Correio de Carajás

Quando Benício nasceu

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

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Eu soube, pelo WhatsApp, por volta de 14 horas desta quarta-feira, dia 7 de julho, que Benício nasceu. E não é só isso. Nasceu com cinco nomes: Benício Ferreira Figueira Silva Chagas. A ficha completa do garotinho veio quase em forma de boletim médico:

Nome completo: Benício Ferreira Figueira Silva Chagas

Peso: 2.902 gramas

Leia mais:

Altura: 46cm

Nome da mãe e do pai: Milena Figueira da Silva e Rodrigo Ferreira das Chagas

Hora do nascimento: 13h35

Local: Hospital Unimed – Marabá

E não foi parto natural, como Milena e Rodrigo desejavam. Veio por cesárea.

O professor Milton Torres dizia-nos, em sala de aula, que, quando uma criança nasce, o mundo abre um espaço para ela. Eu nunca mais esqueci esta ideia. Agora, com as notícias terríveis, e quase diárias, de mortes de conhecidos, amigos e parentes, as palavras do meu mestre reviram-se em meu sofrimento, voltam desdobradas em nova questão.

Pergunto-me sobre os espaços que ficam vazios no mundo, com tantas partidas repentinas, antes do tempo. Que fazer destes buracos, destes ocos, destes vãos, destes vácuos? Tiago Koch, por exemplo, ao nascer, tinha seu quinhão de espaço no mundo, e nem precisava de muito. Mas ao crescer e tornar-se adulto, foi, com seus ombros largos e seu corpo forte, alargando esse espaço em suas andanças, até chegar ao meu Pará. Em cada conversa com produtores rurais, servidores públicos, cada café e bate-papo com amigos, ia escavando picadas, veredas, vales, planícies. Antes dos 40 de idade, sem se dar conta, tinha já aberto um cânion.

Voltando a Benício, nasceu em um momento delicado para a mãe, Milena. O pai dela, com covid-19, está entubado em UTI do Hospital Municipal de Marabá. O quadro é grave e inspira muitos cuidados. A mãe, que já esteve internada por causa da mesma doença, conseguiu receber alta no último final de semana, mas acabou voltando ao Municipal depois de voltar a sentir-se muito mal por causa da doença.

Milena sente um misto de tristeza e alegria. O primeiro filho é uma experiência incrível, que foi gestado durante nove meses em sua barriga. Mas os avós maternos não terão condições de conhecê-lo, por enquanto. E foi com essa sensação que ela foi internada nesta quarta-feira para ganhar o rebento.

A família de Milena está dividida. É alegria? É dor? É preocupação? Benício, entenda, no futuro, que os dias em que você chegou foram dolorosos. E escreva sua própria história. Porque o mundo abriu um espaço para você, depois que muitos outros se foram.

Todos perdemos amigos, familiares ou conhecidos para a covid-19. Nos últimos meses, já escrevi dezenas de notas de pesar de personalidades de vários segmentos. Nos sites da Câmara ou da Prefeitura de Marabá, eles estão lá. Em cada um, a busca por uma palavra diferente, para não cair na mesmice. Difícil.

E continuamos procurando quem tem melhor resposta e reflexão a fazer sobre o caso dos espaços vazios deixados agora no mundo. Mas, na solidão do confinamento e na urgência de cada um de nós, a de entender como viver agora sem nossos próximos, o aluno tateia, engatinha, esboça uma saída para o problema filosófico-existencial. Talvez, é o que espero, estes vazios abismais, para onde olhamos agora e que nos olham de volta, vão, aos pouquinhos fechando sua grande boca.

Do escuro, hão de voltar não ecos, mas sussurros, risos, fragmentos de horas de folga de outros dias, no passado. Naquele dia com Tiago Koch, naquele dia com Dr. Nicomedes, naquele dia com Nagib Mutran, naquele dia com o coronel Joel Marinho, naquele dia com Albertinho Santis, naquele dia com… Os nomes dos meus mortos vão saltar de dentro do abismo do meu luto, vão transformar-se em histórias amorosas. Parece que foi ontem. E foi.

* O autor é jornalista há 25 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

 

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