Valdir trabalhava em condições precárias, mas temia perder o emprego, segundo sua família/ Fotos: Divulgação
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Na tarde de ontem (31), familiares e amigos do motorista Valdir Rodrigues Dias, de 43 anos, sepultaram seu corpo no Cemitério da Saudade (Nova Marabá), sob clima de comoção e de revolta. Eles receberam informação que o carro-pipa em que a vítima trabalhava e na qual morreu apresentava um problema antigo no sistema de freios, que teria falhado na descida de uma ladeira, causando o acidente fatal.

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Valdir, que morava em Marabá, na Rua Goiás, Bairro Jardim União, morreu na noite de segunda-feira (29), por volta das 20h30, na “Ladeira do Pequi”, área da mineração Buritirama, zona rural de Marabá, onde o motorista trabalhava conduzindo um caminhão-pipa.

Durante velório, familiares e amigos da vítima pedem investigação do caso/ Foto: Josseli Carvalho

Ouvido pela reportagem do Jornal CORREIO na tarde de ontem, Valdecir Rodrigues Dias, irmão de Valdir, relatou que seu irmão já tinha até conversado com a esposa sobre a situação do caminhão. A mulher chegou a alerta-lo para não trabalhar nessas condições, mas ele temia perder o emprego caso reclamasse.

“Ninguém queria trabalhar no veículo, o caminhão era muito velho, tinha ido para assistência, mas voltava com o mesmo problema”, disse Valdecir, acrescentando que colegas do seu irmão, que estavam na hora do acidente, confirmaram que foi essa a causa do sinistro.

Inclusive, uma situação semelhante já havia acontecido anteriormente, quando o caminhão também perdeu o freio, mas naquela ocasião ele jogou o veículo na barreira e conseguiu evitar o acidente. Mas na segunda vez que isso ocorreu, não foi mais possível evitar.

Valdecir conta que, de acordo com o relato de colegas de trabalho da vítima, quando o caminhão desceu a ladeira a toda velocidade e bateu no barranco, Valdir teve parte do corpo soterrada e quando foi retirado pelos colegas já estaria morto. Mesmo assim, foi mandado na ambulância da empresa para uma clínica particular na Cidade Nova, onde o óbito foi atestado, e de lá para o Instituto Médico Legal (IML).

Somente depois de tudo isso, já por volta da meia-noite, informaram a esposa dele. Mas antes, a conversa sobre o acidente vazou e um ex-cunhado dele, que mora na Vila União, já tinha avisado e disse que a informação era que ninguém poderia saber ainda do acontecido. “Eles fizeram da forma que quiseram fazer”, reclama Valdecir.

Por outro lado, ele reconhece que a empresa garantiu toda assistência funerária. “Mas era o mínimo que poderiam fazer”, pondera, acrescentando que a família de Valdir gostaria de ter um esclarecimento sobre o que aconteceu, porque a empresa registrou um Boletim de Ocorrência Policial como se fosse um acidente automobilístico, mas para a família foi um acidente de trabalho.

A cabine do caminhão-pipa dirigido pela vítima ficou bastante danificada

PEDIDO DE PROVIDÊNCIAS

Diante disso, os parentes do motorista querem que seja realizada uma perícia para saber quais as condições do sistema de freio do caminhão; querem também uma investigação no local onde aconteceu o acidente, pois os colegas da vítima disseram que não ficaram marcas de frenagem, o que leva a entender que os freios simplesmente falharam.

Ainda segundo Valdecir, o que os familiares de Valdir esperam é que a Justiça seja feita, porque uma pessoa perdeu a vida e há outras vidas em risco. “São muitos outros pais de família que estão lá dentro, e essas empresas só querem saber do lucro”, denuncia, acrescentando que essa morte não pode ficar impune. “É um pedaço da gente que vai embora, é uma dor terrível”, lamenta.

ÁUDIOS DENUNCIAM

A reportagem do Jornal CORREIO teve acesso a áudios trocados entre trabalhadores da empresa em grupos de WhatsApp, onde os profissionais criticam o descaso da empresa em relação aos problemas de segurança. Obviamente o nome dos funcionários não será divulgado.

Em um dos áudios um trabalhador desabafa: “Infelizmente se perdeu uma vida pela incompetência dos outros”. Em outro áudio, mais um profissional revoltado reclama: “Todos nós aqui somos pais de família, precisamos do emprego, mas temos que ter condições de serviço”.

Outro depoimento revoltado diz que a empresa tem feito ouvido de mercador para a segurança dos funcionários: “Isso daí foi uma tragédia anunciada, porque foi batido muito nessa tecla aí de manutenção. Infelizmente teve de acontecer o pior para providências serem tomadas agora”.

EMPRESA SE PRONUNCIA

Contatada pelo jornal, a Assessoria de Comunicação da Buritirama enviou a seguinte nota sobre o assunto: “A Mineração Buritirama lamenta profundamente o acidente que vitimou um de seus colaboradores na noite da última segunda-feira (29/7). Cumprindo as exigências da legislação vigente, a empresa informou todas as autoridades competentes, incluindo Sindicato, Ministério do Trabalho e a Polícia Militar.”

Em outro trecho da nota oficial, a assessoria diz que “as investigações do caso ainda estão sendo realizadas, e a empresa segue à disposição das autoridades, reafirmando seu total apoio e respeito ao sentimento dos familiares e seu compromisso com o cumprimento de todas as normas de segurança e manutenção”. (Chagas Filho com informações de Josseli Carvalho)

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