Correio de Carajás

Saudades de uma cidade abraçável; sem nostalgia

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

Nunca pude imaginar que um dia escreveria sobre saudade da cidade em que moro. Mas o fato é que esse dia chegou. Aliás, os últimos anos essa saudade foi se acumulando por fatos que se sucedem e causam temor.

Tenho tido saudades de Marabá, mas alimento o medo do saudosismo. Coisa aparentemente boa, porém de uma traiçoeiridade. Porque periga nostalgia, rumo que não bota ninguém pra frente e volta pra trás. Não é memória, não é lembrança, é lamento.

Não gosto e não defendo a ideia de que tempo bom “era no meu tempo de criança ou de jovem, por isso… por aquilo…” ou por outras coisas que me apeteceram no passado.

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Mas ando me permitindo arriscar no sentir falta. Porque não está fácil. E olhe que vou por aí até meio irresponsável e repetindo que a cidade tem de ser ruminada. Uma conversa que virou palavrório.

Tenho saudade de ocupar a rua, não ter medo da esquina, andar de vidro baixo, pedalar sem receio de perder o celular ou a própria bicicleta. Ir e voltar por qualquer bairro e andar na noite silenciosa sem ser mexido por quem espreita o movimento.

Não ter medo do homem suspeito, do menino preto que vai ser assassinado antes dos 20 e poucos, da moça com maquiagem de crack. Do político que é o mesmo, sempre. Não ter desconfiança do policial que não sei se é justiceiro de “vagabundo”.

E tenho a impressão que estamos mais brutos. Falo por mim. Armado já com um saco de cotocos em um mar de motoristas nada gentis, de motoqueiros suicidas. Do calor sem árvores e água, da falta de mais gente se abraçando.

Anteontem, tomei um susto durante o ensaio de uma quadrilha junina, que se prepara para os festejos de São João. Era uma amiga dizendo que não gostava de ser abraçada, experiência ruim. De ser invadida, sufocada… Mas logo o abraço? Ah, não! Perguntei se era por conta da covid-19, ainda espreitando a gente por aí. Mas a moça garantiu que não. Disse que desde antes, mesmo, não gostava de tanta proximidade com gente.

Aí foi que eu resolvi colocar esse desinteresse pelo abraço afetuoso na lista das preocupações de fatos que estão se espalhando e maculando a imagem da cidade.

Você prefere o quê: abraço, beijo ou aperto de mão? Os três são bem-vindos, mas ainda prefiro o abraço. É mais forte. O aperto de mão – mais costumeiro em cumprimentos profissionais – exprime nosso interesse se for feito com firmeza, ou descaso se for lânguido demais.

Já o beijo – tido como o mais íntimo dos três – agora virou commodity, uma vez que saímos distribuindo beijos a granel a deus dará.

O abraço é o caminho do meio, aquele afeto sem ser invasivo, uma espécie de irmandade que estabelecemos com nosso interlocutor e que pode ter vários significados de acordo com a conjuntura. Pois, se antes costumávamos destiná-lo aos nossos afetos mais caros, agora o beijo vai para a moça do call center que nos liga tentando oferecer um produto, e por aí vai.

A força de um abraço costuma ser páreo duro em relação aos beijos, esses que migram rapidamente de apaixonados para mornos “selinhos”. O abraço acolhe e costuma ser mais duradouro, quando não eterno por seu poder curativo e confortante.

Espero que as pessoas se abracem mais na cidade. Não falo de quem abraça Marabá para esganá-la. Furtar sua alma boa, abusar da inocência. Aproveitar-se dela e ainda sair espalhando que “comeu” e botar no Face.

Cara leitora e leitor, perdão pelo texto. Até queria, mais uma quinta-feira, ter falado de amorosidades. Mas ando com saudades de uma cidade, de uma arquitetura que descambe na dignidade pra qualquer um, de mais gente que preste para uns abraços.

* O autor é jornalista há 26 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.

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