Correio de Carajás

Terezinha: a mãe que abraçou o mundo com dez partos

Septuagenária que mora no Núcleo São Félix se orgulha de ter tido partos normais em casa, só com a ajuda da parteira

Dona Terezinha: "Ser mãe, para mim, é uma bênção de Deus. Tive minha primeira filha com 17 anos”/ Fotos: Evangelista Rocha
Por: Ana Mangas
✏️ Atualizado em 09/05/2026 08h49

Aos 76 anos, os olhos de Dona Terezinha Cândido Araújo parecem uma janela. Mostram uma parte do tempo em que conciliava o trabalho na roça com o marido e a educação dos nove filhos. Mãe de dez, nove que caminham no mundo terreno e uma pequena que “partiu ainda no ventre” – a matriarca da família carrega no coração a força e a fartura de amor.

Enquanto ela e o marido – o “paizão”, como afirma, que a deixou há quatro anos – enfrentavam o sol na roça para garantir o sustento da família, a casa ficava sob a guarda da filha mais velha. “Ela era uma mãezona para os irmãos”, recorda.

Entre a rigidez necessária para evitar brigas e o amor e carinho depositado em cada filho, Terezinha afirma que moldou homens e mulheres que hoje são seu maior orgulho.

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Quadro na parede de casa é a melhor memória da matriarca com os filhos que Deus lhe deu

A idosa vive, atualmente, somente na companhia de Deus, como gosta de dizer. Mas, a casa onde mora no Núcleo São Félix, em Marabá, já abrigou ela, o marido e os nove filhos. Agora, com uma rotina mais calma, a aposentada vende polpa de cupuaçu e chopp de frutas para ter uma renda extra e ocupar a mente.

Para este Dia das Mães, o CORREIO foi até a casa de Terezinha. Ela abriu o coração, se emocionou, mostrou o álbum de fotos da família e contou sobre as dores e as delícias da maternidade. “Ser mãe, para mim, é uma bênção de Deus. Tive minha primeira filha com 17 anos e naquela época não tinha esse negócio de evitar, não tinha medicamento. Foram dez partos normais em casa, só com a ajuda da parteira. Só o último filho é que fui para o hospital, mas foi parto normal também. A dor do parto é grande”, afirma, com um sorriso doce e com a convicção de quem não teve as facilidades da medicina moderna.

Terezinha criou filhos e hoje acompanhar até sua terceira geração com os bisnetos

O vazio das nove camas

Questionada sobre o que mais sente falta da época da ‘casa cheia’, a voz de Terezinha perde o fôlego. As lágrimas, que ela tenta conter (sem sucesso), denunciam que o tempo não apaga as lembranças.

“Sinto saudade da noite”, confessa, emocionada. “Quando eu ia deitar, passava na cama de ‘tudinho’. Ia agasalhar, cobria direitinho, dava boa noite. Eu queria não me emocionar falando, mas não tem jeito. Já faz tempo, mas eu nunca deixei nenhum desamparado”.

Filhos e netos costumam visitá-la com frequência. Eles, inclusive, fazem uma espécie de rodízio para dormir com a matriarca toda noite. Ela nunca dorme sozinha.

Na verdade, a casa, principalmente em dias de festa, como no último dia 13, em comemoração do seu aniversário, ficou lotada com todos os filhos, netos e bisnetos. “É muita gente, muita comida, muita zoada. Eu gosto”, atesta.

Com uma família enorme, dona Terezinha não consegue contabilizar em números exatos sua descendência. “São tantos netos que perdi as contas. Mas bisneto eu sei, tenho onze”.

Terezinha e o marido – o “Paizão”, que faleceu há quatro anos e deixou saudades

Essa mãezona entendeu que a vida é um ciclo de chegadas e partidas, e conta que aceitou que, assim como um dia deixou a casa de seus pais, seus filhos precisariam ganhar o mundo para construir suas próprias histórias e sair debaixo da sua asa.

Mas, no fundo do coração de mãe, carregado de saudade, o que transparece é que ela ainda caminha, na sua doce lembrança, todas as noites para cobrir seus nove filhos.

Para as outras mães, o recado de quem já viveu quase oito décadas é simples, mas urgente: “Amem muito seus filhos”.