Correio de Carajás

Aldeias indígenas esquecidas reivindicam melhorias e ameaçam bloqueio da BR-153

Lideranças das aldeias Tukapehy, Ipirahy e Awussehe pedem melhorias na saúde, educação e abastecimento de água / Foto: Evangelista Rocha
Lideranças das aldeias Tukapehy, Ipirahy e Awussehe pedem melhorias na saúde, educação e abastecimento de água / Foto: Evangelista Rocha
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Apesar de serem integrantes dos povos originários desta terra, 44 famílias indígenas das aldeias Tukapehy, Ipirahy e Awussehe, em São Geraldo do Araguaia, vivem esquecidas pelo poder público. As comunidades fazem parte da Terra Indígena (TI) Sororó, que está localizada a pouco mais de 131 quilômetros de Marabá e padece na precariedade de três setores: saúde, educação e abastecimento de água.

A Reportagem do Portal Correio foi acionada pelo vice-cacique da aldeia Tukapehy, Arukapé Aikewara, que denunciou toda a situação. As aldeias são recentes, tendo sido fundadas ao longo de 2015 e, desde então, vêm lutando por direitos básicos e melhorias em serviços públicos. Caso as demandas não sejam atendidas, eles ameaçam bloquear a Rodovia BR-153, que liga São Domingos a São Geraldo do Araguaia.

As demandas mais recorrentes são de competência da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), do Ministério de Saúde e da Prefeitura Municipal de São Geraldo do Araguaia.

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Caciques Ehapikong Suruí da Aldeia Awussehe (esquerda), Terriweri Suruí da Aldeia Tukapehy (centro) e Waiwera Suruí da aldeia Ipirahy (direita) / Foto: Evangelista Rocha

A Reportagemfoi até a aldeia Tukapehy, onde entrevistou os três caciques das aldeias protestantes: Terriweri Suruí (Tukapehy); Waiwera Suruí (Ipirahy); e Ehapikong Suruí (Awussehe). As aldeias fazem parte das sete comunidades da Terra Indígena Sororó.

A comunidade vive da agricultura familiar, plantando mandioca, milho, abóbora, batata, inhame, além da comercialização da castanha-do-pará, que garante uma renda mensal para os indígenas durante o período da safra da amêndoa.

PRECARIEDADE NA SAÚDE

Segundo Arukapé, muitas são as dificuldades para se ter acesso a saúde nas aldeias, uma vez que a única Unidade Básica de Saúde (UBS) existente nessa TI está localizada na aldeia Sororó, que atende todas as outras comunidades. “Os profissionais da saúde da Sesai vão até as aldeias e atendem de forma improvisada, ao ar livre. Os exames que necessitam de um espaço privado, como em mulheres, são feitos nas residências.

Foram contratadas duas técnicas de enfermagem para atender as três comunidades, porém, elas permanecem na aldeia Ipirahy e para ir até as demais, localizadas a quase 25 quilômetros de distância uma da outra, é necessário solicitar um veículo que só atende por demanda, o que pode gerar um tempo de espera longo.

“Muitas vezes, precisamos levar o paciente para a saúde municipal ou estadual, com nossos veículos próprios, porque o atendimento da Sesai demora muito. Além disso, quando temos casos mais graves, que necessita de um médico, precisamos fazer um documento solicitando a vinda desse profissional, que só chega um mês após o pedido”, relata Arukapé.

Os poucos veículos encontrados na aldeia foram adquiridos com recursos próprios dos indígenas / Foto: Evangelista Rocha

Sobre veículos, o vice-cacique também aponta para a necessidade de mais carros à disposição das aldeias, uma vez que há apenas um para atender toda a demanda da TI Sororó. “O motorista não descansa, ele está sempre viajando para atender nosso povo. Por isso, solicitamos mais veículos, para que ele não fique sobrecarregado e nossa comunidade consiga atendimento com agilidade”, justifica.

A cacique Terriweri, representando os demais líderes das três aldeias, aponta que a construção de uma UBS seria suficiente para atender a demanda e desafogar o acúmulo de serviços da equipe de saúde e do motorista. “Essa situação não pode ficar assim, pois há recursos para fazer esses paliativos e hoje vivemos desassistidos”, queixa-se.

Arukapé mostra o local onde o Posto de Saúde poderia ser construído, logo na entrada da aldeia / Foto: Evangelista Rocha

COVID-19 AGRAVA SITUAÇÃO

Como se não bastasse a precariedade dos atendimentos de saúde a esses povos, em 2020 houve mais um agravante: a chegada do novo coronavírus, que se alastrou pelas aldeias da TI Sororó. A covid-19 não tirou vidas entre os indígenas Tukapehy, Arukapé e Aikewara, porém, houve perdas de familiares que residiam em outras aldeias, especialmente, na Sororó.

