Correio de Carajás

Os contos “A terceira margem do rio” e “Famigerado” como porta de entrada para a obra de João Guimarães Rosa

Mari Hipólito, mulher sorrindo com cabelo cacheado, segurando um livro, para a Coluna do Clube da Palavra.

Na coluna anterior, ao abordar a ressaca literária e suas possíveis causas, também sugeri a leitura de contos como uma forma eficiente de emergir do deserto em que vivemos quando não conseguimos ler, ainda que por um curto período. O conto é um gênero literário em que se tem uma narrativa mais curta e com poucos personagens, geralmente construídos sem grande complexidade.

Como no romance, há diversidade de contos: fantásticos, contos de fadas, suspense/terror, enfim, muitos. Apresentado de forma sucinta o referido gênero, aproveito o ensejo para apresentar também os contos “A terceira margem do rio” e “Famigerado”, que podem ser encontrados no livro Primeiras estórias (1962), de João Guimarães Rosa. A obra é uma coletânea de contos lançada durante a terceira fase do modernismo brasileiro (1945–1970).

João Guimarães Rosa é um dos maiores escritores brasileiros. Além de escritor, foi médico e diplomata; escreveu romances, novelas e contos. Sua prosa é ambientada no sertão brasileiro; seu texto é marcado por uma linguagem inovadora, com forte presença de expressões populares e de regionalismo. Outra característica de sua obra, que nos encanta, é o viés filosófico presente em suas narrativas.

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Quem ainda não leu o famoso trecho extraído do livro Grande Sertão: Veredas? “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” A passagem é muito citada. Rosa conseguiu, nesse pequeno fragmento de sua obra-prima, sintetizar e eleger a forma de enfrentar os constantes movimentos da vida (desafios, incertezas e medos).

Para quem considera a leitura das obras de Guimarães Rosa difícil ou tem receio de começar o célebre Grande Sertão: Veredas e abandoná-lo, sobretudo por conta da linguagem, minha sugestão é: comece pela leitura de contos! A leitura de narrativas curtas, mas que reúne as principais caraterística da prosa do autor, é uma boa forma de conhecer e se familiarizar com obra do escritor. Além de Primeiras estórias, o autor publicou Sagarana (1946), sua primeira coletânea de contos. O autor aborda questões universais vivenciadas no sertão brasileiro, especificamente no sertão mineiro, estado em que nasceu e viveu parte de sua vida.

No conto “A terceira margem do rio”, o leitor navega por águas encantadas; trata-se de uma obra polissêmica, ou seja, o leitor pode construir múltiplos e diversos sentidos para a narrativa. É essencialmente filosófica. Trata-se de uma história enigmática sobre um pai que decide deixar sua casa e família para morar em uma canoa, fazendo do rio sua morada. Ao leitor cabe imaginar e atribuir sentido a essa tal terceira margem, tendo em vista que um rio possui apenas duas margens.

O conto já serviu de inspiração para músicas e foi adaptado para o cinema.

Em “Famigerado”, tem-se uma narrativa desenvolvida a partir de uma palavra. Sim, é um vocábulo que movimenta e determina as ações do personagem principal, Damázio dos Siqueiras. Quando o feroz sertanejo é chamado por um “homem do governo” de famigerado, ele sai em busca do significado daquela expressão. FAMIGERADO: eu adoro essa palavra! Emprego-a com regularidade. Ela, sozinha, é capaz de produzir as mais diversas reações, indo do estranhamento ao riso.

A expressão abriga dois sentidos: famigerado pode designar aquele que é famoso, célebre, notável; outrossim, também pode ser usado de forma pejorativa, referindo-se a alguém de má fama, perverso ou cruel. Portanto, é a semântica do vocábulo que rege e determina os acontecimentos na narrativa.

É quase impossível parar de falar dos contos em questão. Mas, na tentativa de não estragar a experiência do meu dileto leitor, encerro a apresentação das narrativas por aqui. Reforço apenas a indicação: leiam “A terceira margem do rio” e “Famigerado”, de João Guimarães Rosa; essa é uma excelente porta de entrada para a obra de um dos mais ilustres escritores brasileiros. Até a próxima, queridos e queridas leitoras!

 

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.