Correio de Carajás

A nova gramática do corpo: o certo é treinar ou malhar?

 Cheguei à academia às 5h10 da manhã da última terça-feira, dia 31 de janeiro. Com sentimento de culpa porque tinha “levado falta” no dia anterior. Então, eu quis descontar e fazer exercícios com carga dobrada naquele dia. As academias, com o tempo, foram ganhando um vocabulário próprio, criado por pessoas que viraram fanáticas pela modelagem do corpo.

Às vezes me pergunto, em que momento passamos a substituir malhar pelo odioso treinar? Uso a terceira pessoa do plural, bom que se diga, de modo retórico, uma vez que, ao menos agora, alguns amigos não estão treinando, tampouco malhando. Mas, tenho de admitir, a questão me interessa no que tem de reveladora sobre o nosso tempo. Explico.

Lembro quando malhar desbancou uma construção ainda mais antiga: fazer ginástica. Foi lá pelos 1990, época em que os espaços de academia se popularizaram e chegaram aos bairros, primeiro lenta, depois avassaladoramente, até o ponto em que havia tantos equipamentos do tipo quanto padarias chamadas Dois Irmãos.

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Não demorou, e malhar se impôs como nova gramática do corpo, estabelecendo uma fronteira intergeracional que instituía uma bipolaridade no mundo, mesmo depois da queda do muro de Berlim. Os mais velhos se referiam ao exercício físico de uma maneira, enquanto os mais jovens de outra, e esses polos jamais se misturavam. Pelo contrário: travavam entre si uma guerra fria.

Malhar ganhou de vez o status de quintessência da jovialidade e da modernidade com o lançamento da série global “Malhação”, cujas desventuras atlético-amorosas se passavam exatamente numa academia, onde os personagens interagiam mais longamente do que na escola – até que a própria academia virou a escola.

Salto para o final da segunda década dos anos 2000, quando malhar já não goza de tanto prestígio. É até cafona, passadiço, mais ou menos como ouvir Legião Urbana em uma JBL na praia tomando Brahma (eu não bebo, mas meus amigos reclamam dessa cerveja agora).

Em seu lugar, altissonante e imperativo, eis que surge o verbo “treinar”, que, mais do que seus predecessores, escancara uma dimensão de competição e performance, não militar ou olímpica, como o termo faz crer, mas social.

Quando se treina, não se está ali meramente por causa da saúde ou do bem-estar orgânico (mente sã, corpo são etc.), mas para se aprimorar fisicamente, registrando metas (monitoradas por aplicativos) e colhendo seus resultados dentro de um prazo fixado em tabela parametrizada.

Ora, quem sai de casa para treinar não está para brincadeira. Na minha cabeça, penso logo em alguém imbuído do mesmo espírito de um Rocky Balboa às vésperas de uma luta, ou num atleta prestes a quebrar um recorde mantido por uma máquina humana do leste europeu, cuja disposição para a vitória foi moldada aos dois anos de idade em temperaturas abaixo de zero.

É isso tudo que imagino quando um amigo menciona, em tom exageradamente sério, que o treino foi duro hoje de manhã. Que treino, camarada?

Nessas horas, a imagem que me ocorre nunca é a de alguém que vai sentar num banco acolchoado sob uma luz instagramável e pegar uns halteres de 15 kg, enquanto mira um espelho de parede inteira em frente ao qual mais tarde irá fazer uma selfie retesando os músculos e postá-la nos stories – como faz todos os dias.

E, no entanto, contrariamente a essa militarização disciplinada de “shapes” prontos ao combate, treinar não quer dizer nada do que o seu emprego atual promete.

Meus amigos crossfiteiros que me perdoem, mas vou ter de falar, também, dessa nova modalidade, que se transformou em vício para muitas pessoas. Lá, eles têm glossário próprio e não falam a palavra aquecimento, mas warm up; a tarefa a ser executada no dia se transformou em wod; e o tempo limite para completar cada atividade é chamado de time cap;

Eu vou continuar fazendo meus exercícios isolado, numa pequena academia com número de aparelhos reduzido. Já meus amigos estão nas melhores e mais caras. E nem ligo se é malhar ou treinar.

Afinal, quem vai a uma academia ou a uma box de crossfit hoje não está lá para fazer algo substancialmente tão diferente do que a sua mãe fazia de collant azul e vermelho nas aulas de aeróbica, levantando uma perna e depois a outra, ao som do A-ha ou dos Bee Gees.

* O autor é jornalista há 26 anos e escreve crônica às quintas-feiras

 

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.