Correio de Carajás

Bertholletia excelsa, ela, a castanheira

Por: Valdinar Monteiro
✏️ Atualizado em 18/06/2026 08h45

Ontem, dia 16 de junho de 2026, foi realizado um evento cultural muito importante para Marabá, o lançamento do livro Castanheiras do Asfalto (Banzeiro Comunicação, 2026), de autoria do jornalista Ulisses Pompeu, que, como cronista, também escreve semanalmente, há muitos anos, a coluna Ouriço Cheio, no jornal impresso e eletrônico Correio de Carajás, jornal que, para quem não sabe ou não lembra, já foi Correio do Tocantins, nome que, a meu ver, era mais coerente e fazia mais sentido. Sei os motivos da mudança, mas sempre discordei dela.

O lançamento foi no pátio da Secretaria Municipal de Agricultura de Marabá, em local que não poderia ser melhor e mais simbólico: embaixo da castanheira de maior diâmetro ainda existente no núcleo urbano de Marabá. E o livro, como já faz ver o título, fala dela, Bertholletia excelsa, a castanheira – como nós, os paraenses, chamamos, de forma reduzida –, a bela e valorosíssima árvore de castanha-do-pará. Não dizemos “castanheira-do-pará”, dizemos apenas “castanheira”. Aliás, para ser mais preciso, o livro não fala apenas da castanheira, mas das castanheiras que, agoniada e agonizantemente, insistem em sobreviver no calor do asfalto da cidade de Marabá.

Foi algo memorável, inesquecível e, por isso mesmo, digno de registro e divulgação pelos mais variados meios e suportes que, conjuntamente, hoje a ciência e a tecnologia nos possibilitam. E foi, sim, registrado, de forma impressa e eletrônica. Muita gente interessada, muitas autoridades. Muitos discursos, como era de se esperar. Todos, como não poderia ser diferente, disseram da sua relação com essa árvore tão significante para nós, da sua beleza e, notadamente, do seu valor econômico, valendo ressaltar a palavra do Dr. Jorge Bichara, famoso médico e ecologista marabaense. Não é sem razão que o brasão do município de Marabá tem uma frondosa castanheira.

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Infelizmente, como sempre acontece, muitos que gostariam de falar e contribuir de alguma forma, discursando ou declamando um poema, por exemplo, não foram contemplados. Lógico, nunca é possível conceder a palavra a todos que dela querem fazer uso. Contudo, valeria a pena (pagaria a pena, como diria Machado de Assis) e teria sido muito interessante, por ser oportunamente muito significativo, se fora dada a palavra ao poeta, cordelista e professor da rede pública municipal Adão Almeida, para recitar seu poema “Castanheira”.

Castanheiras do Asfalto ficou muito lindo e muito bom. É um livro excelente, seja pela qualidade do papel e da impressão, seja pelos recursos tecnológicos utilizados, mas, principalmente, pelo riquíssimo conteúdo. Com muitas informações científicas e culturais, a obra preenche uma lacuna sobre o assunto nas bibliotecas de Marabá, do Pará e do Brasil, para não dizer também do exterior (sem hipérbole, sem exagero). O autor, muito competentemente, soube se utilizar da tecnologia (como, por exemplo, o emprego de QR code em várias páginas), bem como consultar especialistas sobre a Bertholletia excelsa, inclusivamente professores doutores.

Para encerrar. Menino do mato, morei em um castanhal, dos treze aos dezesseis anos (em plena Guerrilha do Araguaia, diga-se de passagem). Meu pai foi tropeiro e castanheiro, e eu também o ajudava, como escrevi na crônica “Embolar castanha”, de 13 de abril de 2013, uma das que compõem meu livro As areias nuas do mar (Scortecci Editora, 2018). E (o que julgo mais importante dizer aqui), ao longo de anos da adolescência, desejei escrever um poema, ou mesmo um texto em prosa, no qual descrevesse a castanheira, como descrevera Olavo Bilac, a meu ver, tão linda e completamente, a última flor do Lácio, no soneto “Língua portuguesa”, que eu achava o texto mais lindo do mundo. Debalde! Julgava inexpressivo tudo que escrevia. E desisti. (Valdinar Monteiro de Souza)

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