”, disse ela.

Ela disse que no caso de Bruna, especificamente, não tinha conhecimento do caso e que deveria ser feita uma intervenção do Conselho Tutelar da Nova Marabá.

A Reportagem também procurou a conselheira tutelar Maria Cirlene Sousa Nascimento, que ao ver a foto de Bruna e sua filha, disse desconhecer o caso. Ela tentou contato com outros colegas, por meio de grupo de Whatsapp, mas aparentemente nenhum deles tinha conhecimento do fato. “A pessoa adulta pode agir sozinha e responde por si. Mas a lei é clara, e ela não pode usar a criança para pedir esmolas para benefício próprio”.

Logo em seguida, Cirlene enviou mensagem informando que “Em nome do II Conselho Tutelar da Nova Marabá, informamos que não consta denúncia em nome da senhora acima citada. A população não registrou, em nossos números ou pelo Disque 100, nada em relação a esse caso. Iremos realizar visita para confirmação dos fatos relatados”.

(Ulisses Pompeu)

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