Correio de Carajás

Contando os muitos anos pelo passar das décadas

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

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Quanto mais a gente vive, mais tem histórias para contar. Seja de forma oral, seja escrevendo. Talvez por isso resolvi – tardiamente, como me disse uma vez Mascarenhas Carvalho – escrever crônica no jornal.

Mas acho que não chegarei aos 90 como Gabriel García Marquez para escrever “Memórias de Minhas Putas Tristes”, publicando crônicas aos domingos em um jornal da cidade.

Longe de ser sofrência, mas inquietação. Estou rodeado de amigos ou gente do bem querer incomodada com o tempo que se foi (e vai) ligeiro. Povaréu que está no caminho dos 40, passou dele, beira os 50 ou foi mais um trisco além.

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Se há pouco éramos os meninos e as meninas da Redação, hoje alguns nos chamam de “seu” e “dona”. É o novelo. O mesmo tratamento reverencioso que oferecíamos aos mais de idade que encontramos quando aportamos por aqui.

Mas o jornal e a Redação não são a questão. Desembarcar nos 40, percorrer os 50 poderia ser mais sossegado. Ruminado com prazer e menos lições pra aprender com o tempo e ter de professar experiência.

O desconforto, talvez, não esteja no que passou, mas o que se reserva para a próxima segunda-feira. Digo das segundas porque tenho a besteira de crer que a vida vai mudar numa delas. Dia choramingado, do recomeço indolente e pedinte.

Recomeço é bom, mas prefiro quando o sábado pega a estrada.

Curioso é que a perturbação dessa geração, de ir avançando no tempo, chega num momento em que a possibilidade de viver mais foi espraiada.

Se no tempo de minha infância era difícil ir além dos 60, um foguete pode nos levar aos 100, caso nenhuma fatalidade entre na encruzilhada.

Mais tempo pra viver e também para iniciar cadernos e cadernos em branco. Tomo susto com notícias de que minha ex-turma de amigos que estudaram comigo no Pequeno Príncipe (ou vários deles que viraram militares) já se encaminha para a aposentadoria.

A ilusão é que foi bem ali o 1987, 1988, 1989, 1990… 2000…

Pois muito bem, acho que não sei como terminar este texto. Não posso prever o que vão ser dos dias quando chegarem os 60 (daqui a nove anos).

Quase nem notei a passagem dos 30 para os 40, dos 40 para os 50. Não fosse o corpo que vai se substituindo (para uns avassalador), ainda subo em goiabeiras quando encontro, mas nunca mais na vida me arrisquei passar caminhando por cima de um dos arcos da ponte rodoferroviária sobre o Rio Tocantins.

Não fossem também os comichões, as idiossincrasias, os triques-triques do compreensível humano e as agendas que me mandam para contar os dias “úteis”, não esquadrinharia convencional a passagem do tempo.

Penso na aparente angústia de um amigo que chegou aos 40 na semana passada, achei-o meio desencantado. Tem motivos para puxar novelos e novelos.

Mas também não quero ficar como prolixo como um ex-vereador e ex-deputado que me ligou esta semana pedindo um favor e acabou me segurando numa ligação chata de 31 minutos para falar de sua história e seu “legado” na política estadual.

Encerro com a frase de uma amiga, que está na beirinha dos 40 e não menos enlinhados os pensamentos: “agora, um projeto por vez”. Diferente de quando tinha 20 e pouco anos e atirava em tudo sem serenidade. Talvez!

* O autor é jornalista há 25 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

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