Familiares da esposa do cacique Waiwera vieram a óbito por conta da doença, além de três irmãos da cacique Terriweri, que eram guerreiros na aldeia Sororó. “Graças a Deus não tivemos perdas por aqui, mas somos todos parentes e sentimos profundamente a morte dos nossos entes queridos. Foi triste e o pior poderia acontecer aqui [na aldeia Tukapehy], mas Deus foi misericordioso com meu povo”, reconheceu Terriweri.

Cacique Terriweri relembra que ficou com dores no corpo e falta de ar, devido à covid-19 / Foto: Evangelista Rocha

Questionados sobre como o vírus poderia ter chegado até a aldeia, os caciques não souberam responder, apenas relembrar o quão doloroso foi ter de tratar uma doença desconhecida e mortal. “Senti muita dor no corpo, tive febre e várias vezes fiquei sem ar. Só consegui aliviar mais os sintomas graças ao chá de boldo que minha esposa fazia”, disse o cacique Waiwera.

O primeiro caso com sintomas da covid-19 surgiu na cacique Terriweri, em abril de 2020, e por viverem juntos e serem poucos, todos acabaram sendo infectados, desde as crianças até os mais velhos. “Os profissionais da saúde só vieram aqui quando nós melhoramos, lá pelo mês de outubro. Eles diziam que estavam de quarentena e que não poderiam entrar em uma aldeia por risco de nos infectar, mas todos estávamos infectados”, indagou a chefe indígena.

No domingo (24), a vacina chegou até a aldeia Tukapehy, para ser aplicada primeiramente em seus habitantes e posteriormente enviada às demais. Porém, em protesto, os indígenas não aceitaram serem vacinados. “Ela [a vacina] foi politizada. Como eles nos abandonam durante o período que tivemos a doença e agora querem nos vacinar? Só para colocar na mídia? Por isso não aceitamos”, justificou Arukapé com firmeza.

Cacique Waiwera foi o único que autorizou a vacinação, mesmo assim, nem todos de sua aldeia aceitaram / Foto: Evangelista Rocha

Tukapehy e Awussehe não se imunizaram. Porém, alguns membros da aldeia Ipirahy aceitaram o imunizante. O cacique Waiwera não soube explicar exatamente o motivo de não aderirem ao protesto. “Acho que muitos ficaram com receio de terem reações. Outros decidiram se arriscar”, respondeu, com dificuldade no português.

ÁGUA DANOSA

A questão dos Sistemas de Abastecimento de Água também é um problema nas três aldeias, pois há cerca de oito meses, as comunidades receberam uma obra do Serviço de Edificação e Saneamento Ambiental Indígena (SESANI) onde foram construídos poços artesianos.

Mas a obra não foi concluída, restando a parte de encanamento para que a água chegue até as torneiras e chuveiros. Arukapé conta que foram seis poços artesianos perfurados em toda a TI Sororó, sendo que a sua aldeia recebeu o primeiro.

Arukapé mostra a “gambiarra” feita para utilizar a água do poço / Foto: Evangelista Rocha

“Eles nunca finalizaram a obra e tivemos que continuar consumindo a água da grota que passa em nossa terra. Mas ela só fica cheia no inverno; quando é verão, a escassez toma de conta”, relata Arukapé. Como uma alternativa para o transtorno, o próprio vice-cacique construiu uma rede de encanamento improvisado, a famosa “gambiarra”, para que pudessem puxar a água do poço e levá-la, pelo menos, para a torneira. O trabalho funcionou, mas a água chega suja,barrenta e com grãos de terra. “Só depois de umas duas horas ela fica limpa”, disse Arukapé.

Apesar do “jeitinho” achado, muitas vezes alguns canos soltam / Foto: Evangelista Rocha

E mesmo ficando visualmente limpa, a água não passa por tratamento que elimine os microrganismos que a contaminam, especialmente os responsáveis por causar doenças. Por causa disso, muitas crianças e idosos chegam a passar mal constantemente, sentindo dores de estômago e diarreia. “Semana passada mesmo, meus filhos estavam sentindo dor de barriga. Com certeza é por causa dessa água suja”, comentou Arukapé.

Além disso, a água que eles conseguem puxar, só chega até as torneiras. O banho ainda é tomado no rio, o que apesar de parecer algo cultural dos indígenas, não é o ideal com todo os aparatos de modernização da higiene pessoal hoje em dia. “Gostaríamos que essa obra fosse finalizada, não podemos padecer nessa situação para sempre”, cobrou o cacique Ehapikong.

Neste igarapé, os indígenas tomam banho e pescam, porém, ele só fica mais cheio no inverno / Foto: Evangelista Rocha

FALTA ESTRUTURA PARA EDUCAÇÃO

Nas três aldeias, não há estrutura adequada para a educação das crianças e adolescentes da comunidade e essa também é uma reivindicação das lideranças ouvidas pelo Portal Correio. As aulas acontecem em uma casinha improvisada, construída pelos próprios indígenas com tábuas de madeira e palha.

