Correio de Carajás

Paciente Cirúrgico

      O manejo de doenças cirúrgicas requer não apenas a aplicação de habilidades técnicas e o treinamento nas ciências básicas para os problemas de diagnóstico e tratamento, mas também uma simpatia genuína e afeto pelo paciente.

       Segundo Englebert Dunphy, o cirurgião deverá ser um médico no sentido antigo, um cientista aplicado, um engenheiro, um artista e um pastor para os outros seres humanos. Como a vida ou a morte depende, em geral, da validade das decisões cirúrgicas, o julgamento do cirurgião deverá ser correspondido pela coragem na ação e por um grau elevado de experiência técnica.

      No seu primeiro contato, o cirurgião deve ganhar a confiança do paciente e transmitir a garantia de que a ajuda está disponível e que será fornecida. O cirurgião deve demonstrar interesse pelo paciente como um indivíduo que precisa de ajuda, e não apenas como um “caso” a ser tratado. Nem sempre isso é uma tarefa fácil e não existem regras de conduta, exceto ser gentil e mostrar consideração.

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      A maioria dos pacientes está disposta a gostar e confiar em seus médicos e reage com gratidão a um indivíduo simpático e compreensivo. Alguns cirurgiões são capazes de estabelecer uma relação de confiança apenas com as primeiras poucas palavras de cumprimento; outros o fazem apenas por meio de um contato personalizado e cuidadosamente adquirido no leito.

      Desde que seja criada uma atmosfera de simpatia, interesse pessoal e compreensão, não importa a forma como a relação de confiança é estabelecida. Mesmo em circunstâncias de emergência, essa mensagem sutil e simpática de preocupação deverá ser transmitida.

      O entrevistador deverá inicialmente determinar os fatos e, em seguida, procurar pistas essenciais, sabendo que o paciente poderá omitir o sintoma mais importante – por exemplo, a passagem de sangue pelo reto – na esperança (nascida do medo) de que, se não for questionado especificamente a respeito, ou se nada for encontrado para explicá-la no exame físico, não seja muito grave.

       A anamnese é um trabalho de detetive. Ideias pré-concebidas, julgamentos pontuais e conclusões apressadas não têm vez nesse processo. O diagnóstico deverá ser estabelecido pelo raciocínio indutivo. Sintomas comuns de condições cirúrgicas que requerem ênfase especial na anamnese serão discutidos a seguir.

       Uma análise cuidadosa da natureza da dor é uma das características mais importantes de uma anamnese cirúrgica. O examinador deverá verificar inicialmente como a dor começou. O seu aparecimento foi explosivo, rápido ou gradativo? Qual é a característica precisa da dor? Ela é muito intensa a ponto de não ser aliviada pela medicação? E constante ou intermitente?

      Existem associações clássicas, como o padrão rítmico de uma obstrução intestinal ou o aparecimento de dor precedendo a fraqueza da claudicação intermitente? Um dos mais importantes aspectos da dor é a reação do paciente a ela. A descrição da dor por um paciente exagerado é, em geral, obviamente inapropriada, assim como uma descrição de dor “excruciante” informada de forma casual ou jovial.

      O paciente que grita ou se debate está ou grosseiramente exagerando ou sofrendo de cólica renal ou biliar. A dor muito intensa – devido à infecção, à inflamação ou à doença vascular – em geral força o paciente a restringir todos os movimentos o máximo possível. A dor moderada torna-se agonizante pelo medo e pela ansiedade.

      A reafirmação, de certa forma calculada para restabelecer a confiança do paciente no tratamento que está sendo feito é, em geral, um analgésico mais eficaz do que uma injeção de morfina.

      O que o paciente vomitou? Quanto? Com que frequência? Com o que o vômito se parecia? O vômito foi em jato? É especialmente importante que o examinador veja o vômito. A história do tipo de vomito pode direcionar o médico para um diagnóstico mais precoce e especifico. O tema prossegue na próxima edição de terça-feira.

* O autor é especialista em cirurgia geral e saúde digestiva.

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.

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