Eu já percebi inúmeras vezes, que em Marabá, o amor também pega ônibus errado, perde prazo, confunde rua, troca nome de folha e, mesmo assim, chega.
Conheci uma história dessas num fim de tarde amornado, quando o sol descia preguiçoso por trás do Rio Tocantins e a cidade começava a trocar o calor do corpo pelo bafo morno da noite. Foi ali, entre o vaivém de gente e o barulho das motos, que se esbarraram Davi e Lúcia. Ele era desses que nunca souberam se sete vezes oito dava cinquenta e seis ou uma tragédia. Ela, por sua vez, tropeçava nas palavras tipo as pessoas que pisam em pedra solta na beira do rio. Uma fazia guerra com os números. O outro assinava armistício com as letras, mas só de vez em quando.
Marabá, que adora uma mistura, tratou de misturá-los também.
Leia mais:Ele a viu primeiro numa fila qualquer, dessas que existem em toda cidade e parecem eternas como promessa de político em campanha. Talvez fosse fila de banco, talvez de lotérica, talvez de esperança. O certo é que ela segurava um papel com tanta força, como se as letras quisessem fugir dali, e ele carregava um boleto na mão com a expressão de quem olha para um inimigo antigo. Quando os olhos dos dois se encontraram, houve um silêncio miúdo que ninguém escuta, mas que muda a vida da gente.
Davi sorriu o sorriso meio torto de quem não dominava nem matemática nem coragem. Lúcia devolveu um sorriso breve, desses que passam rápido, mas deixam rastro.
Começaram a se encontrar pela cidade. Primeiro sem querer. Depois com esforço. Em Marabá, qualquer paixão precisa aprender geografia. Ora era na Cidade Nova, ora na Nova Marabá, ora numa esquina da Velha Marabá, onde o passado ainda senta na calçada para tomar vento. Davi nunca acertava o horário. Dizia cinco e chegava oito. Marcava quinze minutos e aparecia quase uma novela depois. Não era descaso. Era guerra particular com o relógio, esse ditador redondo que humilha muita gente boa.
Lúcia se irritava. Não porque ele atrasasse. Mas porque mandava mensagem. Mensagem, para ela, era um campo minado. Lia depressa, trocava sílabas, montava sentido pela metade, sofria por inteiro. Uma vez ele escreveu “chego já” e ela entendeu “não vou mais”. Chorou duas horas inteiras até derreter rímel e dignidade, antes de vê-lo dobrando a esquina, suado, aflito e com um pastel amassado na mão, trazendo a paz do mundo embrulhada num guardanapo de lanchonete.
Brigaram muito por causa disso, ela queria clareza e ele queria aproximar-se. Ela pedia ligação, ele esquecia; ele pedia paciência e ela se esforçava.
No fim, os dois iam descobrindo, na marra e no afeto, que amar alguém é também aprender a tradução de suas falhas. Davi não conseguia calcular quantos dias faltavam para vê-la de novo, mas sabia de cor o jeito como a testa dela franzia quando estava contrariada. Lúcia tropeçava ao ler bilhete, placa, legenda e bula, mas enxergava nele coisas que ninguém mais via. Enquanto o mundo cobrava precisão, eles se ofereciam presença. Era pouco para os outros. Para eles, era tudo.
Num domingo de muito calor, em março passado, sentaram-se na orla, olhando o rio, que parecia um parente antigo. Ao redor, crianças corriam, ambulantes gritavam preços improváveis e a cidade seguia sua vocação de nunca parar. Davi tirou do bolso um papel dobrado. Lúcia riu antes mesmo de abrir.
De novo, homem?
De novo, mulher.
Ela já sabia que vinha poesia. Ele já sabia que ela não leria sem embaraço. Então fez o que sempre fazia quando a ternura vencia a vergonha. Tomou o papel de volta e leu em voz alta, baixo, quase para dentro dela.
Disse que o amor dos dois era meio ponte e meio canoa. Que às vezes balançava. Às vezes assustava. Mas sempre levava a algum lugar. Disse que ela embaralhava palavras, mas nunca embaralhou o coração dele. Disse ainda que ele confundia números, datas e horas, mas nunca confundira a direção quando o assunto era procurá-la.
Lúcia não respondeu de imediato. Ficou olhando o rio e pedindo que as águas lhe emprestassem vocabulário. Depois segurou a mão dele com força e falou a frase mais certa daquela relação toda.
Ainda bem que a gente não é perfeito.
E era isso.
Porque os perfeitos costumam ser muito corretos, muito organizados, muito pontuais, muito legíveis. Mas raramente deixam história. Davi e Lúcia deixavam. Deixavam nos bancos da praça, nas calçadas quentes, nos trajetos longos entre um núcleo e outro, nos bilhetes mal escritos, nos horários mal calculados, nas reconciliações demoradas, nos beijos sem gramática e nas promessas sem planilha.
Casaram semana passada, num dia de muita chuva em Marabá. Davi nunca decorou. Lúcia nunca conseguiu ler direito o convite. Mas os dois se lembram, com a nitidez que importa, da tarde em que saíram da cerimônia e viram Marabá inteira acesa, como se a cidade, por uma noite, piscasse para eles.
E talvez o amor seja isso mesmo. Uma conta errada que, por milagre, fecha.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.