Há uma lousa branca, uma estante de madeira com alguns livros doados pela Prefeitura de São Geraldo, uma máquina de xerox e algumas caixas com poucos lápis de cores, borracha e apontador. As carteiras escolares estavam guardadas, já que devido à pandemia, as aulas estão suspensas.

Em abril de 2020, em meio a chegada do novo coronavírus, a Prefeitura começou a construir uma escola na aldeia Tukapehy. “Eu ainda cheguei a pedir que não fosse feita naquele momento, mas a Prefeitura alegou que precisava iniciar para cumprir uma determinação do Ministério Público”, disse Arukapé.

Apesar disso, a obra não foi concluída, restando uma série de acabamentos para que ela possa funcionar plenamente. “Faltou fazer os encanamentos, trazer energia, colocar o piso, além de instalar os móveis e eletrodomésticos para a cozinha”, apontou Arukapé.

SESAI E PREFEITURA RESPONDEM

O Portal Correio procurou os órgãos competentes e levou as demandas reclamadas pelas três aldeias. Sobre a questão da saúde, a SESAI respondeu em nota que “o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Guamá-Tocantins tem atuado em todas as suas aldeias de abrangência realizando atendimentos de rotina da atenção básica, visitas domiciliares e educação em saúde”.

A SESAI se defendeu das reclamações, alegando que “não houve interrupção da assistência de saúde básica prestada nas aldeias do DSEI, principalmente no Polo Base Marabá, durante a pandemia causada pela Covid-19, mas sim uma intensificação de ações de vigilância e enfrentamento ao coronavírus, como a contratação de mais profissionais de saúde e uma Equipe de Resposta Rápida para reforçar o Polo Base, enviando medicamentos periodicamente à região”.

As lideranças indígenas se preparam para agir, caso as reivindicações não sejam atendidas / Foto: Evangelista Rocha

Sobre a vacinação, a secretaria informou que “o DSEI também tem realizado reuniões com as lideranças indígenas para interiorização da vacina”. Já em relação à construção de uma UBS, foi informado que apenas são construídas em aldeias cuja população seja de 50 a 250 indígenas.

“As aldeias Tukapery, Ipirahy e Awussehe do polo Base Marabá têm população inferior a 50 pessoas e, por isso, são referenciadas nas unidades da aldeia Sororó e em outras unidades de saúde próximas”, justificou a SESAI, fundamentando-se no Plano Distrital de Saúde Indígena, pactuado com o Conselho Distrital de Saúde Indígena (CONDISI) Guamá-Tocantins.

Já sobre a problemática da logística causada pela existência de apenas um veículo para atender a comunidade, a SESAI informou que “atualmente, o Polo Base Marabá conta com sete veículos modelo pick-up para atender as demandas de saúde básica e deslocamento das Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena às aldeias”.

Como solução, foi comunicado que o “DSEI abriu um processo para aquisição de mais onze veículos para aumentar a frota que atende os nove Polos Base e cinco Casas de Saúde Indígena (CASAI), além da sede administrativa”.

Em relação às obras de Sistemas de Abastecimento de Água nas aldeias, a SESAI informou apenas que o “processo para a conclusão da obra está em andamento na SESANI do DSEI Guamá-Tocatins, atendendo as recomendações da Coordenação de Gestão dos Determinantes Ambientais da Saúde Indígena (COAMB) da secretaria”. Não foi informado um prazo para conclusão da mesma.

A Prefeitura de São Geraldo se manifestou sobre a construção das escolas, informando em nota que “a secretária de Educação do Município, Carleny Botelho de Carvalho, visitou as aldeias indígenas Tukapehy, Awussehe e Ipirahy para levantamento das demandas estruturais a administrativas relacionadas à área da educação”.

Ainda em nota, comentou que a “situação de algumas escolas encontradas é lamentável e se arrasta de gestões anteriores”, mas que “a prefeitura informa que vai viabilizar meios para resolver a deficiência dos problemas estruturais encontrados nas três aldeias em pauta”, sem dar detalhes quais serão esses meios.

A Prefeitura estimou, ainda, que a escola construída na aldeia Tukapehy “deve ser finalizada até o início das aulas presenciais no município”, porém, não há previsão de quando as aulas de São Geraldo iniciarão. Também acrescentou que a obra “está contida no plano de governo da gestão municipal”.

Em relação as demais aldeias citadas na Reportagem, a Prefeitura realizará “um levantamento orçamentário, seguido de um estudo técnico e geográfico entre as duas localidades sobre a possibilidade de construção de escolas”, finalizou a nota. (Zeus Bandeira)

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