Antigamente, Marabá conhecia o crime pelo nome do bairro.
Era possível apontar no mapa, ainda que informalmente, onde começava a influência de um grupo e onde terminava a de outro. Na Santa Rosa, havia a gangue da Santa Rosa. No Cabelo Seco ou na Vila do Rato, outra turma. Na Folha 33, uma rapaziada; na Folha 6, outra. Eram tempos de rixas, provocações, acertos de contas e disputas que carregavam muito da lógica das ruas onde aqueles jovens cresceram.
Não que fosse um tempo bom. Longe disso.
Leia mais:Mas havia algo quase rudimentar naquela criminalidade. As gangues tinham rosto, apelido, esquina, território e, muitas vezes, uma liderança que podia ser identificada. O conflito era horizontal. Um grupo contra outro. Uma rua contra outra. Uma quebrada contra a vizinha.
Marabá cresceu. As ruas se alongaram, os bairros se multiplicaram, a cidade ganhou novos moradores, novas riquezas e, também, novas formas de violência.
E o crime mudou junto.
Aquela velha geografia das gangues foi sendo substituída por uma espécie de mapa invisível, muito mais amplo e complexo. O crime deixou de ser apenas uma disputa entre grupos de determinada área e passou a integrar uma engrenagem maior, com conexões que ultrapassam bairros, municípios e até Estados.
É aí que entram as facções.
O que aconteceu em outras grandes cidades brasileiras também encontrou terreno em Marabá: antigos grupos, quadrilhas e traficantes locais passaram a se relacionar com organizações mais estruturadas. A lógica deixou de ser apenas a da amizade, da vizinhança ou da rivalidade de esquina. Surgiram vínculos, alianças, códigos, ordens e hierarquias.
Antes, o chefe estava perto. Agora, a ordem pode vir de longe.
Existe uma diferença enorme entre o sujeito que manda em uma esquina e uma organização que possui conexões, dinheiro, armas, contatos, integrantes dentro e fora das prisões e uma cadeia de comando capaz de sobreviver à prisão ou à morte de uma liderança.
Essa talvez seja uma das transformações mais assustadoras.
Prender o chefe já não significa necessariamente desmontar o negócio. Matar uma liderança não significa, automaticamente, acabar com a organização.
Uma vaga fica aberta e alguém a ocupa. É quase como uma empresa clandestina, só que alimentada por medo, dinheiro, violência e morte. O gerente cai, outro assume. O soldado é preso, outro aparece. Uma liderança desaparece, outra surge. E, muitas vezes, a organização não apenas sobrevive: cresce.
Por isso, a fotografia de Marabá mudou.
E talvez seja por isso que a morte de Valentina Irene Alves Pereira tenha causado tanto impacto. A menina tinha apenas 15 anos.
Desapareceu no dia 25 de agosto e, dias depois, seu corpo foi encontrado enterrado em uma cova rasa em uma área de mata próxima ao Residencial Tiradentes, no Núcleo Morada Nova. Três suspeitos foram presos durante as investigações. Segundo a Polícia Civil, o caso está relacionado à atuação de uma facção e a uma disputa envolvendo organizações criminosas.
A investigação revelou uma violência que parece saída de outro lugar, mas aconteceu aqui, em Marabá.
Segundo a Polícia Civil, uma fotografia em que Valentina fazia gestos interpretados como ligados a uma facção rival teria provocado suspeitas e desencadeado uma sequência de violência que terminou com a morte da adolescente. A apuração apontou ainda para a existência de um chamado “tribunal do crime”.
E é justamente aí que a transformação deixa de ser apenas uma questão policial.
Porque quando uma organização criminosa decide quem pode viver, quem deve morrer, quem pode circular, quem deve falar e quem precisa ficar em silêncio, ela não está apenas cometendo crimes.
Está tentando exercer poder.
É uma espécie de Estado paralelo, sem Constituição, sem voto, sem Justiça, sem direito de defesa. Uma autoridade construída pela ameaça. Uma lei escrita com medo.
O problema é que esse poder não fica restrito aos criminosos.
Ele atravessa a porta da casa do trabalhador.
Chega à escola.
Alcança o comércio.
Muda o caminho de quem volta para casa à noite.
Faz moradores evitarem determinadas ruas.
Faz famílias ensinarem aos filhos que certas fotografias, gestos, amizades ou comentários podem ser interpretados de maneira perigosa.
A periferia passa a conviver não apenas com o medo de ser vítima de um assalto ou de uma bala perdida. Passa a conviver com o medo de desagradar alguém que sequer conhece.
E há outro detalhe dessa transformação que merece atenção: as prisões.
As penitenciárias masculina e feminina de Marabá deixaram de ser apenas lugares para onde o Estado leva quem cometeu um crime. São também espaços onde criminosos se encontram, criam vínculos, estabelecem alianças e reproduzem códigos que podem voltar às ruas.
É uma ironia amarga.
O Estado prende para interromper o crime.
O crime, algumas vezes, usa a prisão para se reorganizar.
É por isso que a velha frase “prender o bandido” não dá mais conta de explicar o fenômeno.
Hoje é preciso perguntar: quem ocupa o lugar dele? Quem financia? Quem fornece? Quem comunica? Quem determina? Quem recruta? Quem obedece? Quem substitui?
A gangue da esquina tinha endereço. A facção tem rede. A gangue dependia de homens.
A facção depende de uma estrutura.
A gangue podia acabar quando seus integrantes fossem presos ou mortos. A facção tenta sobreviver justamente a essas perdas.
Talvez essa seja a mudança social mais profunda no crime de Marabá nas últimas décadas.
O crime deixou de ser apenas uma disputa entre pessoas que queriam dominar determinado pedaço da cidade e passou a ser uma disputa por mercados, territórios, influência e poder.
E quem sofre essa transformação de maneira mais cruel continua sendo quem sempre esteve no meio do caminho: o morador da periferia.
É ele quem escuta o tiro. É ele quem fecha a porta mais cedo. É ele quem perde um filho.
É ele quem vê uma menina de 15 anos desaparecer e espera, durante dias, que ela volte para casa.
Valentina não é apenas mais um nome em uma estatística. É também um retrato doloroso de uma cidade que mudou.
Marabá cresceu, modernizou-se, ganhou prédios, condomínios, universidades, empresas, shopping centers e novos bairros.
Mas o crime também fez sua própria modernização.
A velha guerra de gangues ficou para trás.
No lugar dela, surgiu algo mais silencioso, mais organizado e, por isso mesmo, mais difícil de combater.
Antes, era possível perguntar:
“De que bairro eles são?”
Hoje, talvez seja necessário perguntar:
“Quem está acima deles?”
Essa é a pergunta que a cidade precisa fazer.
Porque quando a gangue vira comando, o problema deixa de ser apenas quem controla a esquina.
Passa a ser quem controla o medo.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS
