📅 Publicado em 04/07/2026 07h35✏️ Atualizado em 04/07/2026 07h36
Neste sábado (4), quando o mundo celebra o Dia Internacional do Cooperativismo, Marabá tem motivos de sobra para comemorar. O município abriga 89 cooperativas em atividade, segundo registros do setor, reunindo iniciativas que movimentam a economia, geram emprego e promovem inclusão social. Entre elas, a Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis (COREMA) se destaca por transformar aquilo que muitos chamam de lixo em renda, dignidade e sustentabilidade para dezenas de famílias.
O que para muitos é o fim da linha, para a COREMA é apenas o começo de uma cadeia viva de valor, energia e transformação social. Em uma entrevista ao CORREIO, o presidente da cooperativa, Wesley Faustino Martins Lopes, revelou os bastidores de um trabalho que vai muito além da coleta de materiais: trata-se de um esforço diário para profissionalizar o setor, resgatar trabalhadores da informalidade e colocar Marabá no mapa da sustentabilidade do Estado do Pará.
Com 21 pessoas atuando diretamente, a COREMA desdobra-se para cobrir os principais pontos de Marabá. “O trabalho se divide entre a coleta fixa no shopping, uma equipe de pessoas na coleta de rua e frentes de atuação que se estendem pela Velha Marabá, Nova Marabá e São Félix, e aqui no nosso ponto fixo no Bairro Coca Cola”, explica.
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A cooperativa está localizada no Bairro Nossa Senhora Aparecida (popularmente conhecido como Coca-Cola) e redesenha o destino dos materiais descartados na cidade, garantindo a dignidade de dezenas de famílias.
À frente do projeto está Wesley Faustino, mineiro que reside na região há 15 anos e com experiência anterior na cadeia da reciclagem em seu estado natal. Para a reportagem ele conta que identificou no lixo de Marabá uma oportunidade de transformação quando participava do Projeto de Economia Solidária e Criativa Socio-comunitário.
“A Corema nasceu pela necessidade do gerenciamento de resíduos sólidos que eu via na rua. Eu via os catadores correndo atrás de sucata ferrosa com carrinho de mão, tudo de forma inadequada. Quando surgiu o curso para abrir um empreendimento, olhei para o resíduo”, relembra o presidente.
O início da cooperativa no final de 2019 coincidiu com a pandemia de Covid-19, no início de 2020, período em que muitas famílias locais perderam totalmente suas fontes de subsistência.
A estrutura atual é fruto de articulações e parcerias estratégicas. O maquinário inicial (uma prensa de 15 toneladas) foi doado por investidores canadenses via Fundação Vale, após a cooperativa passar por um processo de incubação. Hoje, esse equipamento opera diretamente no Partage Shopping Marabá, um dos grandes geradores parceiros, de onde os fardos de papelão já saem prontos para a sede.
Recentemente, o processo ganhou o reforço de uma prensa enviada pelo Governo do Estado e de novos equipamentos (como balança e paleteira) adquiridos por meio de um projeto junto ao Ministério Público Estadual, financiado por verbas de multas judiciais.
Atualmente, o material chega à cooperativa por três canais principais: os catadores de rua cooperados (muitos integrantes da própria diretoria), os médios e grandes geradores, e uma parceria recente com o SSAM (Serviço de Saneamento Ambiental de Marabá).
A única exigência feita aos geradores é a separação básica entre o seco (reciclável) e o molhado (orgânico/rejeito). O presidente ressalta que a imposição de regras excessivamente rígidas poderia desencorajar a adesão em uma cidade onde a cultura da reciclagem ainda está engatinhando.
Wesley enfatiza que a mudança de mentalidade da população é o fator mais urgente para alavancar os índices de reciclagem em Marabá. “Se a pessoa separar ‘lixo’ de ‘resíduo’, vai nos ajudar muito. Lixo é o cultural, é aquilo que não tem valor agregado e cujo destino é o aterro. Resíduo tem valor e pode ser reutilizado. Quando a população entende isso, o material já chega pré-separado e o nosso trabalho melhora muito.”

Diferente de modelos tradicionais de emprego, a Corema adota o sistema de valor-hora. Mensalmente, realiza-se o balanço do faturamento e a dedução de todas as despesas operacionais da cooperativa. O saldo restante é dividido proporcionalmente pelas horas trabalhadas por cada cooperado.
O rendimento médio por pessoa gira em torno de R$ 1.500. Porém, os planos de expansão e a busca ativa junto ao município para a efetiva implantação da coleta seletiva em Marabá, a meta da diretoria é audaciosa: encerrar o ano superando a marca de R$ 2 mil mensais por trabalhador.
A expansão exige estrutura e os planos para a coleta no Bairro São Félix incluem o envio de uma nova prensa metalúrgica, embora a cooperativa ainda busque um espaço adequado na localidade. “Estamos devagar, na luta”, pondera com bom humor o presidente.
Um dos maiores desafios e gargalos para o crescimento da reciclagem na região é o resgate de trabalhadores que hoje atuam na informalidade, especialmente em áreas críticas como o antigo aterro. O presidente relata que o processo de “passar essa visão” de cooperativismo encontra forte resistência cultural.
“O catador que está na rua e ainda não tem a visão de cooperativa resiste um pouco até entender. Para ele: ta tudo certo trabalhar só até às 10 horas. Na cooperativa, ele vai ter horário para cumprir, entrar às 8. Então, ele prefere, às vezes, ficar de chinelo andando, se queimando, sem luva, de qualquer jeito, do que ter regras”, analisa.

