Correio de Carajás

A floresta encantada de um Pagão (quase) esquecido

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

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Ah, se tivéssemos ouvido o decano da poesia local, Marabá seria hoje um município repleto de bosques, matas entremeando plantios, florestas frondosas. Nosso clima seria mais fresco e o ar mais puro, teríamos mais chuvas, húmus, nuvens, alimentos, mais bem-estar e beleza, madeiras, medicinas, mais vida animal e vegetal, bancos genéticos, rios mais caudalosos, fertilidade da terra…

Teríamos, se tivéssemos ouvido o alerta de Pagão, riachos por todo lado, espelhos de água refrescante, reservas com água recolhida das chuvas, água para a agricultura, para o consumo humano, vegetal e animal. Ele nos dizia, já há 40 anos, que devemos progredir sem destruir a natureza. A ausência das matas, pregava Ademir, traz secura à atmosfera, esterilidade aos campos, desterro e destruição à Amazônia. E seus alertas se desdobravam em textos convictos, alarmantes – e belos.

Ele advertia as crianças que deveriam guardar os sons da natureza, como passamos regionais, como uma recordação de uma sinfonia que não voltariam a ouvir.

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Grupos humanos tornam florestas em lugares desérticos; outros tornam desertos em locais férteis, frescos e agradáveis. Ele tentou educar agricultores, criadores, governantes, fez campanhas incansáveis a pregar suas ideias ecológicas.

Nunca precisou usar o termo “ecologia” para falar aos de seu tempo que os rios secarias, as florestas queimariam e que quase nada nos sobraria, nem mesmo as lendas de animais encantados.

Transmitia seu pensamento por meio de poesias, artigos de jornal, livros, relatórios. Absorto na contemplação da natureza, sempre em conexão com os seres humanos, usava muito de seu tempo medindo e anotando. Parecia que desenhava quadros com a palavra.

“Antigamente”, falava das matas marabaenses, “à tarde, pela manhã até alto sol, e principalmente à noite, e estendia-se sobre a planície e habitações, envolvendo tudo debaixo de um imenso tocado de vapor úmido.

A temperatura em todo tempo baixa, e desde as 4 horas da tarde o frio começava a incomodar aos forasteiros: hoje apenas sente-se à noite um ar mais fresco”.

Mas, infelizmente, em Marabá, não seguimos as ideias de Pagão, não plantamos matas e, a cada dia, desmatamos. É uma das explosões de inteligência que vemos aí, empoleirado, sozinho, numa casa fantasma na Folha 17. Já não ouvimos sua voz. Mas sua poesia, como a que reproduzo abaixo, está a nos alertar sobre o que ainda podemos perder:

Repara bem neste verde, filho. Atenta

Para o mistério desse cantar de pássaros

inúmeros

Procura ouvir

o sussurro mágico dessas

fontes, desses

córregos, desses

fios d’água tão pura e fria.

Repara bem neste verde, filho. Guarda-o

na tua memória. Um dia,

quando eu for semente

que não dá mais frutos,

e os filhos de teu sêmen

perguntarem a ti sobre

símbolos perdidos

(Iara peixe-boi cobra-norato

açaizeiros castanhais e flores)

e nada mais houver senão o

deserto imenso e nu desta Amazônia,

fala-lhes do verde, das plumas

dessas árvores irreais, desses

fantasmas de bronze que um tempo

se confundiam na sombra dos arvoredos

e se chamavam xavantes xicrins

parakanans, pássaros inúteis.

Beta posseira

(À Beta PA-79 e ao feixe de sua angústia)

Pardal voou contra o vento,

a luz colheu-o na teia;

ficou um traço miúdo

no corpo ardente d’areia.

O passarinho galante

constrói seu ninho na mata;

e lá, no meio das folhas,

seu canto claro desata.

(E tu, menina posseira,

presta atenção neste fato:

que um dia não haverá

nem passarinho nem mato).

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