Correio de Carajás

Sobre ciclismo e açaí esparramado na ponte

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

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Faço algumas loucuras de vez em quando. E quem não as faz? A mais recente foi ter aceitado o convite de um colega de trabalho para pedalar à noite. Não que esse programa seja inusitado (sempre dou umas pedaladas à noite aqui na cidade). Mas o percurso era.

Inicialmente, eu sairia de minha casa, no Bom Planalto, para encontrá-lo na Folha 20, junto com a galera da Borimbora Bike Shop. Inicialmente, iríamos ao São Félix, e de lá até a Ponte do Geladinho. Saímos às 20 horas e quando chegamos ao São Félix, soubemos que o percurso era outro.

“Vamos a Morada Nova”, disse o chefe da pedalada. Calado eu estava, calado fiquei. E apenas segui a galera. Não que eu tenha achado a distância tão longa assim, mas ficar sabendo só no meio do caminho até onde íamos, confesso que me assustou. Principalmente porque já eram quase 21 horas.

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A pedalada foi tranquila. Pude (tentar) acompanhar os mais brutos, inclusive uma mulher, que anda montada numa bicicleta que parece voar. É de fibra de carbono, mas a grande diferença está na força e resistência que Andreia ganhou participando de longos trajetos, alguns de até 200 km.

No bate e volta em Morada Nova, vi algumas coisas que me chamaram a atenção. Entre elas, um homem com um carro parado na rodovia, portas abertas e dormindo como se nada tivesse acontecido.

Mas o foco da minha reflexão hoje não é, exatamente, o ciclismo ou as amizades que a gente faz com os muitos grupos esparramados pela cidade.

O que mais me chamou a atenção foi na volta. Eu acabei desgarrando da galera no retorno porque me senti um louco do pedal. Arrochei na frente e, quando olhei para trás, não vi mais ninguém. Cruzei a ponte rodoferroviária sobre o Rio Tocantins sem ninguém na minha cola.

Mas antes de chegar ao meio da ponte, próximo aos arcos, vi uma cena que me tocou o coração. Não havia ninguém. A pista estava um deserto só. Mas os caroços de açaí esparramados no asfalto e um saco vermelho de cebola ao lado.

Entendi o cenário. Provavelmente, um tirador de açaí voltava para casa depois de um dia exausto de trabalho na mata. Cruzava a ponte e algo inesperado acontecera e o saco caiu da motocicleta. Os caroços ficaram no meio da pista e parar para catar um por um seria irracional. O fluxo de veículos no perímetro é intenso e o risco de acidente é imenso.

No resto da pedalada, até em casa, fiquei pensando naquele tirador de açaí, que havia perdido não apenas um dia de trabalho, mas também a gasolina que gastara para ir até o local – geralmente distante da cidade.

Os tiradores sofrem. Já acompanhei um dia de trabalho deles. Fiz isso quando instalei uma máquina de bater açaí em casa, porque eu gosto dele massudo (grosso) e sem o corante que 90% dos vendedores em Marabá utilizam para deixar o produto mais vistoso para seus clientes.

Meu primeiro fornecedor foi Osmar Alves. Morava na Folha 28 – depois no Km 7 – e bastava uma ligação e ele vinha deixar um saco aqui na Redação do Jornal no final do dia. Comecei pagando R$ 60,00 e cheguei a tirar do bolso até R$ 280,00 por um saco de 60 litros.

Mas um dia, a exatamente um ano, Osmar morreu em um acidente na BR-230, quando trafegava com sua moto para tirar açaí e vender aos seus fregueses.

Passei a comprar de outros fornecedores. O drama de todos é o mesmo. Lotam carro ou moto com sacos de açaí e vêm da mata com risco de se envolver em acidente. Não que eles queiram isso. Mas veem na safra do produto e a grande procura, uma oportunidade de ganhar dinheiro.

Voltando ao açaí esparramado na ponte, será que o dono também caiu? Será que voltou no dia seguinte para ir atrás de mais e tentar amenizar o prejuízo?

Eles pagam um valor para o dono da mata. Andam quilômetros com seus veículos lotados e vendem para o tio da esquina, que tem uma máquina para bater e revender aos clientes.

A partir de agora, espero que você valorize mais o açaí que chega à sua mesa. E não reclame do preço, porque há muito sofrimento envolvido até você sentir aquela delícia na boca.

 

*  O autor é jornalista do CORREIO há 25 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

 

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