Correio de Carajás

Um fenômeno literário chamado Carla Madeira

No cenário literário brasileiro se destaca uma mulher, seu nome é Carla Madeira Carneiro, uma mineira de 61 anos, formada em jornalismo e publicidade pela UFMG; ela é autora de três romances de sucesso de crítica e de vendas: Tudo é Rio (2014), A Natureza da Mordida (2018) e Véspera (2021). Conhecida simplesmente por Carla Madeira, ela é a criadora de personagens ambíguos e aborda dilemas humanos com intensa crueza e muita sensibilidade.

Carla é dona de uma prosa poética ímpar! Seus livros têm trechos que nos fazem ler, reler e depois parar e passar a refletir, como este que segue: “As pessoas têm certeza demais sobre as vontades de Deus, acho até que algumas criaram Deus em vez de terem sido criadas por Ele. Deus não é de pensar; é de sentir. É um colo de braços fortes e delicados, ninando a gente num mar furioso, esquenta seu coração nesse colo, respira com Ele. Deus não é um lugar de certeza, é só um pouco de esperança” (Tudo é Rio).

A proposta de hoje é apresentar a obra de Carla Madeira e sugerir sua trilogia involuntária como maratona. Vamos às razões: 1 – Temáticas: seu primeiro romance, Tudo é Rio, promove um encontro entre Literatura e Direito ao tratar da violência de gênero. A obra trata com profundidade ciúme, perdão, o amor obsessivo e a complexidade da violência doméstica e familiar contra a mulher. Como bem afirmou a escritora: Tudo é Rio é sobre perdoar o imperdoável. O romance Véspera explora a maternidade compulsória e questiona a maternidade como vocação e destino.

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2 – Personagens ambíguos: aqui destaco Véspera e a personagem Vedina, uma mulher que viveu a maternidade de forma compulsória, obrigatória. É a maternidade sem romantização; é o amor dito sem limites questionado por meio de uma mãe que, em um ato extremo, abandona o filho de 05 anos no meio da rua e, ao cair em si, já é tarde demais, a criança desapareceu: “Vedina abre a porta do carro e sai. O passo é cego e firme, todas as articulações tomadas de determinação. Ela puxa o filho para a calçada e em seguida joga no chão, aos pezinhos dele, a mochila colorida. Sem uma palavra, entra novamente no carro e arranca”. O desespero e o arrependimento passam a consumi-la.

3 – Inícios arrebatadores: Carla consegue iniciar suas narrativas de modo que impacta o leitor. Este é o início de Tudo é Rio: “Puta. Não tem outro nome para Lucy. De profissão ela era puta mesmo. Trabalhava num puteiro, vivia num puteiro. Mas não era puta só por isso. Se só por isso fosse, podia outros nomes mais respeitosos, como meretriz ou prostituta”. Já em Véspera, o romance começa com o seguinte questionamento: “Como se chega ao extremo?” É o anúncio daquilo que o leitor encontrará ao longo da leitura.

4 – Linguagem poética: em todas as obras, Carla Madeira narra a dor de forma poética. Suas construções são reflexivas e comoventes: “O amor acaba. O amor, às vezes, acaba mesmo sendo amado. O amor às vezes vai embora com as pernas de alguém que você queria que ficasse. Vai embora assim numa manhã de segunda como quem vai trabalhar.” (A Natureza da Mordida). Essa foi uma das formas mais lindas que vi alguém falar sobre abandono e desamor! No mesmo romance, a autora aborda a loucura por meio da amizade de duas mulheres: Biá e Olívia. A amizade começa com a inesperada pergunta de Biá dirigida a Olívia: “O que você não tem mais que te entristece tanto?”. Confesso que este é o livro que eu mais gostei de ler, pois são os momentos que alternam loucura e lucidez que trazem as mais belas reflexões e poesia.

As brevíssimas razões acima expostas trazem apenas uma pequena amostra do que você, caro leitor, vai encontrar ao abrir um livro de autoria de Carla Madeira: os dramas humanos abordados; os personagens com alta carga de complexidade e a excelência narrativa alcançada por meio da linguagem poética. Em breve, leia-se agosto, tem romance novo saindo do forno! Até lá, aproveite e maratone: TUDO É RIO, A NATUREZA DA MORDIDA e VÉSPERA. Até a próxima, caros leitores!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.