Correio de Carajás

Para Dom Vital, Maria é referência para mães que rezam pelos filhos

Em 2026, o 46º Círio de Nazaré será realizado no dia 18 de outubro, com o tema “Em Maria, Jesus veio morar entre nós”

Dom Vital: “Com Maria nós queremos chegar ao seu filho Jesus”
Por: Luciana Araújo

Aos pés da imagem de Nossa Senhora de Nazaré, mães chegam ao Círio de Marabá com pedidos que atravessam a vida cotidiana: saúde para um filho, emprego para o marido, proteção para a família ou forças para enfrentar uma dificuldade.

Às vésperas do 46º Círio de Marabá, o bispo diocesano Dom Vital Corbellini fala sobre a relação de mães e mulheres com Maria e o papel dessa devoção na celebração que reúne milhares de pessoas na cidade.

Para o religioso, ‘Nazinha’ se aproxima diretamente da experiência materna. Dom Vital, que está em Marabá desde novembro de 2012, afirma que ao longo dos anos ouviu relatos de mulheres que recorrem à devoção para pedir pelos filhos, pela própria saúde e por questões que envolvem a família.

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Seja de maneira particular, ou em grupos de orações, as mães recorrem à Nossa Senhora como intercessora de seus pedidos. É aos pés de Maria diversas intenções são colocadas: a cura de uma doença, um bom emprego, a aprovação no vestibular, a aquisição da casa própria, a benção do casamento e da gravidez.

Mas a figura de Maria de Nazaré não se limita a esse contexto. Ela é também um espelho, uma referência para mulheres que atravessam situações de preocupação e vulnerabilidade. Para Dom Vital, a devoção oferece a essas pessoas um espaço de oração e de esperança.

Ele afirma que muitas dessas manifestações de fé acontecem de forma silenciosa. Nem sempre, segundo o bispo, as mulheres relatam diretamente o que estão vivendo. Algumas demonstram a emoção diante da passagem da imagem, ajoelham-se ou permanecem agarradas à corda da berlinda.

“Às vezes elas não manifestam assim exteriormente, mas se comovem quando passa a imagem de Nossa Senhora”, frisa.

A corda, aliás, é um dos símbolos dessa relação. Para Dom Vital, o gesto de segurá-la durante a procissão representa a proximidade dos fiéis com a imagem de Nossa Senhora e, dentro da compreensão católica, com Jesus.

Maria como caminho para a paz

Ao falar sobre o que o Círio pode representar para além das fronteiras paraenses, Dom Vital relaciona a devoção mariana a uma preocupação que ultrapassa o ambiente religioso: a busca pela paz.

Ele cita problemas sociais como mortes de mulheres, jovens, crianças e adultos e afirma que a sociedade precisa construir relações de paz dentro das famílias, das comunidades, das escolas e em outros espaços de convivência: “Precisamos trabalhar pela paz, dom de Deus para a realidade humana e divina”, afirma.

E, assim, ele associa Nossa Senhora, mãe de Jesus, ao título de Rainha da Paz. Para reforçar essa mensagem, Dom Vital também menciona as aparições marianas reconhecidas pela Igreja Católica, como Fátima e Lourdes, ao falar da mensagem de paz relacionada à devoção.

É por isso que, segundo ele, o Círio é mais do que uma manifestação religiosa concentrada em um único dia. É uma experiência de oração em que os romeiros levam de volta para suas famílias e comunidades a disposição para renovar relações e continuar a vida comunitária com harmonia e pacificidade.

História do bispo com Maria começa em casa

 

Quando questionado sobre sua relação com Maria, Dom Vital compartilha que começou ainda dentro de casa. Ele recebeu dos pais a fé mariana e essa experiência familiar acompanhou sua trajetória religiosa, desde o desejo de se tornar padre até a atuação como bispo.

Segundo ele, os pais eram devotos de Nossa Senhora, e a convivência com essa fé contribuiu para sua formação. Foi também nesse ambiente que, ainda jovem, passou a pedir pela graça do sacerdócio.

OLHO: “Desde pequeno, eu sempre senti a vontade de ser padre, de ser presbítero. E esta graça foi dada”.

Para Dom Vital, essa experiência pessoal se mistura hoje à vivência com os devotos de Nossa Senhora de Nazaré em Marabá. Desde que chegou à cidade, em 2012, ele diz ter percebido uma relação particularmente próxima entre a população e Nazinha. Essa proximidade, segundo ele, pode ser vista durante as procissões, principalmente entre os fiéis que caminham segurando a corda da berlinda.