Para quebrar essa barreira, a COREMA aposta no exemplo e no acolhimento. A abordagem mostra histórias reais de ascensão social dentro do projeto, como a de um rapaz que ingressou na cooperativa aos 17 anos e hoje, por meio de capacitações e parcerias, conquistou sua primeira habilitação e atua como motorista da instituição.
O amadurecimento da COREMA já rende frutos expressivos. Hoje, a cooperativa é certificada pela OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) e possui assento na diretoria do órgão. Francisca, uma das lideranças do projeto, assumiu o cargo de coordenadora de cooperativas de resíduos sólidos no Estado do Pará. “Isso foi uma honra para nós, uma conquista grande lá fora”, orgulha-se.
Os planos para o futuro são ambiciosos e miram a escala industrial. Já existem conversas avançadas e reuniões agendadas em Xinguara para a criação de uma Central de Resíduos Sólidos Regional baseada em Marabá. A ideia é centralizar o material de todas as cooperativas da região e escoá-lo diretamente para as grandes indústrias. “Tem projetos para Marabá que ainda estão saindo do papel. Queremos o escoamento direto até termos a nossa própria indústria”, projeta.
A atual sede própria da cooperativa, um galpão de 416 metros quadrados que já começa a parecer pequeno diante do volume de material, é fruto de um fomento com a mineradora Vale. O espaço atual é um luxo perto dos 200 metros quadrados em que operavam anteriormente, mas novos projetos já estão engatilhados até dezembro para expandir a estrutura.
Ao fim da entrevista, o presidente da COREMA propôs uma reflexão profunda sobre a forma como a sociedade enxerga o descarte. Para ele, o termo “lixo” é obsoleto e a região de Marabá precisa correr atrás do prejuízo cultural.
“A nossa região parou no lixo. Nós não evoluímos. Estamos atrasados, mas tem que começar. Um dia foi lixo, depois resíduo, depois renda. Hoje, eu não vejo nem mais como fração de reais, vai muito além disso. Eu vejo como potencial em energia. O tanto de energia que foi empregado para fazer um pedaço de papelão — água, energia elétrica, mão de obra humana, maquinários — foi uma injeção de força. Não podemos simplesmente jogar isso fora e depois gastar mais energia, mais tempo de vida e mais recursos em cima. Não podemos fazer isso”.
“O que para muitos é lixo, aqui é renda”
Há cerca de oito meses, Ruthianne Freitas, de 35 anos, vivia uma situação um tanto quanto comum na vida de milhares de brasileiros: a busca por uma oportunidade de emprego. Foi através da indicação de conhecidos que ela tomou conhecimento do trabalho realizado na Corema e decidiu arriscar. Acolhida pela equipe, ela encontrou ali não apenas um sustento, mas um novo propósito de vida.
Além do ambiente de trabalho acolhedor, a nova rotina profissional transformou a forma como Rute enxerga o consumo e o descarte de lixo e resíduos.
Ao CORREIO, ela confessa que antes dessa experiência não mantinha o hábito de separar os resíduos em sua própria residência (uma realidade compartilhada pela maior parte da população que, por falta de informação, tende a categorizar todo descarte doméstico simplesmente como “lixo descartável”).
“Para falar a verdade, foi só depois que cheguei aqui dentro que tive 100% de consciência sobre a importância da separação desses resíduos. Tive a visão do que é certo e do que é errado, e de como podemos fazer as coisas da forma correta para usufruir melhor desses materiais”, pontua.

A mudança de mentalidade extrapolou os limites do galpão de triagem. Atualmente, Ruthianne atua como uma defensora informal da causa ambiental em sua comunidade, policiando os próprios hábitos e orientando vizinhos e crianças sobre o manejo correto dos materiais.
O cuidado vai desde recolher objetos recicláveis caídos na via pública até o gerenciamento rigoroso do descarte de vidros em sua casa, garantindo a segurança dos coletores urbanos. “A gente já se adaptou tanto que, se ando na rua e vejo algo jogado, já tiro e coloco no canto. Em casa, separo o vidro do lixo comum, coloco à parte e aviso o pessoal do caminhão de coleta”, explica.
Ao final, Ruthianne deixa um apelo sensível para quem ainda enxerga embalagens cotidianas, como um simples saco de arroz ou caixas de papelão, como rejeitos sem valor econômico.
“Eu diria que aquele saco de arroz que às vezes a pessoa joga fora ou queima, na verdade, é renda para muita gente. O conselho que dou é: junte durante uma semana as latinhas, o papelão, os plásticos em uma sacolinha e venha fazer a contribuição trazendo até aqui. A gente agradece de todo o coração”.
