Correio de Carajás

Entre bonecas e o matinê do velho Cine Marrocos

A pequena Vila Santa Fé, na castigada Estrada do Rio Preto, recebia viajantes num ir sem fim dia e noite na década de 1980. À medida que Serra Pelada jorrava ouro, os bamburrados de Marabá compravam fazendas e abriam estradas na mata para tirar madeira e enfiar gado.

Foi lá que Carla Dias Brito cresceu brincando de bonecas que recebia dos donos de camionetes e caminhões que queriam agradar sua mãe, cozinheira da beira da estrada que labutava na beira do fogão com ajuda do marido. Carlinha punha nome em cada uma das bonecas e contou até 13 em sua coleção de luxo no meio da floresta.

Mas no início da adolescência Carlinha veio para a cidade. Foi aqui que, aos 15 anos de idade, as bonecas começaram a ficar desinteressantes, ao serem comparadas à matinê no Cine Marrocos nas tardes de domingo.

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Depois do cineminha, embaixo de uma árvore, radinho de pilha tocando as músicas mais românticas da época, a dança com os garotos na praça Duque de Caxias instigava muito mais o coração adolescente dela.

Foi nessa brincadeira de tertúlia pra lá, tertúlia pra cá que Carla conheceu o futuro marido, Francisco Ferreira, ao som de “Apenas Um Rapaz Latino Americano”, o maior sucesso do grande Belchior. Na época, Carla sonhava ser professora e só conseguiu essa façanha em 1981, quando formou-se em Pedagogia em Belém. Saiu daqui atrás de seu sonho, a bordo de um velho Transbrasiliana, empresa que fazia viagens entre Marabá e Capital.

Depois voltou, onde casou-se com Francisco. Ela pode dizer, sim, que viu muito de Marabá crescer. “É melhor ser o primeiro da vila que o último da cidade”, relembra as sábias palavras do pai, motivadoras para fazê-la sair da vilinha e vim estudar 60 quilômetros de distância. E assim ela viu, em 1986, o surgimento da Fundação Casa da Cultura de Marabá.

Sofreu com salário de professor abaixo de um salário mínimo e precisava trabalhar três turnos para ajudar a sustentar os quatro filhos. Ela amava dar aulas para alunos do Fundamental, mas principalmente apreciava discutir arte, cinema e literatura, embora professora da área não fosse.

Para ampliar o conhecimento e chegar ao antigo Segundo Grau, fez Letras no Campus da UFPA, em Marabá. E também foi uma das primeiras mães que tiveram o prazer de ver os filhos se desenvolvendo absorvendo e discutindo a cultura local.

Aos 66 anos, na sala de sua casa, a agora aposentada Irenice dividiu comigo algumas memórias. Ela lembra, por exemplo, do dia em que viu a filha Samara dar aula para as crianças de um Núcleo de Educação Infantil e receber palmas de alunos e outros colegas de trabalho. Todos sentadinhos, em roda, ouvindo as explicações de Samara sobre as lendas de Marabá. “Foi uma coisa tão boa que eu senti que ia explodir [de orgulho]”, ri. Aliás, ela até correu para chamar o marido e garantir que ele presenciasse o momento também.

Agora, seu repórter, são meus filhos que produzem conteúdo e repassam histórias. Eu fiz minha parte em casa e com os alunos. Eu sonho que minha cidade tenha milhares de professores apaixonados por nossa história, por nossa cultura, relata Carla.

Além da filha, hoje formada em Letras com mestrado em Minas Gerais, Irenice também viu o filho Samuel descobrir a paixão pela música na Fundação Casa da Cultura. Samuel cresceu e virou um fotógrafo profissional.

São transformações como a de Carla Dias que inspiram a Marabá de hoje: uma cidade para cada um, com suas histórias de conquistas.

* O autor é jornalista há 26 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.

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