O bispo também descreve o Círio como um momento em que os devotos rezam, agradecem, pedem perdão e apresentam suas necessidades. Para ele, a participação popular o aproxima da própria dimensão da fé que acompanha a celebração.

“O Círio é algo inexplicável, é algo bonito. O povo vem, reza, louva a Deus por Maria, agradece, pede perdão”, afirma.

Ele faz questão de destacar que Maria não ocupa o lugar de Deus. Ela é considerada uma intercessora, alguém a quem os fiéis recorrem para levar suas orações a Jesus. É por isso que Dom Vital afirma que sua devoção a Maria está diretamente ligada à figura de Cristo.

“Com Maria, nós queremos chegar ao seu filho Jesus, o Salvador da humanidade”, explica.

É também nessa relação que ele encontra uma espécie de conforto pessoal. Ao falar sobre o sentimento que tem quando olha para Maria, Dom Vital diz que se sente amparado pela figura de uma mulher considerada pela Igreja Católica especialmente próxima de Deus.

“Eu olhar para Maria, a gente se sente assim confortado, porque sabemos que os pedidos que nós fazemos para ela são conduzidos ao seu filho Jesus”, afirma.

Uma fé que começa dentro de casa

A história contada pelo bispo também ajuda a entender por que a figura de Maria aparece tão ligada à família em sua experiência religiosa. Ele lembra que a fé recebida dos pais foi uma das bases de sua formação e que essa dimensão familiar permaneceu associada à sua trajetória até a ordenação sacerdotal e, posteriormente, ao episcopado.

Dom Vital relaciona essa experiência à própria compreensão católica sobre Maria. Para ele, a devoção mariana não está separada da fé em Jesus. “A mariologia está ligada à cristologia”, resume, referindo-se à relação entre o estudo e a devoção a Maria e a centralidade de Cristo na fé cristã.

Essa compreensão também aparece no tema escolhido para o Círio deste ano. “Em Maria, Jesus veio morar entre nós” foi apresentado pela Diocese como uma referência à encarnação de Jesus e à participação de Maria nesse acontecimento. A escolha também foi relacionada pela Diocese à Campanha da Fraternidade de 2026, cujo tema é “Fraternidade e Moradia”.

Dom Vital explica que, para a Igreja Católica, Maria é aquela por meio de quem Jesus assumiu a condição humana. Por isso, o tema do Círio procura destacar a ideia de que Cristo entrou na realidade humana e passou a habitar entre as pessoas.

“Jesus veio habitar entre nós. Então, a nossa realidade humana não é mais solitária, isolada, mas tem a presença de Jesus”, afirma.

A preparação para o Círio, segundo o bispo, envolve uma equipe formada por leigos e leigas, sacerdotes e religiosas. O trabalho começou ainda no primeiro semestre e, na avaliação dele, busca fazer com que a celebração tenha significado para a vida dos fiéis para além do dia da procissão.

  

Uma devoção que atravessa gerações

Para o bispo Dom Vital, um dos aspectos mais marcantes do Círio é justamente a capacidade de reunir diferentes gerações em torno de uma mesma devoção. A celebração de 2026 terá como ponto alto a grande romaria do dia 18 de outubro. A programação oficial prevê a saída da procissão às 7 horas, após a Santa Missa na Catedral Nossa Senhora do Perpetuo Socorro, e o encerramento com celebração na Praça do Santuário Nossa Senhora de Nazaré, na Folha 16.

Para o bispo, a dimensão da festa não está apenas no tamanho da procissão. Está também no que acontece entre uma pessoa e sua fé. Nas mães que rezam pelos filhos, nos pedidos feitos em silêncio, nos agradecimentos pela saúde e nos gestos de quem retorna todos os anos para acompanhar a imagem.

Dom Vital afirma que esses relatos ajudam a explicar por que a devoção permanece viva.

“O povo quer rezar, quer agradecer, quer louvar a Deus, quer se encontrar com Maria, quer sair do Círio mais à vontade de trabalhar na vida da comunidade, da paróquia, na sua própria família, quer renovar-se”.

É sob esse olhar que ele define a relação entre Maria e os romeiros: uma devoção que, na compreensão católica, não termina na imagem, mas aponta para Jesus.

“Claro, não permaneça só em Maria, só na imagem. Com ela, nós queremos chegar ao seu filho Jesus”, afirma.

Em 2026, é justamente essa ideia que a Diocese de Marabá escolheu colocar no centro do Círio: “Em Maria, Jesus veio morar entre nós”.