O período oficial de veraneio em Marabá, ao longo do mês de julho, vinha sendo considerado tranquilo até o início da noite do último domingo (12), quando uma ocorrência no rio Tocantins mobilizou banhistas, barqueiros e equipes de apoio que atuam na Praia do Tucunaré. Durante o intenso fluxo de embarcações que retornavam da praia para a orla da cidade, uma lancha de alumínio que transportava passageiros virou após enfrentar um forte banzeiro, provocando momentos de pânico entre os ocupantes.
Apesar da gravidade da situação, ninguém ficou ferido. O socorro foi realizado rapidamente por outras embarcações que navegavam nas proximidades, evitando consequências mais graves. O episódio, porém, reacendeu o debate sobre a segurança da navegação no período de verão e sobre a necessidade de fiscalização mais efetiva no principal corredor fluvial da cidade.
Entre os passageiros estava o músico Marcos Neves, integrante da banda Marachoro, que havia se apresentado naquela tarde no palco montado na praia. Ele e outros integrantes do grupo retornavam juntos quando a embarcação virou. Na manhã de segunda-feira (13), Marcos publicou um relato detalhado nas redes sociais descrevendo os momentos de aflição vividos dentro do rio.
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Pânico no rio
Segundo o músico, a lancha estava ocupada por todos os passageiros que haviam embarcado para o retorno à cidade. Para ele, o problema não foi apenas a quantidade de pessoas a bordo, mas principalmente as condições de navegação naquele horário, marcado pelo intenso tráfego de embarcações.
“O rio estava muito movimentado, muito movimentado mesmo. Era final de tarde, início de noite, e tinha muita gente indo e voltando. Os barcos indo e voltando de uma forma muito intensa”, relata. A movimentação simultânea de embarcações em sentidos opostos provocou fortes ondas, conhecidas pelos ribeirinhos como banzeiro. Marcos conta que a lancha balançou fortemente duas vezes antes de ser atingida por uma terceira onda.
“Quando deu a terceira, o barco foi muito alto. Quando voltou, já voltou meio de ponta. E quando voltou de ponta, o negócio foi muito rápido”, disse. Na água, ele afirma ter vivido momentos de desespero. Mesmo utilizando colete salva-vidas, sentiu dificuldades para permanecer na superfície.
O músico contou ainda que ingeriu muita água durante o acidente, perdeu os óculos e a chave do carro, além de ter sofrido pequenos ferimentos sem necessidade de atendimento médico. Um dos colegas perdeu um violão utilizado nas apresentações e também o telefone celular.
Resgate rápido
Um dos primeiros a chegar ao local foi o barqueiro André Lima Costa, conhecido como Calango, que realizava uma travessia logo atrás da lancha que virou. Segundo ele, a embarcação acidentada não era um dos barcos credenciados que fazem a travessia regular entre a Praia do Tucunaré e a orla de Marabá. Tratava-se de uma lancha de pequeno porte que transportava integrantes da banda e equipamentos utilizados na apresentação.
“Dois barcos vinham vindo e fizeram um grande banzeiro. A gente que trabalha aqui já sabe que tem que pegar o banzeiro de frente. Quando eu vi, a lancha pegou o banzeiro de lado”, revela ao CORREIO.
Calango afirma que a lancha transportava oito passageiros, além do piloto, e ainda carregava equipamentos do show. Segundo ele, a capacidade máxima da embarcação seria de cinco pessoas e nela havia oito mais o piloto. O barqueiro explica que sua própria embarcação levava cerca de dez passageiros naquele momento, mas possui autorização para transportar até vinte.
Questionado sobre a habilitação do piloto da lancha, Calango afirmou não ter como confirmar a situação documental. No entanto, observou que a condução da embarcação não seguiu procedimentos considerados básicos por quem atua diariamente no transporte de passageiros no local.
“A gente já conhece a dinâmica do rio e com uma lancha naquela situação, o correto era evitar o corredor principal de embarcações naquele horário. Ele poderia ter feito uma rota mais segura pela margem”, avalia.

O relato também ajuda a esclarecer uma informação que circulou nas horas seguintes ao acidente. Inicialmente, algumas pessoas acreditavam que uma das tradicionais rabetas utilizadas na travessia da praia era a que havia afundado. Segundo os barqueiros ouvidos pela reportagem, o acidente envolveu uma lancha particular, e não uma embarcação credenciada para o transporte regular de passageiros.
Quem fiscaliza?
O episódio também levantou questionamentos sobre a responsabilidade pela fiscalização do tráfego fluvial durante o período de veraneio. Tenente Macedo, do 5º Grupamento Bombeiro Militar, informou ao CORREIO que a ocorrência aconteceu por volta das 18h40, já após o encerramento do serviço de guarda-vidas. Segundo ele, equipes do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar prestaram apoio para a retirada da embarcação da água.
“Esse é um horário de pico. Estão todos a todo vapor para sair da praia, principalmente os rabeteiros em busca do lucro. O rio fica muito agitado pelo grande fluxo de embarcações. Seria interessante a presença da Marinha para conter a velocidade”.
O Corpo de Bombeiros mantém equipes permanentes na Praia do Tucunaré durante o verão, atuando na prevenção de afogamentos e no atendimento a emergências. Entretanto, o controle da navegação e da circulação de embarcações não faz parte das atribuições da corporação.
Marcos Neves defendeu que a Marinha do Brasil mantenha presença mais constante no período de maior movimentação do rio. O músico chegou a sugerir a criação de corredores de navegação separados para embarcações que seguem em direção à praia e para aquelas que retornam à cidade, semelhante ao sistema de mão e contramão das rodovias.
Na prática, porém, Marabá não possui uma estrutura permanente da Marinha ou da Capitania dos Portos. As fiscalizações costumam ocorrer de forma pontual, em operações específicas realizadas ao longo do ano.
Atualmente, os barqueiros que realizam a travessia regular entre a orla e a Praia do Tucunaré precisam possuir habilitação náutica, cumprir limites de lotação e disponibilizar coletes salva-vidas para todos os passageiros. Nos últimos anos, houve um esforço para regularizar a atividade e garantir que os profissionais atuem dentro das exigências estabelecidas pela legislação.
Em temporadas anteriores, a Prefeitura de Marabá também chegou a organizar o embarque e desembarque por meio da Guarda Municipal, mesmo sem competência para exercer fiscalização fluvial. A medida, entretanto, deixou de ser adotada nos últimos anos.
Sem feridos, o acidente terminou apenas com prejuízos materiais e um grande susto. Ainda assim, o episódio serviu de alerta para um problema antigo: o crescimento do fluxo de embarcações na Praia do Tucunaré durante o verão sem que exista um sistema permanente de ordenamento e fiscalização da navegação. A combinação de excesso de movimento, velocidade elevada e embarcações de diferentes portes compartilhando o mesmo espaço pode transformar rapidamente um passeio de rotina em uma situação de risco.
Sem resposta
A Prefeitura de Marabá, que era responsável pelo barco de apoio que transportava os músicos, foi procurada para falar sobre a ocorrência, mas não respondeu ao CORREIO. Por consequência, também não conseguimos acesso ao piloto da lancha para contar a sua versão dos fatos.
